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<title>Centro Cultural do Alto Minho</title>
<subtitle>O Centro Cultural do Alto Minho é uma instituição sem fins lucrativos, sob a forma de cooperativa, declarada de Utilidade Pública desde 1989, e nascida com base em decreto governamental, tendo o Ministério da Cultura mantido um apoio continuado ao longo destes 28 anos de existência.</subtitle>
<updated>2011-09-24T20:14:17+01:00</updated>
<entry><id>tag:2011-09-24T20:14:17+01:00:www.solucaoweb.com/ccaminho/pt/1</id><link rel="alternate" href="http://www.solucaoweb.com/ccaminho/pt/"/><title>Centro Cultural do Alto Minho</title><content type="xhtml"><div xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml">
<h1>NOTÍCIAS</h1><br/><br/><div style="text-align: center;"><a href="/ccaminho/pt/?&amp;download=programa_luso_galaico.pdf"><img src="./archive/feirao_programa1.jpg"></a><br/></div><br/><h4 style="text-align: center;">Clique na imagem para fazer download do programa</h4><div style="text-align: center;"><br/><a href="/ccaminho/pt/?&amp;download=programa_luso_galaico.pdf"><img src="./archive/feirao_programa.jpg"></a><br/></div><br/><div style="text-align: center;"><img src="./archive/matrizes_cartaz.jpg"><br/></div><br/><div style="text-align: center;"><img src="./archive/matrizes_convite.jpg"><br/></div><div style="text-align: center;"><br/></div><br/><p align="center"></p>
<h1>Destaque - Concurso Literatura Infanto-Juvenil/Prémio CCAM</h1><br/><h4>Cerimónia de Entrega dos Prémios do Concurso de Literatura Infanto-Juvenil/Prémio CCAM</h4>A sala Couto Viana, da Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, foi palco, na passada sexta-feira, dia 15 de Janeiro, da Cerimónia de Entrega dos Prémios do <span style="font-style: italic;">I Concurso de Literatura Infanto-Juvenil/Prémio CCAM</span>, promovida pelo Centro Cultural do Alto Minho. <br/><br/>Além dos três premiados, também estiveram presentes membros do Júri,nomeadamente Conceição Campos, Luisa Quintela e Manuel Afonso, bem como o Presidente da Ordem dos Médicos de Viana do Castelo, Nélson Rodrigues. A restante sala foi preenchida por algumas crianças de escolas do Concelho para assistir à peça de teatro &#8220;<span style="font-style: italic;">Rha</span>&#8221;, de Lucilo Valdez, interpretada por Gil Filipe e Nuno Loureiro (Teatro Ágil). <br/><br/>Recorde-seque após a leitura e avaliação das obras, o júri, composto por Manuel António Pina, Conceição Campos, Benjamim Moreira, Luisa Quintela,Matilde Rosa Araújo e Manuel Afonso, deliberou a atribuição do <span style="font-weight: bold;">1º Prémio</span> a <span style="text-decoration: underline;">Maria da Conceição Dinis Alves Ferreira Tomé</span>, de Viseu, pela <span style="font-style: italic;">&#8220;</span><span style="font-style: italic;">História do rapaz que se tornou fazedor de estrelas&#8221;</span>. <span style="text-decoration: underline;">Helena Maria Rodrigues Teotónio Fernandes</span>, de Brejos de Azeitão, arrecadou o <span style="font-weight: bold;">2º Prémio</span> com <span style="font-style: italic;">&#8220;Os gémeos voadores e a nuvem-montanha&#8221;</span>. A <span style="font-weight: bold;">Menção Honrosa</span> foi atribuída a <span style="text-decoration: underline;">Francisco Fragoso Amaral Guedes de Magalhães</span>, do Porto, pelo trabalho <span style="font-style: italic;">&#8220;O Erro de Cori&#8221;</span>.<br/><br/>A vencedora do 1º prémio recebeu um prémio monetário no valor de 1000¤,bem como a oportunidade de ver a sua obra editada. A vencedora do 2ºprémio recebeu um prémio monetário de 200¤, com o apoio da Ordem dos Médicos de Viana do Castelo. Os premiados receberam, também, um certificado de participação.<br/><br/>Nesta primeira edição do Concurso de Literatura Infanto-Juvenil/Prémio do CCAM, participaram 24 trabalhos oriundos de todo o país, e de todas as idades, sendo que apenas um viu a sua obra ser desqualificada por não se enquadrar na área da literatura infanto-juvenil. <br/><br/>Esta iniciativa, dirigida a todas as idades, surgiu no âmbito das Comemorações dos 30 anos do CCAM, com o objectivo de incentivar e promover a literatura infanto-juvenil,criando a possibilidade de lançar novos escritores e consolidar aqueles que já escrevem há algum tempo, mas que por falta de oportunidade não encontram espaço para a publicação dos seus textos. <br/><br/>Veja a seguir a Galeria de fotografias da Cerimónia de Entrega dos Prémios, Espectáculo de Teatro e almoço. <br/><br/><div style="text-align: center;"><embed type="application/x-shockwave-flash" src="http://picasaweb.google.pt/s/c/bin/slideshow.swf" flashvars="host=picasaweb.google.pt&amp;hl=pt_BR&amp;feat=flashalbum&amp;RGB=0x000000&amp;feed=http%3A%2F%2Fpicasaweb.google.pt%2Fdata%2Ffeed%2Fapi%2Fuser%2Fvianacultural%2Falbumid%2F5428489265033572433%3Falt%3Drss%26kind%3Dphoto%26hl%3Dpt_BR" pluginspage="http://www.macromedia.com/go/getflashplayer" width="400" height="267"><br/></div><h4>Resultado do I Concurso de Literatura Infanto-Juvenil / Prémio CCAM </h4>O Júri do I Concurso de Literatura Infanto-Juvenil/Prémio CCAM, formado por Manuel António Pina, Conceição Campos, Benjamim Moreira , Luisa Quintela, Manuel Afonso, depois de analisar os trabalhos enviados ao Centro Cultural do Alto Minho, vem por este meio divulgar o resultado do Concurso. <br/><br/><span style="font-weight: bold;">1º Prémio</span>: <span style="font-style: italic;">&#8220;História do rapaz que se tornou fazedor de estrelas&#8221;</span>, de Maria da Conceição Dinis Alves Ferreira Tomé (Viseu);<br/><br/><span style="font-weight: bold;">2º Prémio</span>: <span style="font-style: italic;">&#8220;Os gémeos voadores e a nuvem-montanha&#8221;</span>, de Helena Maria Rodrigues Teotónio Fernandes (Brejos de Azeitão);<br/><br/><span style="font-weight: bold;">Menção Honrosa</span>: <span style="font-style: italic;">&#8220;O Erro de Cori&#8221;</span>, de Francisco Fragoso Amaral Guedes de Magalhães (Porto).<br/><br/>A cerimónia de entrega dos Prémios terá lugar na próxima sexta-feira, dia15 de Janeiro, pelas 10h na Sala Couto Viana da Biblioteca Municipal de Viana do Castelo, seguido da apresentação do espectáculo de teatro <span style="font-style: italic;">&#8220;Rha&#8221;</span>, texto de Lucilo Valdez com interpretação de Gil Filipe e Nuno Loureiro (Teatro Ágil). <br/><br/>O CCAM deixa aqui o convite, desde já, a todos os restantes participantes no Concurso para a Cerimónia de Entrega dos Prémios.<br/><br/>Matilde Rosa Araújo que, desde o primeiro momento, mostrou todo ointeresse, gosto e disponibilidade para fazer parte deste júri, porrazões de saúde acabou por não lhe ser possível participar em pleno&#8230;pelo que embora nos manifestasse sempre gentilmente a sua solidariedadeentendemos, com o seu acordo, adiar para uma outra oportunidade a suaparticipação. O seu nome contudo ficará para sempre para nós ligado aesta iniciativa pelo afecto e carinho com que nos ouviu e apoiou dentrodo possível. <br/><br/><span style="font-weight: bold;">Convite</span>:<br/><br/><div style="text-align: center;"><img src="./archive/convite-15jan10.jpg"><br/></div><br/><h4>I Concurso de Literatura Infanto-Juvenil/Prémio CCAM - Divulgação do resultado adiado</h4>Matilde Rosa Araújo faz parte do nosso imaginário poético e continua a fazer parte do de várias gerações de meninos e meninas ... os seus textos são dos mais belos da literatura infanto-juvenil portuguesa ... é para nós uma honra que faça parte do júri deste <span style="font-style: italic;">I Concurso de Literatura Infanto-Juvenil/Prémio CCAM</span>...<br/>Momentaneamente está impossibilitada, por razões de saúde, de nos enviar a sua opinião sobre os concorrentes a este concurso...acredito que todos os concorrentes concordarão comigo que podemos adiar os resultados finais em honra de Matilde Rosa Araújo, e que poderemos esperar que se recupere&nbsp; em tempo breve... <br/>Encantadora como é, sei que fará o que lhe for possível...&nbsp; de qualquer forma o facto de ter manifestado&nbsp;grande gosto de fazer parte deste júri e colaborar com o Centro Cultural do Alto Minho já é de si um incentivo e um privilégio para todos nós...<br/><br/>A presidente do CCAM<br/>Luisa Quintela<br/><br/><span style="font-style: italic;">Nota: a data de divulgação dos vencedores será comunicada em breve.</span><br/><h4>PRÉ-SELECÇÃO DOS TRABALHOS PARA O <span style="font-style: italic;">I CONCURSO DE LITERATURA INFANTO-JUVENIL/PRÉMIO CCAM</span></h4>O Centro Cultural do Alto Minho informa que já foi feita a pré-selecção dos trabalhos enviados para o <span style="font-style: italic;">I Concurso de Literatura Infanto-Juvenil/Prémio CCAM</span>. <br/><br/>A pré-selecção foi feita por Luisa Quintela, Presidente do júri, Maria Arlette Salgado Faria, cooperante do CCAM, Mário Alves, representante da Associação Etnia, Gil Filipe, representante do Teatro Ágil, Armanda Santos, membro da Direcção do CCAM, e Márcia Amorim, secretária do referido Concurso. Nélson Rodrigues, Presidente da Ordem dos Médicos de Viana do Castelo, ratificou posteriormente esta pré-selecção.<br/><br/>Os quatro elementos restantes do júri deste Concurso de Literatura Infanto-Juvenil, constituídos por Matilde Rosa Araújo, Manuel António Pina, Conceição Campos e Benjamim Moreira foram, em tempo, contactados,tendo delegado verbalmente no conjunto de pessoas e representantes acima mencionados a admissão em pré-selecção das obras a concurso. Júri esse que está de acordo com a pré-selecção feita e que, no seu conjunto, continua soberano para fazer a selecção definitiva das obras a concurso. Na avaliação definitiva, por parte do júri, dos trabalhos a concurso poderá, eventualmente, haver exclusões caso se venha a verificar que não foram observadas as regras estabelecidas. <br/><br/>Foram pré-seleccionados 24 trabalhos e um outro foi desqualificado porque indicava, por completo, quer o nome quer a morada do concorrente no envelope, além de se perceber, claramente, não conter o CD. O Secretariado do Concurso, assim que teve contacto com a dita carta, e em tempo oportuno, comunicou ao concorrente em questão que o seu trabalho não tinha sido aceite.<br/><br/><link rel="File-List" href="file:///C:%5CUsers%5CAMORIM%5CAppData%5CLocal%5CTemp%5Cmsohtmlclip1%5C01%5Cclip_filelist.xml"><link rel="themeData" href="file:///C:%5CUsers%5CAMORIM%5CAppData%5CLocal%5CTemp%5Cmsohtmlclip1%5C01%5Cclip_themedata.thmx"><link rel="colorSchemeMapping" href="file:///C:%5CUsers%5CAMORIM%5CAppData%5CLocal%5CTemp%5Cmsohtmlclip1%5C01%5Cclip_colorschememapping.xml"><!--[if gte mso 9]><xml> <w:WordDocument>  <w:View>Normal</w:View>  <w:Zoom>0</w:Zoom>  <w:TrackMoves/>  <w:TrackFormatting/>  <w:HyphenationZone>21</w:HyphenationZone>  <w:PunctuationKerning/>  <w:ValidateAgainstSchemas/>  <w:SaveIfXMLInvalid>false</w:SaveIfXMLInvalid>  <w:IgnoreMixedContent>false</w:IgnoreMixedContent>  <w:AlwaysShowPlaceholderText>false</w:AlwaysShowPlaceholderText>  <w:DoNotPromoteQF/>  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corrente ano</span>.</span><div style="text-align: right;"><span style="font-weight: bold;">...................................................................................................</span><br/></div><div style="text-align: right;"><b><span style="font-size: 14pt; color: rgb(0, 176, 80);">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Cartaz do Concurso de Literatura Infanto-Juvenil/Prémio CCAM</span></b><br/><br/><div style="text-align: center;"><a href="http://picasaweb.google.pt/lh/photo/GeY_289OIxaoQFvKo1ldDQ?feat=embedwebsite"><img src="http://lh3.ggpht.com/_1tggD33jlcU/StMCtVoqPKI/AAAAAAAAAXY/Hr4Q1avMZow/s800/cartaz%20concurso.jpg"></a><br/></div></div><div style="text-align: right;"><span style="font-weight: bold;">....................................................................................................................</span><br/><b><span style="font-size: 14pt; color: rgb(0, 176, 80);">Alargamento do Prazo até 15 de Outubro </span></b><br/></div><link href="file:///C:%5CUsers%5CAMORIM%5CAppData%5CLocal%5CTemp%5Cmsohtmlclip1%5C01%5Cclip_filelist.xml" rel="File-List"><link href="file:///C:%5CUsers%5CAMORIM%5CAppData%5CLocal%5CTemp%5Cmsohtmlclip1%5C01%5Cclip_themedata.thmx" rel="themeData"><link href="file:///C:%5CUsers%5CAMORIM%5CAppData%5CLocal%5CTemp%5Cmsohtmlclip1%5C01%5Cclip_colorschememapping.xml" rel="colorSchemeMapping"><style><!-- /* Font Definitions */ @font-face	{font-family:"Cambria Math";	panose-1:2 4 5 3 5 4 6 3 2 4;	mso-font-charset:0;	mso-generic-font-family:roman;	mso-font-pitch:variable;	mso-font-signature:-1610611985 1107304683 0 0 159 0;}@font-face	{font-family:Calibri;	panose-1:2 15 5 2 2 2 4 3 2 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style="text-align: right;"><span style="font-weight: bold;">..................................................................................................................</span><br/></div><br/><link href="file:///C:%5CUsers%5CAMORIM%5CAppData%5CLocal%5CTemp%5Cmsohtmlclip1%5C01%5Cclip_filelist.xml" rel="File-List"><link href="file:///C:%5CUsers%5CAMORIM%5CAppData%5CLocal%5CTemp%5Cmsohtmlclip1%5C01%5Cclip_themedata.thmx" rel="themeData"><link href="file:///C:%5CUsers%5CAMORIM%5CAppData%5CLocal%5CTemp%5Cmsohtmlclip1%5C01%5Cclip_colorschememapping.xml" rel="colorSchemeMapping"><style><!-- /* Font Definitions */ @font-face	{font-family:"Cambria Math";	panose-1:2 4 5 3 5 4 6 3 2 4;	mso-font-charset:0;	mso-generic-font-family:roman;	mso-font-pitch:variable;	mso-font-signature:-1610611985 1107304683 0 0 159 0;}@font-face	{font-family:Calibri;	panose-1:2 15 5 2 2 2 4 3 2 4;	mso-font-charset:0;	mso-generic-font-family:swiss;	mso-font-pitch:variable;	mso-font-signature:-1610611985 1073750139 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80);">/aberto a todos os Países de Língua Portuguesa</span></b><b><span style="font-size: 16pt; color: rgb(0, 176, 80);"><o:p></o:p></span></b></p><p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><b><span style="font-size: 16pt; color: rgb(0, 176, 80);">Prémio Centro Cultural do Alto Minho<o:p></o:p></span></b></p><br/><link href="file:///C:%5CUsers%5CAMORIM%5CAppData%5CLocal%5CTemp%5Cmsohtmlclip1%5C01%5Cclip_filelist.xml" rel="File-List"><link href="file:///C:%5CUsers%5CAMORIM%5CAppData%5CLocal%5CTemp%5Cmsohtmlclip1%5C01%5Cclip_themedata.thmx" rel="themeData"><link href="file:///C:%5CUsers%5CAMORIM%5CAppData%5CLocal%5CTemp%5Cmsohtmlclip1%5C01%5Cclip_colorschememapping.xml" rel="colorSchemeMapping"><style><!-- /* Font Definitions */ @font-face	{font-family:"Cambria Math";	panose-1:2 4 5 3 5 4 6 3 2 4;	mso-font-charset:0;	mso-generic-font-family:roman;	mso-font-pitch:variable;	mso-font-signature:-1610611985 1107304683 0 0 159 0;}@font-face	{font-family:Calibri;	panose-1:2 15 5 2 2 2 4 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durante o ano de 2009, e no âmbito das Comemorações dos 30 Anos, um<i> </i><span style="font-style: italic;">Concurso de Literatura Infanto-Juvenil/Prémio Centro Cultural do Alto Minho</span>. Este concurso tem como objectivo incentivar e promover a literatura infanto-juvenil, criando a possibilidade de lançar novos escritores e consolidar aqueles que já escrevem há algum tempo, mas que por falta de oportunidade não encontram espaço para a publicação dos seus textos. Pretende-se motivar todos os possíveis autores e gerar reflexões para a importância da palavra lida/escrita quer como &#8220;meio privilegiado de comunicação,quer como forma de construção de mundos imaginários&#8221;, quer como reinterpretação do real, de novas vivências e de novas possibilidades construtivas afectivas e estéticas. <br/></p><p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><br/></p><p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><a href="/ccaminho/pt/?&amp;download=regulamento_concurso-premio.ccam.pdf">Consulte o Regulamento do Concurso aqui</a>.<br/></p><br/>
<h2>Recortes de Imprensa</h2><table class="MsoTableGrid" style="border: medium none ; border-collapse: collapse;" border="0" cellpadding="0" cellspacing="0"><tbody><tr style="height: 20.8pt;"><td style="border-style: none solid none none; border-color: -moz-use-text-color black -moz-use-text-color -moz-use-text-color; border-width: medium 3pt medium medium; padding: 0cm 5.4pt; width: 76.3pt; height: 20.8pt;" valign="top" width="102"><p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Publicação</p>  </td>  <td style="border: medium none ; padding: 0cm 5.4pt; width: 269.3pt; height: 20.8pt;" valign="top" width="359">  <p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">As Artes entre as Letras.</p>  </td> </tr> <tr style="height: 21.75pt;">  <td style="border-style: none solid none none; border-color: -moz-use-text-color black -moz-use-text-color -moz-use-text-color; border-width: medium 3pt medium medium; padding: 0cm 5.4pt; width: 76.3pt; height: 21.75pt;" valign="top" width="102">  <p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Data</p>  </td>  <td style="border: medium none ; padding: 0cm 5.4pt; width: 269.3pt; height: 21.75pt;" valign="top" width="359">  <p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">07 de Outubro de 2009</p>  </td> </tr> <tr style="">  <td style="border-style: none solid none none; border-color: -moz-use-text-color black -moz-use-text-color -moz-use-text-color; border-width: medium 3pt medium medium; padding: 0cm 5.4pt; width: 76.3pt;" valign="top" width="102">  <p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Título</p>  </td>  <td style="border: medium none ; padding: 0cm 5.4pt; width: 269.3pt;" valign="top" width="359">  <p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><a href="/ccaminho/pt/?&amp;download=recorte_premioccam1.doc"><span style="font-style: italic;">Aberto Concurso de Literatura  Infanto-Juvenil</span></a>.</p>  </td> </tr></tbody></table><br/><meta http-equiv="Content-Type" content="text/html; charset=utf-8"><meta name="ProgId" content="Word.Document"><meta name="Generator" content="Microsoft Word 12"><meta name="Originator" content="Microsoft Word 12"><link rel="File-List" href="file:///C:%5CUsers%5CAMORIM%5CAppData%5CLocal%5CTemp%5Cmsohtmlclip1%5C01%5Cclip_filelist.xml"><link rel="themeData" href="file:///C:%5CUsers%5CAMORIM%5CAppData%5CLocal%5CTemp%5Cmsohtmlclip1%5C01%5Cclip_themedata.thmx"><link rel="colorSchemeMapping" href="file:///C:%5CUsers%5CAMORIM%5CAppData%5CLocal%5CTemp%5Cmsohtmlclip1%5C01%5Cclip_colorschememapping.xml"><!--[if gte mso 9]><xml> <w:WordDocument>  <w:View>Normal</w:View>  <w:Zoom>0</w:Zoom>  <w:TrackMoves/>  <w:TrackFormatting/>  <w:HyphenationZone>21</w:HyphenationZone>  <w:PunctuationKerning/>  <w:ValidateAgainstSchemas/>  <w:SaveIfXMLInvalid>false</w:SaveIfXMLInvalid>  <w:IgnoreMixedContent>false</w:IgnoreMixedContent>  <w:AlwaysShowPlaceholderText>false</w:AlwaysShowPlaceholderText>  <w:DoNotPromoteQF/>  <w:LidThemeOther>PT</w:LidThemeOther>  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justify;">Publicação<o:p></o:p></p>  </td>  <td style="border: medium none ; padding: 0cm 5.4pt; width: 269.3pt; height: 20.8pt;" valign="top" width="359">  <p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Jornal de Notícias.<o:p></o:p></p>  </td> </tr> <tr style="height: 21.75pt;">  <td style="border-style: none solid none none; border-color: -moz-use-text-color black -moz-use-text-color -moz-use-text-color; border-width: medium 3pt medium medium; padding: 0cm 5.4pt; width: 76.3pt; height: 21.75pt;" valign="top" width="102">  <p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Data<o:p></o:p></p>  </td>  <td style="border: medium none ; padding: 0cm 5.4pt; width: 269.3pt; height: 21.75pt;" valign="top" width="359">  <p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">20 de Setembro de 2009<o:p></o:p></p>  </td> </tr> <tr style="">  <td style="border-style: none solid none none; border-color: -moz-use-text-color black -moz-use-text-color -moz-use-text-color; border-width: medium 3pt 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border-width: medium 3pt medium medium; padding: 0cm 5.4pt; width: 90.45pt;" valign="top" width="121">  <p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Título<span style="font-size: 12pt;"><o:p></o:p></span></p>  </td>  <td style="vertical-align: top;"><br/>      </td><td style="padding: 0cm 5.4pt; width: 290.6pt;" valign="top" width="387">  <p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style=""><a href="http://www.jornalovianense.com/noticia.asp?idEdicao=114&amp;id=4381&amp;idSeccao=1112&amp;Action=noticia"><span style="font-style: italic;">Prémio Centro  Cultural do Alto Minho</span></a>.</span><span style="font-size: 12pt;"><o:p></o:p></span></p>  </td> </tr></tbody></table><br/><link rel="File-List" href="file:///C:%5CUsers%5CAMORIM%5CAppData%5CLocal%5CTemp%5Cmsohtmlclip1%5C01%5Cclip_filelist.xml"><link rel="themeData" href="file:///C:%5CUsers%5CAMORIM%5CAppData%5CLocal%5CTemp%5Cmsohtmlclip1%5C01%5Cclip_themedata.thmx"><link rel="colorSchemeMapping" 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5.4pt; width: 290.6pt; height: 21.75pt;" valign="top" width="387">  <p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Agosto de 2009<span style="font-size: 12pt;"><o:p></o:p></span></p>  </td> </tr> <tr style="">  <td style="border-style: none solid none none; border-color: -moz-use-text-color windowtext -moz-use-text-color -moz-use-text-color; border-width: medium 3pt medium medium; padding: 0cm 5.4pt; width: 90.45pt;" valign="top" width="121">  <p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Título<span style="font-size: 12pt;"><o:p></o:p></span></p>  </td>  <td style="padding: 0cm 5.4pt; width: 290.6pt;" valign="top" width="387">  <p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style=""><a href="http://bruaa-editora.blogspot.com/2009/08/concurso-literatura-infanto.html"><span style="font-style: italic;">Concurso Literatura  Infanto-Juvenil/Prémio CCAM</span></a>.</span><span style="font-size: 12pt;"><o:p></o:p></span></p>  </td> </tr></tbody></table><br/><link 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style="padding: 0cm 5.4pt; width: 290.6pt; height: 21.75pt;" valign="top" width="387">  <p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">31 de Julho de 2009<span style="font-size: 12pt;"><o:p></o:p></span></p>  </td> </tr> <tr style="">  <td style="border-style: none solid none none; border-color: -moz-use-text-color windowtext -moz-use-text-color -moz-use-text-color; border-width: medium 3pt medium medium; padding: 0cm 5.4pt; width: 90.45pt;" valign="top" width="121">  <p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Título<span style="font-size: 12pt;"><o:p></o:p></span></p>  </td>  <td style="padding: 0cm 5.4pt; width: 290.6pt;" valign="top" width="387">  <p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style=""><a href="http://uaonline.ua.pt/detail.asp?c=15437"><span style="font-style: italic;">Prémio Centro Cultural  do Alto Minho: I Concurso de Literatura Infanto-Juvenil</span></a>.</span><span style="font-size: 12pt;"><o:p></o:p></span></p>  </td> 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justify;">Publicação<o:p></o:p></p>  </td>  <td style="border: medium none ; padding: 0cm 5.4pt; width: 269.3pt; height: 20.8pt;" valign="top" width="359">  <p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Aurora do Lima<o:p></o:p></p>  </td> </tr> <tr style="height: 21.75pt;">  <td style="border-style: none solid none none; border-color: -moz-use-text-color black -moz-use-text-color -moz-use-text-color; border-width: medium 3pt medium medium; padding: 0cm 5.4pt; width: 76.3pt; height: 21.75pt;" valign="top" width="102">  <p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Data<o:p></o:p></p>  </td>  <td style="border: medium none ; padding: 0cm 5.4pt; width: 269.3pt; height: 21.75pt;" valign="top" width="359">  <p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">31 de Julho de 2009<o:p></o:p></p>  </td> </tr> <tr style="">  <td style="border-style: none solid none none; border-color: -moz-use-text-color black -moz-use-text-color -moz-use-text-color; border-width: medium 3pt medium 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class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><a href="http://www.historiasemfim.com/">História Sem Fim. Vamos escrever uma história juntos</a>.<span style="font-size: 12pt;"><o:p></o:p></span></p>  </td> </tr> <tr style="height: 21.75pt;">  <td style="border-style: none solid none none; border-color: -moz-use-text-color windowtext -moz-use-text-color -moz-use-text-color; border-width: medium 3pt medium medium; padding: 0cm 5.4pt; width: 90.45pt; height: 21.75pt;" valign="top" width="121">  <p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Data<span style="font-size: 12pt;"><o:p></o:p></span></p>  </td>  <td style="padding: 0cm 5.4pt; width: 290.6pt; height: 21.75pt;" valign="top" width="387">  <p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Julho / Agosto 2009<span style="font-size: 12pt;"><o:p></o:p></span></p>  </td> </tr> <tr style="">  <td style="border-style: none solid none none; border-color: -moz-use-text-color windowtext -moz-use-text-color -moz-use-text-color; border-width: medium 3pt medium medium; padding: 0cm 5.4pt; width: 90.45pt;" valign="top" width="121">  <p class="MsoNormal" style="text-align: justify;">Título<span style="font-size: 12pt;"><o:p></o:p></span></p>  </td>  <td style="padding: 0cm 5.4pt; width: 290.6pt;" valign="top" width="387">  <p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"><span style=""><a href="http://www.historiasemfim.com/"><span style="font-style: italic;">I Concurso de  Literatura Infanto-Juvenil / Prémio CCAM</span></a>.</span><span style="font-size: 12pt;"><o:p></o:p></span></p>  </td> </tr></tbody></table><br/>
<h2>FAQs</h2><br/><span style="font-weight: bold;">1. O pseudónimo com que se deve assinar o texto, é obrigatório que seja um nome de pessoa, ou pode ser um nome artístico?&nbsp;</span><br style="font-weight: bold;"><div style="margin-left: 40px;">A escolha do pseudónimo fica ao critério do participante; portanto pode ser um nome artístico, de pessoa ou outro qualquer.<br/></div><br/><span style="font-weight: bold;">2. Posso ilustrar o meu trabalho, mesmo que a ilustração ocupe algumas páginas?</span><br style="font-weight: bold;"><div style="margin-left: 40px;">Sim, mas a ilustração não fará parte da avaliação literária a não ser que seja essa a história, mas é uma situação que o júri depois decidirá. O essencial a reter é que a avaliação é do texto literário (e seu contexto talvez). Caso um texto ilustrado saia vencedor, o CCAM não se sente na obrigação de aceitar a proposta do autor.<br/></div><br/><span style="font-weight: bold;">3. Pretendo concorrer com um trabalho que reúne as seguintes condições: </span><br/><div style="margin-left: 40px; font-weight: bold;">3.1. É uma reunião de contos titulados, mas denominativamente contextualizados sob um título genérico; <br/></div><div style="margin-left: 40px; font-weight: bold;">3.2. Cada conto possui uma canção subordinativa apresentada em partitura (melodia com acompanhamento para teclado e viola);<br/></div><div style="margin-left: 40px;"><span style="font-weight: bold;">3.3. Embora com personagens diferentes os contos estão concatenados tematicamente.</span><br/></div><div style="margin-left: 40px;">O Prémio CCAM pretende avaliar, no essencial, o texto literário. Os elementos criativos que acompanhem o texto não são motivo para exclusão, mas podem não ser pontuados na seriação. A indicação nos textos pode ajudar a contextualizar e a aferir o texto, como por exemplo um conto, ou uma peça para teatro.<br/></div><br/><span style="font-weight: bold;">4. A que faixa etária se destina o concurso?</span><br/><div style="margin-left: 40px;">A literatura infanto-juvenil é um ramo da literatura, dedicada especialmente às crianças (dos dois aos dez anos de idade) e jovens adolescentes (entre os dez e os 15 anos).<br/></div><br/><span style="font-weight: bold;">5. O facto de se tratar de literatura Infanto-Juvenil envolve qualquer tipo de conto (conto infantil ilustrado, bem como os contos juvenis, sem qualquer ilustração)?</span><br style="font-weight: bold;"><div style="margin-left: 40px;">Este concurso abarca não só contos, mas também qualquer outro género literário. Quanto à ilustração, por favor ver FAQ número 2.<br/></div><br/><span style="font-weight: bold;">6. Posso participar a concurso com mais do que um trabalho?</span><br/><div style="margin-left: 40px;">Não. Tal como está explícito no Regulamento (ponto 7): <span style="font-style: italic;">&#8220;Cada candidato só pode apresentar a Concurso um único trabalho&#8221;</span>.<br/></div><br/><span style="font-weight: bold;">7. Posso enviar um trabalho em grupo?</span><br/><div style="margin-left: 40px;">Não. Tal como está explícito no Regulamento (ponto 8): <span style="font-style: italic;">&#8220;Não serão aceites trabalhos em grupo&#8221;</span>.<br/></div><br/><span style="font-weight: bold;">8. Esqueci-me de anexar uma ou mais páginas ao trabalho. No entanto, já enviei a minha participação por Correio Registado. Tenho que enviar o trabalho novamente ou posso enviar apenas a(s) página(s) que falta(m)? </span><br style="font-weight: bold;"><div style="margin-left: 40px;">Qualquer participante que já tenha enviado o trabalho por Correio Registado e se tenha esquecido de uma ou mais páginas, pode enviar as que faltam, devidamente numeradas, num envelope fechado que não poderá ter qualquer indicação pessoal, sendo apenas necessário o pseudónimo. Caso seja necessário substituir alguma página, convém enviar uma breve explicação numa folha à parte.<br/></div><br/><span style="font-weight: bold;">9. As obras não-premiadas que não vão ser publicadas pelo CCAM também têm que se submeter ao prazo de levantamento de 18 meses após o prémio de Publicação? Se submeter uma obra, independentemente de não obter qualquer prémio, invalida a sua posterior publicação por outra via durante pelo menos 18 meses?</span><br style="font-weight: bold;"><div style="margin-left: 40px;">Esta é uma cláusula habitual em outros concursos semelhantes, por vezes elevando o tempo para 3 anos. Não está colocada de lado a possibilidade de reunir em livro (de acordo com os autores), todas ou parte das obras que foram remetidas a concurso.<br/></div><div style="margin-left: 40px;">Convém salvaguardar que, se houver um acordo comum entre o CCAM e os autores, as obras não premiadas podem ser totalmente libertadas antes dos 18 meses. <br/>Se o autor o pretender e o pedir expressamente depois do concurso, o CCAM analisará o caso respeitando sempre que possível a vontade do autor.</div><br/>
<h1>Quem Somos</h1><p><table style="table-layout: fixed; width: 100%;" border="0"><tbody><tr><td style="padding: 10px; width: 33%;" valign="top"><p align="center"><img style="width: 100%;" src="http://www.solucaoweb.com/ccaminho/archive/edificio3.jpg"></p></td><td style="padding: 10px; width: 33%;" valign="top"><p align="center"><img style="width: 100%;" src="http://www.solucaoweb.com/ccaminho/archive/edificio.jpg"></p></td><td style="padding: 10px; width: 33%;" valign="top"><p align="center"><img style="width: 100%;" src="http://www.solucaoweb.com/ccaminho/archive/edificio2.jpg"></p></td></tr></tbody></table></p><p>O Centro Cultural do Alto Minho, fundado em 1979,&nbsp;é uma instituição sem fins lucrativos, sob a forma de cooperativa, declarada de Utilidade Pública desde 1989, e nascida com base em decreto governamental, tendo o Ministério da Cultura mantido um apoio continuado ao longo destes 28 anos de existência.<br/>Nos últimos anos, esse apoio governamental tem sido efectivado através da Delegação do Norte do Ministério da Cultura, e do Governo Civil de Viana do Castelo.</p><h4>Como Trabalhamos</h4><p>Para apoio de toda a actividade efectuada, o Centro Cultural do Alto Minho conta, ainda, com o trabalho voluntário de várias pessoas, onde se incluem os membros que compõem a sua equipe de gestão, tendo o contributo de uma funcionária administrativa em regime de tempo integral.</p><p>A Câmara Municipal de Viana do Castelo concede, também, apoio ao Centro Cultural do Alto Minho, através de um subsídio que permite a manutenção do arrendamento do edifício sede e da galeria de arte, apoiando igualmente a publicação de algumas edições.</p>
<H2>Corpos Sociais</H2><P><STRONG>Triénio 2010-2013</STRONG></P><H4>Assembleia Geral</H4><P><STRONG>PRESIDENTE:</STRONG> Alberto Oliveira e Silva<br/><STRONG>Vice-Presidente:</STRONG> António Rui Viana F. Da Ponte<br/><STRONG>1º SECRETÁRIO:</STRONG> José Miguelote de Castro Monteiro</P><H4>Direcção</H4><P><STRONG>PRESIDENTE:</STRONG> Arnaldo Alves Rodrigues<br/><STRONG>VICE-PRESIDENTE:</STRONG> José Dantas Lima Pereira<br/><STRONG>SECRETÁRIO:</STRONG> Jaime Miranda Caridade<br/><STRONG>TESOUREIRO:</STRONG> José Manuel de Castro&nbsp;Filgueiras<br/><STRONG>VOGAL:</STRONG> Arnaldo Joaquim&nbsp;Ribeiro<br/><STRONG>VOGAL:</STRONG> M.ª Armanda Silva Santos<br/><STRONG>VOGAL:</STRONG> M.ª Helena Cabral Monteiro Araújo</P><P><STRONG>SUPLENTES:</STRONG></P><P><STRONG>VOGAL:</STRONG> Júlio Capela da Cruz<br/><STRONG>VOGAL:</STRONG> Manuel Tomas da Silva Gonçalves<br/><STRONG>VOGAL:</STRONG> Gonçalo Fagundes Meira<br/></P><H4>Conselho Fiscal</H4><P><STRONG>PRESIDENTE:</STRONG> Joaquim José Peres Escaleira<br/><STRONG>SECRETÁRIO:</STRONG> Maurício Soares da Cunha e Sousa<br/><STRONG>VOGAL:</STRONG> José Eduardo de Matos Lisboa<br/></P>
<h1>Historial</h1><p>Fundado em 1979, o Centro Cultural do Alto Minho desempenha, ao longo dos seus quase 30 anos de actividade, um reconhecido papel de dinamizador cultural organizando a sua diversificada actividade em Oficinas de Cinema e Audiovisual, de Literatura e Ideias, de Teatro e Marionetas, de Artes Visuais e de Edições. Algumas destas iniciativas, ao estruturarem-se, acabaram por transformar-se em "incubadoras" de novos projectos associativos ou profissionais autónomos, como foram os casos do Teatro do Noroeste (em 1993); da própria Feira do Livro e da Lusofonia (em 1994); da Ao Norte Audiovisuais (em 1994) e da Associação Marionetas, Actores &amp; Objectos (em 2001).</p><p>Apesar destas "autonomias", o Centro Cultural do Alto Minho continua a manter uma intensa e assinalada actividade cultural no âmbito da Oficina de Literatura e Ideias, com um programa anual de conferências e tertúlias sobre temas que vão da literatura ao ambiente, urbanismo e arquitectura, bem como recitais de poesia de autores vianenses e de clássicos e contemporâneos da literatura portuguesa.</p><p>Na área das edições lançou diversas publicações, nomeadamente a colecção temática Cronos onde nas diversas secções de ensaio, poesia, prosa, artes, teatro, olhares, contemplando 29 autores. Edita, ainda, a revista Mealibra que, tendo sido fundada em 1982, conta já com 22 números publicados e constitui hoje, pela sua qualidade e pelo prestígio dos seus colaboradores, uma referência nacional do género.</p><p>No âmbito da Actividade Teatral, relançada em 2001, foi reactivada a Oficina de Teatro Lucilio Valdez, com a peça em carteira "A 10ª Turista", em cooperação com a Sociedade de Instrução e Recreio Darquense.</p><p>Também de recente criação, para dotar a rica actividade folclórica e etnográfica da região de suportes de investigação e de inovação, foi criada a Oficina de Etnografia e Folclore, que conta já com uma actividade de divulgação de cultura etnográfica vianense na Biblioteca Bento de Jesus Caraça, na Moita, tendo outras já programadas.<br/>&nbsp;<br/>A Galeria Barca d'Artes, integrada no Centro Cultural do Alto Minho desde o início, é um centro, por excelência, de divulgação das Artes Visuais, através de dezenas de exposições com presenças de reconhecidos nomes da pintura e da fotografia do panorama artístico nacional e doutros espaços da lusofonia.</p><p>Entretanto o Centro Cultural do Alto Minho lançou em 1980, a primeira Expo-Feira do Livro de Viana do Castelo e colabora com a Câmara Municipal de Viana do Castelo, desde 1994, nas tertúlias literárias e mais especificamente nas Exposições de Artes Plásticas que enquadram a Expo-Feira do Livro e da Lusofonia.</p><p>Por fim, acresce o papel de formação que o Centro Cultural do Alto Minho tem desenvolvido junto do Movimento Associativo do distrito de Viana do Castelo.</p><p>O CCAM idealiza e realiza na Rádio Geice, de Viana do Castelo, um programa radiofónico quinzenal, às quintas-feiras, denominado "Caminhos da Cultura" criado em Janeiro de 2006. Divulgava os acontecimentos mais importantes nas artes e na cultura, bem como os criadores e os artistas do distrito de Viana do Castelo no seu espaço territorial dos 10 concelhos.</p><p>Tem desenvolvido ainda sessões de leitura de poesia. Elabora duas obras literárias em 2008 e 2009, em protocolo estabelecido com a Câmara Municipal de Viana do Castelo, no âmbito das comemorações dos 750 anos da cidade. A primeira sobre as Associações do Concelho de Viana do Castelo e a segunda com Textos de Escritores sobre Viana do Castelo.<br/></p><p>Em 2008 organizou, em parceria com o Departamento de Psiquiatria do Centro&nbsp; Hospitalar de Viana do Castelo o 2º Congresso de Psiquiatria e Saúde Mental de Viana do Castelo e 1º Congresso de Literatura Infanto-Juvenil e outros saberes com o título genérico "Dos Contos de Fadas à Representação do Real".<br/></p><p>Como é sabido publicamente através dos mais diversos meios (televisões, imprensa nacional e regional, rádios locais e nacionais) o Centro Cultural do Alto Minho tem continuado a desenvolver nos últimos meses uma intensa actividade cultural altamente qualificada.</p>
<H2>Fundadores</H2><H4>Assembleia Geral</H4><P><STRONG>Presidente:</STRONG> João Filipe Soutelo Soeiro de Carvalho</P><P><STRONG>1º Secretário:</STRONG> Rosalina Rodrigues da Silva</P><P><STRONG>2º Secretário:</STRONG> José Miranda Gonçalves</P><H4>Direcção</H4><P><STRONG>Presidente:</STRONG> Maurício Soares da Cunha e Sousa</P><P><STRONG>Secretário:</STRONG> Maria da Conceição Madruga</P><P><STRONG>Tesoureiro:</STRONG> José Luis Carvalhido da Ponte</P><P><STRONG>Vogal:</STRONG> Jorge Augusto Castro Guedes</P><P><STRONG>Vogal:</STRONG> José Domingos da Rocha Costa</P><H4>Conselho Fiscal</H4><P><STRONG>Presidente:</STRONG> José Manuel Simões Nogueira</P><P><STRONG>Secretário:</STRONG> Joaquim José Peres Escaleira</P><P><STRONG>Vogal:</STRONG> António Manuel Figueiredo Mesquita</P>
<H2>Financiadores</H2><H4>Historial</H4><UL><LI>Câmara Municipal de Viana do Castelo <LI>Governo Civil de Viana do Castelo <LI>Ministério da Cultura-Delegação Regional do Norte <LI>Ministério da Cultura-Fundo de Fomento Cultural <LI>Águas de Portugal <LI>Câmara Municipal de Melgaço <LI>Câmara Municipal de Ponte da Barca <LI>Fundação Calouste Gulbenkian <LI>IPLB-Instituto Português do Livro e das Bibliotecas</LI></UL>
<H2>Personalidades</H2><H4>Personalidades destacadas a nível nacional ao serviço do CCAM</H4><UL><LI>Álvaro Brilhante Laborinho Lúcio (juiz-conselheiro) <LI>António Modesto Navarro (escritor) <LI>António Montez (actor/encenador) <LI>Alberto Marques de Oliveira e Silva (Ex-Governador Civil de Viana do Castelo) <LI>Casimiro de Brito (escritor) <LI>David Rodrigues (escritor) <LI>Eugénio Lisboa (escritor) <LI>Francisco Sampaio (presidente da RTAM) <LI>Jaime Salazar Sampaio (encenador) <LI>João Guedes (actor) <LI>Joaquim Benite <LI>Jorge Augusto Castro Guedes (actor/encenador) <LI>José Correia Tavares (escritor) <LI>José Manuel Mendes (escritor) <LI>José Viale Moutinho (escritor/jornalista) <LI>Liberto Cruz (escritor) <LI>Lucilo Valdez Tomás dos Santos (actor) <LI>Manuel Simas Santos (juiz-conselheiro) <LI>Maria da Conceição Madruga (professora) <LI>Maria de Fátima Pimenta (deputada) <LI>Mário Barradas (Encenador) <LI>Maurício&nbsp; Soares Cunha e Sousa (escritor) <LI>Teresa Rita Lopes (escritora)</LI></UL><P>&nbsp;</P>
<H1>O Que Fazemos</H1><UL><LI><A href="/ccaminho/pt/?Edi%E7%F5es%3A_Mealibra"><U>Edições: Mealibra</U></A><LI><A href="/ccaminho/pt/?Edi%E7%F5es%3A_Cronos"><U>Edições: Cronos</U></A><LI><A href="/ccaminho/pt/?Galeria_Barca_d%27Artes"><U>Galeria Barca d'Artes</U></A><LI><A href="/ccaminho/pt/?Oficina_de_Etnografia_e_Folclore"><U>Oficina de Etnografia e Folclore</U></A><LI><A href="/ccaminho/pt/?Oficina_de_Teatro"><U>Oficina de Teatro</U></A><LI><A href="/ccaminho/pt/?Tert%FAlias"><U>Tertúlias</U></A></LI></UL>
<H2>Destaque - Livro das Associações</H2><H4>Segunda (e última reunião) extraordinária sobre o Livro das Associações</H4><P>O Centro Cultural do Alto Minho está a ultimar o Livro das Associações do Concelho de Viana do Castelo, que deverá ser editado, antes do verão do corrente ano, para comemorar os 750 anos do Município de Viana do Castelo E os 30 anos do CCAM.<br/>&nbsp;<br/>Neste momento, um conjunto de associações está a entregar os dados que solicitamos para enriquecermos com informação actualizada e sistematizada. </P><P>Com o objectivo de esclarecer os dirigentes das colectividades, que ainda não entregaram este material, o CCAM leva a efeito uma reunião de trabalho sobre este assunto. <br/><STRONG><U>Esta segunda (e última) reunião terá lugar no Auditório do Museu de Arte e Arqueologia, com entrada pelo Largo de São Domingos. Este Sábado, dia 14 de Março, com início às 10h e termo antes das 12h. <br/></U></STRONG></P><P>Questionário: <U><A href="/ccaminho/pt/?&amp;download=questionario_2009_associacoes.doc">Clique aqui para fazer o download!</A></U><br/></P><P><STRONG>.........................................................................................................</STRONG></P><H4>Reunião Extraordinária sobre Livro das Associações</H4><P>O Centro Cultural do Alto Minho encontra-se a elaborar um Livro que descreve todas as organizações sociais, sem fins lucrativos, existentes no Concelho de Viana do Castelo (Associações, cooperativas e fundações). Contamos, naturalmente, com a indispensável colaboração de todas as Associações, que agradecemos.</P><P>No entanto, e tendo em vista uma actualização e reformulação de alguns dados em falta, propomos o <A href="/ccaminho/pt/?&amp;download=questionario_2009_associacoes.doc">Questionário</A> que ajudará na identificação da informação que precisamos relativamente às instituições. </P><P dir=ltr style="MARGIN-RIGHT: 0px">Com o objectivo de poder apresentar os principais resultados e esclarecer os parceiros sociais sobre o presente <A href="/ccaminho/pt/?&amp;download=questionario_2009_associacoes.doc">Questionário</A>, o CCAM vai organizar uma <STRONG><U>reunião extraordinária</U></STRONG>&nbsp;no dia <STRONG><U>02 de Março</U></STRONG>, <STRONG>às 18 horas no Auditório da Escola Superior de Educação (ESE)</STRONG> - na Av. Capitão Gaspar de Castro.</P><P>Questionário: <A href="/ccaminho/pt/?&amp;download=questionario_2009_associacoes.doc">Clique aqui para fazer o download!</A><br/></P>
<H1>Edições: Mealibra<br/></H1>
<h2>N.os&nbsp;1/2 - Série 3 - 1998</h2><p align="center"><a href="http://picasaweb.google.pt/lh/photo/Bn8SqhXKNfZa0BAti0IBpQ?feat=embedwebsite"><img src="http://lh3.ggpht.com/_1tggD33jlcU/SrnpcTsoxYI/AAAAAAAAAQQ/fQV76OPVTdU/s800/serie3-Mealibra-1e2.jpg"></a><br/></p><ul><li><div align="left"><a href="/ccaminho/pt/?&amp;download=m1e2_sumario.pdf"><u>Sumário</u></a></div></li><li><div align="left"><a href="/ccaminho/pt/?Edi%E7%F5es%3A_Mealibra/N.os%26nbsp%3B1%2F2_-_S%E9rie_3_-_1998/%22Em_torno_da_interroga%E7%E3o_na_poesia_de_Jorge_de_Sena%22">"Em torno da interrogação na poesia de Jorge de Sena"</a>, por David Rodrigues (pp.21-27)</div></li></ul>
<H3>"Em torno da interrogação na poesia de Jorge de Sena"</H3><H4 align=right>por David Rodrigues (pp. 21-27)</H4><DIV align=left>&nbsp;</DIV><DIV align=right><EM>Por que pergunto, se já sei por quê?<br/></EM>SENA, 1977(2): 210</DIV><DIV align=left>&nbsp;</DIV><P align=left>O recurso à interrogação é uma constante na poesia de Jorge de Sena. Raro é o poema em que o poeta não apresenta, pelo menos, uma realização interrogativa, não faltando poemas totalmente constituídos, construídos, por uma sequência de interrogações. O próprio Jorge de Sena, sempre leitor e crítico atento também da sua arte poética, o afirma:</P><BLOCKQUOTE dir=ltr style="MARGIN-RIGHT: 0px"><DIV align=left>[&#8230;] acontece que o homem &#8211; se pode viver e criar abstracções &#8211; é pelo rosto e pelos seus gestos, e pelo que ele, com o olhar transfigura, que pode-mos, interrogativamente, incertamente, inquieta-mente, angustiadamente, conhecer-lhe a vida. E, se não fora a poesia, olhando a História, nenhuma vida em verdade conheceríamos, nem a nossa própria. (SENA, 1988(2): 157. Sublinhado nosso.)</DIV></BLOCKQUOTE><DIV align=left>Ou, então, no poema</DIV><BLOCKQUOTE dir=ltr style="MARGIN-RIGHT: 0px"><DIV align=left>&#8220;DIZ-ME SILÊNCIO&#8230;&#8221;</DIV><DIV align=left>&nbsp;</DIV><DIV align=left>&#8220;Diz-me, silêncio, em ruídos permanentes <br/>singelamente confusos primitivos - <br/>que mão estender à voz que ouvida não <br/>fala comigo ou com ninguém, silente: <br/>Devo tocar como quem chama e pede? <br/>Ou agarrar o que não fala ainda <br/>senão por gestos quase imperceptíveis? <br/>Esperarei perguntas sem resposta? <br/>Responderei perguntas não faladas? <br/>Diz-me, silêncio, em ruídos de que és feito, <br/>como entender-te quando és corpo humano?.&#8221;</DIV></BLOCKQUOTE><DIV align=right>[SENA, 1989(2): 217]</DIV><DIV align=left>&nbsp;</DIV><DIV align=left>&nbsp;</DIV><DIV align=left>E no IV soneto da &#8220;Heptarquia do Mundo Ocidental&#8221;, que continua os três sonetos anteriores, todos eles marcados também por várias interrogativas, onde a própria construção e organização do poema é já de si reveladora do espírito inquieto, interrogativo, angustiado e dialéctico do poeta. </DIV><DIV align=left>&nbsp;</DIV><BLOCKQUOTE dir=ltr style="MARGIN-RIGHT: 0px"><DIV align=left>«Mas que se trai traindo? Que traís<br/>quando trocais por nada o nada que é<br/>ser-se fiel ao que passou por nós?<br/>A mim traís? A vós? Aos nomes falsos </DIV><DIV align=left>&nbsp;</DIV><DIV align=left>em que se oculta o roubo do existir?<br/>E que passou? Que não passou? Que foi<br/>roubado ou não roubado a cada instante?<br/>Traís a cada instante? Que traís?</DIV><DIV align=left>&nbsp;</DIV><DIV align=left>Fiel eu serei sempre a uma resposta.<br/>Mas, respondendo, tendo estas palavras<br/>que negam outras como quem se nega<br/>&nbsp;<br/>a não negar senão o que não tem,<br/>responderei àquilo que pergunto.<br/>E sei que sou fiel não perguntando.»</DIV><DIV align=right>[SENA, 1989(2): 41]</DIV></BLOCKQUOTE><DIV align=left>&nbsp;</DIV><DIV align=left>Apesar desta frequente utilização da interrogação, apenas alguns críticos notaram, apenas anotaram, esta indelével marca da poesia seniana. Entre os inúmeros estudos dedicados à obra do autor, nenhum encontrámos que trate desenvolvidamente esta problemática. E entre aqueles que apenas o (a)notam, só dois o fazem explicitamente.</DIV><DIV align=left>&nbsp;</DIV><DIV align=left>Frederick G. Williams, amigo e colega do poeta na Universidade de Santa Bárbara, Califórnia, refere a utilização da «pergunta retórica», como uma das «influências barrocas» na poesia de Sena, para depois, ao proceder ao levantamento dos recursos estilísticos, verificar que ela «aparece repetidas vezes dentro do mesmo poema em quase todos os poemas dos livros todos». O crítico apresenta, de seguida, alguns exemplos e por aí se fica. [Cfr. AA. VV., 1981: 111 e 115]</DIV><DIV align=left>&nbsp;</DIV><DIV align=left>Outra referência, breve, mas procurando dar já uma interpretação semântica e pragmática da interrogação seniana, encontra-se em Fátima Freitas Morna:</DIV><BLOCKQUOTE dir=ltr style="MARGIN-RIGHT: 0px"><DIV align=left>Lentamente, ao longo dos anos e dos textos, a poesia de Jorge de Sena vai cumprindo a sua vocação especial de voz entre vozes. Depois de uma certa euforia declarativa, a sua modulação indagativa encontra a magistral formulação do poema "Tendo lido uma carta...":</DIV><DIV align=left>&nbsp;</DIV><DIV align=left>"Apenas sou pergunta,<br/>e, sendo eu, me esqueço ao perguntar." </DIV><DIV align=left>&nbsp;</DIV><DIV align=left>Poesia que interroga, voz funcional ocupando um lugar no mundo, sempre oficiante, sempre nostál-gica do diálogo, ansiosa do grande espectáculo que, enquanto discurso, é.» [MORNA, 1985: 3132]</DIV></BLOCKQUOTE><DIV align=left>Poesia interrogativa e interrogante, pois, que é um permanente questionar o homem e o mundo, o sujeito poético e a poesia, as suas inter-relações, as suas interacções. Com interrogações retóricas, como não poderia deixar de ser. Porque as outras, as interrogações literais, exigem resposta imediata que não fomenta o diálogo nem o questionamento. Interrogações retóricas, porém, não apenas no sentido tradicional de &#8220;figura de paixão&#8221;, mas também e&nbsp;sobretudo como figura de conflito, ou seja, de pensamento retórico original, (originário), que provoca o dizer e o pensar, os desenvolve e organiza em discursos.</DIV><BLOCKQUOTE dir=ltr style="MARGIN-RIGHT: 0px"><DIV align=left>[&#8230;] o moderno pensamento retórico é um pensa-mento heurístico, isto é, inventor e descobridor, mas sem verdades para inventar nem para descobrir. Sua heurística é tão-somente uma heurística de instrumentos para pensar e para falar. [PLEBE &amp; EMANUELE, 1992: 185-186]</DIV></BLOCKQUOTE><DIV align=left>Recorde-se, sumariamente, as características da interrogação, também para distinguir a pergunta literal da pergunta retórica.&nbsp;&nbsp;&nbsp; </DIV><DIV align=left>&nbsp;</DIV><DIV align=left>Em sentido literal, uma interrogação, prosodicamente realizada numa frase com determinada entoação ascendente (representada na escrita pelo respectivo sinal de pontuação) é «a expressão de um tipo de acto ilocutório directivo, através do qual o LOC [locutor] pede ao ALOC [alocutário] que lhe forneça uma informação de que não dis-põe.» [MATEUS et al., 1989(2): 237]</DIV><DIV align=left>&nbsp;</DIV><DIV align=left>Trata-se, portanto, de um acto interpessoal, de um intercâmbio dialogal. De um lado, temos um locutor que interroga e que, ao fazê-lo, deseja obter uma informação; de outro, temos um outro alocutário que, em princípio, se presume ser capaz de informar e por isso de responder. A própria noção de pergunta inclui, portanto, a de resposta. &#8220;Quem pergunta quer saber&#8221;, sintetiza o velho ditado.</DIV><DIV align=left>&nbsp;</DIV><DIV align=left>A característica principal de uma interroga-tiva literal é, pois, a de obrigar o destinatário a uma resposta, estabelecendo assim, entre os interlocutores, uma espécie de obrigatoriedade, como esclarece Ducrot:</DIV><BLOCKQUOTE dir=ltr style="MARGIN-RIGHT: 0px"><DIV align=left>Se não se faz intervir esta ideia de uma obrigação de resposta imposta ao destinatário, o enunciado (&#8230;) já não é compreensível como uma pergunta, mas apenas como a marca de uma incerteza ou de uma curiosidade, ou ainda como forma retórica de exprimir a sua incredulidade (&#8230;) O que caracteriza a pergunta [literal] enquanto tal, é a exigência de uma resposta. [DUCROT, 1984(b): 445] </DIV></BLOCKQUOTE><DIV align=left>Como se sabe, nem todas as perguntas literais, totais ou parciais, obrigam a uma resposta verbal. Há perguntas que são ordens, afirmações ou pedidos indirectos de uma acção, sejam elas acompanhadas ou não de formas de cortesia. A sua ocorrência tem a ver com a problemática dos actos ilocutórios, os quais estão intimamente ligados aos mecanismos de construção e explicação do implícito. [Cfr. KERBRATORECCHIONI, 1986(2)]</DIV><DIV align=left>&nbsp;</DIV><DIV align=left>Valorizamos o carácter de obrigatoriedade de resposta que toda a pergunta literal institui, porque a chamada pergunta retórica não inclui, na sua definição, essa obrigatoriedade.</DIV><DIV align=left>&nbsp;</DIV><DIV align=left>Não é só nos discursos ditos literários que se encontra esta forma particular de interrogação. Também no falar quotidiano. Também e sobretudo nos discursos políticos, religiosos e publicitários, naqueles onde o orador se substitui ao ouvinte, na formulação dos seus problemas, incertezas, paixões, conflitos, questões, desejos, sejam eles conscientes ou inconscientes.</DIV><DIV align=left>&nbsp;</DIV><DIV align=left>A retórica, define Meyer, «c&#8217;est la négocia-tion de la distance entre dês hommes, à propos d&#8217;une question, d&#8217;un problème.» [Meyer, 1993: 22-23]</DIV><DIV align=left><br/>No campo da chamada «retórica dos conflitos», como no campo da chamada «retórica das paixões», </DIV><BLOCKQUOTE dir=ltr style="MARGIN-RIGHT: 0px"><DIV align=left>[&#8230;] fazer uma pergunta para a qual já se sabe que não há possibilidades de opção entre responder afirmativa ou negativamente, já que a própria formulação do problema prefigura uma das suas respostas (ou exclui ambas), é o artifício que recebe o nome de pergunta retórica. [PLEBE &amp; EMANUELE, 1992: 63].</DIV></BLOCKQUOTE><DIV align=left>O facto, porém, de não exigir uma resposta, não quer dizer que ela não afecte tanto aquele que a formula, como aquele que a recebe e reformula, ainda que em níveis e graus diferentes. É o velho problema retórico do <EM>ethos</EM>, centrado no orador, e do <EM>pathos</EM>, centrado no auditório. No meio fica o <EM>logos</EM>, o discurso, meio que é o meio que reúne, ou afasta, os interlocutores. Porque uma outra característica da pergunta retórica é a de ela ser formulada «com fins argumentativos ou como expressão da avaliação que o LOC faz de um determinado estado de coisas.» [MATEUS e tal., 1989(2): 238]</DIV><DIV align=left><br/>Em termos mais literários, como figura de pen-samento e ornato frásico, terá sido Quintiliano (séc. I) o seu primeiro teorizador. O autor das Instituições Oratórias diz que há interrogatio (os gregos chamavam-lhe erótema, para a distinguir do próblema; este formulava-se para ser resolvido, ou seja, obter uma resposta; aquele não necessariamente), há figura de interrogação, «quando se fizer, não para saber alguma cousa, mas para instar, e intimar mais o que se diz». E o retórico romano dá como exemplo, entre outros, o célebre «Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência?». E comenta, retoricamente interrogando: «Porque quanto mais fogo tem isto, dito deste modo, do que se dissesse-mos? Ha muito tempo que abuzas da nossa paciencia.» E Jerónimo Soares Barbosa, autor da tradução das Instituições que consultamos, comenta, em nota, que as interrogações «são figuradas» quando «tem ficção. O orador não he ignorante do que pergunta, mas finge-se tal para dar mais fogo, e acção ao pensamento.» [QUINTILIANO, 1836: 186-187, e 186, nota (e)]</DIV><DIV align=left><br/>Lausberg, que sistematiza, em Elementos de Retórica Literária, os aspectos essenciais da retórica clássica, refere, baseado no Górgias de Platão, que a pergunta retórica. </DIV><BLOCKQUOTE dir=ltr style="MARGIN-RIGHT: 0px"><DIV align=left>«[...] fustiga os afectos, por meio da evidência de que é desnecessária uma formulação interrogativa. Por isso, não se espera uma resposta a essa pergunta, pois que ela é, já por si, a formulação próxima da exclamatio, de uma afirmação.» [LAUSBERG, 1982(3): 259]</DIV></BLOCKQUOTE><DIV align=left>Tradicionalmente, e resumindo, a interrogação retórica literária é entendida como uma «figura de paixão que consiste em interpelar o leitor ou o ouvinte, dando àquilo que é, de si, afirmativo uma forma de pergunta.» Por isso, «o leitor é provocado e levado a dar, no seu íntimo, uma resposta de assentimento ao que se lhe propõe.» E «quando as I[nterrogações] se sucedem, i. é, quando a I[interrogação] se combina com a repetição e a gradação, o efeito exprime, ainda com mais urgência, a intensidade da paixão.» Além disso, é considerada como «a figura rítmica mais importante do estilo coloquial e do estilo patético», servindo para dar «relevo e interesse ao que se escreve ou se diz.» [Cfr. Mendes, 1970]</DIV><DIV align=left>&nbsp;</DIV><DIV align=left>É pelo facto das interrogações retóricas dispensarem resposta que se diz que elas ocorrem sobretudo em contextos (o contexto, real ou fictício, é sempre indispensável à sua concretização), onde os destinatários não têm voz activa. Daí que elas não sejam tão inocentes como por vezes se pensa, inclusive as literais. Repare-se nesta advertência de Ducrot: </DIV><BLOCKQUOTE dir=ltr style="MARGIN-RIGHT: 0px"><DIV align=left>«[...] tendo o ar de respeitar a liberdade do destinatário, ela [a interrogação, evidentemente] pode, no entanto, impor-lhe ideias prévias. Particularidade esta que torna suspeitas numerosas "sondagens de opinião", e que leva a desconfiar também da "pedagogia interrogativa" de inspiração socrática. Porque as perguntas do professor afirmarão geralmente tanto quanto perguntam. Daí os limites da "maiêutica", parto que pode ter certas características de inseminação.» [DUCROT, 1984ª: 401]</DIV></BLOCKQUOTE><DIV align=left>Falámos acima na ausência de voz, voz que a interrogação retórica uma vezes substitui, outras abafará. E a voz leva-nos, de novo, à poesia de Sena, mais precisamente àquele poema de onde retirámos o verso que tomámos como epígrafe deste estudo. Poema já referido, também, no início deste trabalho, na citação de Fátima Morna, e que a seguir se apresenta na integridade de título e texto:</DIV><BLOCKQUOTE dir=ltr style="MARGIN-RIGHT: 0px"><DIV align=left>TENDO LIDO UMA CARTA ACERCA DE UM SEU LIVRO DE POEMAS, QUE OFERECERA </DIV><DIV align=left>&nbsp;</DIV><DIV align=left>Por que entristeço ao ler o que de meus<br/>versos escrevem se não é de mim<br/>que escrevem?<br/>Será que chora em mim o que meus versos foram<br/>antes de ser meus?<br/>Por que pergunto, se já sei por quê?</DIV><DIV align=left>&nbsp;</DIV><DIV align=left>Escuto longamente, leio, espero,<br/>e o poema é voz de toda a gente, todos eles, que,<br/>não se tendo ouvido, não a sabem sua.<br/>E vêm chorar em mim o coração traído,<br/>a música perdida em distracções urgentes,<br/>umas palavras que ninguém falou. </DIV><DIV align=left>&nbsp;</DIV><DIV align=left>Não entristeço, pois. Apenas sou pergunta,<br/>e, sendo eu, me esqueço ao perguntar.»</DIV><DIV align=right>[SENA, 1977(2): 210]</DIV></BLOCKQUOTE><DIV align=left>A vários títulos nos parece importante este poema de Sena. Foquem-se alguns. Comecemos pelas interrogações. São três, e seguidas, e iniciam o poema. O poema nasce sob o signo da interrogatividade. Um problema apoquenta, aparentemente, o poeta.</DIV><DIV align=left>&nbsp;</DIV><DIV align=left>A primeira é constituída por três versos, a segunda por dois, a terceira por um. Que nos dirá esta organização vérsica? Em primeiro lugar, que há uma gradação a nível da forma. Havê-la-á também a nível do conteúdo?</DIV><DIV align=left>&nbsp;</DIV><DIV align=left>A primeira interrogação é a verificação de um facto, de um estado de espírito: o poeta fica triste, porque escrevem acerca dos seus versos e não acerca dele, poeta.</DIV><DIV align=left>&nbsp;</DIV><DIV align=left>A segunda é a razão/reconhecimento desse facto: o que chora no poeta é aquilo que os seus versos foram antes de serem dele.</DIV><DIV align=left>&nbsp;</DIV><DIV align=left>Para quê, então, a terceira pergunta (que como retórica definição de pergunta retórica se pode entender)? Para chegar às causas e à explicação última do ser poeta. É o que dizem a segunda e a terceira estrofes.</DIV><DIV align=left>&nbsp;</DIV><DIV align=left>Perguntas retóricas, sim, mas aliadas a outras figuras, a gradação e o raciocínio, sobretudo [QUINTILIANO, 1836: 105-115; LAUSBERG, 1982(3): 108-109]. Poderia este poema começar pela segunda ou terceira interrogação?... Teríamos, nesse caso, outros poemas, não este.</DIV><DIV align=left>&nbsp;</DIV><DIV align=left>Este poema é um silogismo ou, pelo menos, um entimema (<EM>thymós</EM>, «impressão emotiva») [PLEBE &amp; EMANUELE, 1992: 54; cfr. tb. LAUSBERG, 1982(3): 219-221]. Repare-se no final do poema que, apesar da contradição que parece ter com o início, inclusivamente nos aparece marcado pelo conector "pois", que interpretamos, por um lado, com valor de conclusiva e por outro com valor de causal ou explicativa: «Não entristeço, pois. Apenas sou pergunta, / e, sendo eu, me esqueço ao perguntar.»</DIV><DIV align=left><br/>Repare-se, ainda, na função demiúrgica, de <EM>medium</EM>, que o poeta assume no poema, como porta-voz da "tribo". Quem fala não sou eu: a minha voz é a voz daqueles que não têm voz, é o que, parafraseando, ele diz, como o poema o diz. A propósito:</DIV><BLOCKQUOTE dir=ltr style="MARGIN-RIGHT: 0px"><DIV align=left>«Nos anos 80, o protagonismo do texto invadiu a própria filosofia. Hoje vai abrindo a idéia de uma textualidade geral que diz respeito em igual medi-da tanto à literatura quanto à filosofia, de modo que as técnicas e os artifícios textuais da primeira não diferem, em substância, das técnicas e dos artifícios da segunda.(...)</DIV><DIV align=left>&nbsp;</DIV><DIV align=left>Mas, se o texto se coloca hoje como diafragma entre a arte de escrever e a arte de pensar, então o rhétoricien moderno não pende mais nem para o lado dos artifícios estéticos, nem para o das con-cepções filosóficas: ele pode surgir como o moderno demiurgo intelectual, que conhece a arte mais essencial, a de manipular o texto. Nesse sen-tido, ele tem um pé numa estética criadora (...) e outro numa filosofia não metafísica: de um lado é perito em signos literários, de outro em seus con-teúdos filosóficos.»&nbsp;[PLEBE &amp; EMANUELE, 1992: 184]</DIV></BLOCKQUOTE><DIV align=left>Por isso, os autores desta citação (professores de Filosofia em universidades italianas) terminam o seu livro dizendo: «Há estética e há filosofia onde o texto se presta a ser manipulado retoricamente», em vez da frase com que Max Bense abre o seu Kleine Texttheorie [1969]: «Há poesia onde palavras diferentes se encontram pela primeira vez.» [Id.: 186]</DIV><DIV align=left>&nbsp;</DIV><DIV align=left>Mas o poema «Tendo lido uma carta...» revela também dois aspectos, tidos hoje como característicos da arte literária contemporânea:</DIV><DIV align=left>&nbsp;</DIV><DIV align=left>o apagamento e o distanciamento do sujeito poético em relação ao seu próprio produto estético e, em consequência, a defesa da autonomia desse objecto, atitude que deve ser praticada também pela crítica, simbolizada aqui pelo eventual autor da carta. </DIV><DIV align=left>&nbsp;</DIV><DIV align=left>Voltemos às interrogações de Sena. Desta vez, com o poema </DIV><BLOCKQUOTE dir=ltr style="MARGIN-RIGHT: 0px"><DIV align=left>EPÍGRAFE PARA A ARTE DE FURTAR </DIV><DIV align=left><br/>Roubam-me Deus,<br/>outros o Diabo<br/>quem cantarei? </DIV><DIV align=left><br/>roubam-me a Pátria;<br/>e a Humanidade<br/>outros ma roubam<br/>quem cantarei? </DIV><DIV align=left><br/>sempre há quem roube<br/>quem eu deseje;<br/>e de mim mesmo<br/>todos me roubam<br/>quem cantarei? </DIV><DIV align=left><br/>roubam-me a voz<br/>quando me calo, <br/>ou o silêncio<br/>mesmo se falo<br/>aqui delrei!»</DIV><DIV align=right>[SENA, 1988(2): 17]</DIV></BLOCKQUOTE><DIV align=left>&nbsp;</DIV><DIV align=left>Uma interrogativa parcial, três vezes repetida, como refrão, no final das três primeiras estrofes. Estrofes também elas gradativamente constituídas por dois, três e quatro versos. Gradativamente também a nível de conceitos, Verticalmente colocados </DIV><DIV align=left>&nbsp;</DIV><DIV align=left>&nbsp;</DIV><DIV align=center>Deus<br/>Diabo<br/>Pátria<br/>Humanidade<br/>Amor(?)<br/>Voz<br/>Silêncio</DIV><DIV align=left>&nbsp;</DIV><DIV align=left>&nbsp;</DIV><DIV align=left>O poeta só pede socorro, isto é, só deixará de cantar quando lhe roubarem o próprio silêncio. A liberdade, a todos os níveis, foi sempre a maior luta do poeta. Repete-o frequentemente.</DIV><DIV align=left>&nbsp;</DIV><DIV align=left>Trata-se de uma pergunta retórica, associada à repetição e à gradação, que aliás faz lembrar outras usadas já pelos trovadores e jograis, nomeadamente satíricos. Mas o seu valor é sobretudo irónico, também pelo jogo que constrói e mantém, pelo inesperado do final. Final tanto mais inesperado quanto do ritmo criado pela repetição do refrão interrogativo, três vezes repetido, se esperaria que continuasse. Não continua e em sua substituição surge uma exclamativa, o grito de socorro e de revolta, que não deixa de ser interrogante, inquietante, incómodo. Prestemos atenção à curva melódica e aos fonemas que constituem os lexemas do refrão, nas duas realizações. Não se fica com a sensação de um toque a rebate crescente?... </DIV><DIV align=left><br/>Será necessário lermos mais poemas de Sena para nos apercebermos da importância da interrogação na sua poesia, aos vários níveis em que ela se concretiza?... </DIV><DIV align=left><br/>Gostaríamos, porém, de ler, apenas ler, pelas interrogações que contém, pela reflexões que propõe sobre a interrogatividade da arte, pela importância que a música teve na aparição da poesia a Sena.</DIV><BLOCKQUOTE dir=ltr style="MARGIN-RIGHT: 0px"><DIV align=left>OUVINDO O QUARTETO OP. 131, DE BEETHOVEN </DIV><DIV align=left>&nbsp;</DIV><DIV align=left>A música é, diz-se, o indizível<br/>por ser de inexprimível sentimento<br/>da consciência, ou um estado de alma,<br/>ou uma amargura tão extrema e lúcida<br/>que passa das palavras para ser<br/>apenas o ritmo e os sons e os timbres<br/>só pelos músicos cientes de harmonia<br/>e de composição imaginados. Mas,<br/>se assim fosse, eles só dos homens<br/>saberiam mover-se nos espaços<br/>que a humanidade abandonada encontra<br/>nos desertos de si. Começariam<br/>onde a expressão verbal não se articula<br/>por impossível. Viveriam sempre<br/>na fímbria estreita à beira da maldade<br/>e do absurdo, como que suspensos<br/>na solidão da morte sem palavras.<br/>Não é, portanto, a música o limite<br/>ilimitado dos limites da linguagem,<br/>para dizer-se o que não é dizível. </DIV><DIV align=left>&nbsp;</DIV><DIV align=left>Mas, se não é, que dizem lancinates,<br/>neste discreto passeio pelo tempo,<br/>os quatro instrumentos semelhantes<br/>no seu modo de criarem som?<br/>Tão terrível. Sufocante. Doce<br/>ou agridoce desconcerto harmónico.<br/>Que diz? Que diz? Neste contínuo<br/>de temas e andamentos, de tonalidades,<br/>o que se justifica? Que discutem eles?<br/>A sua mesma natureza de instrumentos<br/>e as combinações até ao infinito<br/>de um mecanismo abstracto do imaginar?<br/>Como pode uma coisa que sentimos tão medonha,<br/>tão visionariamente séria e pensativa,<br/>ser irresponsável? </DIV><DIV align=left>&nbsp;</DIV><DIV align=left>Será que nos diz do aquém, do abaixo,<br/>do infra, do primário, do barbárico,<br/>do animal sem alma e sem razão?<br/>Será que todo este rigor tão belo<br/>é como que a estrutura prévia<br/>de que existimos ao pensar as coisas?<br/>E não a quintessência depurada<br/>de uma estrutura que se consentiu<br/>todo o significar a que as palavras vieram<br/>da analogia nominal e mágica</DIV><DIV align=left>&nbsp;</DIV><DIV align=left>até à consciência dos universais?<br/>Não há tristeza alguma nesta<br/>vida transformada em puro som,<br/>em homogénea outra realidade?<br/>Não é de angústia este rasgar melódico<br/>da consciência antes de criar-se humana? </DIV><DIV align=left>&nbsp;</DIV><DIV align=left>De que, portanto, vem este triunfo<br/>que se precipita, contraditório, nas arcadas<br/>dos instrumentos conversando essências?<br/>É simples convenção? É artifício?<br/>Silêncio irresponsável? </DIV><DIV align=left>&nbsp;</DIV><DIV align=left>Se há mistério na grandeza ignota,<br/>e se há grandeza em se criar mistério,<br/>esta música existe para perguntá-lo.<br/>E porque se interroga e não a nós,<br/>ela se justifica e justifica<br/>o próprio interrogar com que se afirma<br/>não quintessência ela, mas raiz profunda<br/>daquilo que será provável ou possível<br/>como consciência, quando houver palavras<br/>ou quando puramente inúteis forem.</DIV></BLOCKQUOTE><DIV align=right>SENA, 1988(2): 181-182</DIV><DIV align=left>&nbsp;</DIV><DIV align=left>&nbsp;</DIV><DIV align=left><STRONG>Bibliografia</STRONG>___________________________________________________________________________</DIV><UL><LI><DIV align=left>AA. VV., 1981: Studies on Jorge de Sena. Santa Barbara: Bandanna Books.</DIV><LI><DIV align=left>DUCROT, O., 1984(a): «Pressuposição e Alusão», in AA. VV., 1984: Linguagem-Enunciação. Enciclopédia Einaudi, vol 2. Lisboa IN-CM; pp. 394-457 (Trad. Do art. De Henriqueta Costa Campos).</DIV><LI><DIV align=left>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;1984(b): «Actos linguísticos», in AA. VV., 1984: Linguagem-Enunciação. Enciclopédia Einaudi, vol 2. Lisboa IN-CM; pp. 439-457 (Trad. Do art. De Henriqueta Costa Campos).</DIV><LI><DIV align=left>KERBRATORECCHIONI, C., 1986(2): L&#8217;implicite. Paris. Armand Colin.</DIV><LI><DIV align=left>LAUSBERG, H., 1982(3) (1967): Elementos de Retórica Literária. Lisboa: Gulbenkian (Trad. de R. M. Rosado Fernandes). </DIV><LI><DIV align=left>MATEUS, M H.M e tal, 1989(2): Gramática da Língua Portuguesa. Lisboa: Caminho.</DIV><LI><DIV align=left>MENDES, J., 1970: «Interrogação», in VER-BO-Enciclopédia Luso Brasileira de Cultura, vol 10. Lisboa: Verbo.</DIV><LI><DIV align=left>MEYER, M., 1993: Questions de Rhétoriques. Langage, Raison et Séduction. Paris: Librairie Générale Française (Le Vive de Poche).</DIV><LI><DIV align=left>MORNA, F. F., 1985: Poesia de Jorge de Sena. Lisboa: Comunicação.</DIV><LI><DIV align=left>PLEBE, A. &amp; EMANUELE, P., 1992 (1989): Manual da Retórica. São Paulo: Martins Fontes (Trad. de Eduardo Brandão, revista por Neide Luzia de Rezende).</DIV><LI><DIV align=left>QUINTILIANO, 1836: Instituições Oratórias. Coimbra (Trad. e notas de Jeronymo Soares Barbosa).</DIV><LI><DIV align=left>SENA, J. &nbsp;1977(2): Poesia I. Lisboa: Moraes.<br/>&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; 1988(2): Poesia II. Lisboa: Edições 70.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; 1989(2): Poesia III. Lisboa: Edições 70. </DIV></LI></UL>
<h2>N.os 3/4 - Série 3 - Outubro 1999</h2><p align="center"><a href="http://picasaweb.google.pt/lh/photo/fZr23fJxy6w9GP5fimyzlg?feat=embedwebsite"><img src="http://lh4.ggpht.com/_1tggD33jlcU/SrnqR0nzcpI/AAAAAAAAAQs/Jx6Bru8KzSo/s800/mealibra_3e4_capa.jpg"></a><br/></p><ul><li><div align="left"><a href="/ccaminho/pt/?&amp;download=m3e4_sumario.pdf"><u>Sumário</u></a></div></li><li><div align="left"><a href="/ccaminho/pt/?Edi%E7%F5es%3A_Mealibra/N.os_3%2F4_-_S%E9rie_3_-_Outubro_1999/%22Cr%F3nica_convencional_por_espa%E7os_e_tempos_n%E3o_convencionais%22">"Crónica convencional por espaços e tempos não convencionais"</a>, por José Escaleira (pp. 33-37)</div></li><li><div align="left"><a href="/ccaminho/pt/?Edi%E7%F5es%3A_Mealibra/N.os_3%2F4_-_S%E9rie_3_-_Outubro_1999/%224_Poemas%22">"4 Poemas"</a>, por José Viale Moutinho (pp. 51-56)</div></li></ul>
<H3>"Crónica convencional por espaços e tempos não convencionais"</H3><H4 align=right>por José Escaleira (pp. 33-37)</H4><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Um não sei quê de crónica, um não sei quê de profético, um não sei quê de nós, emerge no caminho para o final do segundo milénio, como uma ténue concessão da Arte ao quotidiano.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ao viajar por esse quotidiano próximo passado, percorrendo o espaço das realizações culturais acontecidas em Viana do Castelo na primeira metade do ano 99, fui-me permitindo esboçar uma <STRONG>espiral temporal</STRONG> de reflexões, como se de impressões de viagem se tratassem. Este percurso (físico ou virtual) trouxe na peugada uma marca de fim de ciclo de mil anos, digna de ser anunciada por um qualquer Nostradamus clonado, não tão lunático como poderia parecer o original.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Do cansaço da digressão, fui aproveitando o remanso de seis estações, onde as convenções ou a falta delas me foram alimentando a reflexão naquele tempo de espera pela partida para a estação seguinte.</P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <STRONG>1ª Estação</STRONG><br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Qual é o poder de previsibilidade do dramaturgo?<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Qual é o sentido de oportunidade do organizador de repertório de uma companhia de teatro?<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Qual é a capacidade do encenador para ir de encontro ao real?<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Que sentimento recôndito desperta, em dado momento, no actor para que ele seja capaz de nos mostrar aquilo que esperamos?</P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O Teatro responde-nos.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mas poderá o Teatro do aqui e do agora cumprir a função de nos conduzir a outras dimensões?<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Estreado em Viana do Castelo no mês de Março, <EM>O Executor 14</EM>, produzido pelo Teatro do Noroeste e encenado por Xúlio Lago, foi de encontro aos cornos da realidade. Da realidade presente do momento da estreia, em que o Kosovo clamava contra a barbárie da limpeza étnica e a sociedade civil de Belgrado reagia aos bombardeamentos educados dos amigos americanos e da realidade futura de Setembro, em que o vírus do genocídio se mudou de armas e bagagens para Timor Oriental, onde os amigos americanos o demoraram a descobrir.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; E assim, presente na Praça da República, de Viana do Castelo, o Teatro esteve no <STRONG>passado</STRONG> de todas as guerras fratricidas, esteve no <STRONG>presente</STRONG> das guerras que os <EM>media</EM> nos vendem, esteve no <STRONG>futuro próximo</STRONG> das guerras da intolerância, da mentira e da hipocrisia e esteve no <STRONG>futuro longínquo</STRONG> saiba-se lá de quê.<br/>Da catedral da Arte pela Arte &#8211; o Teatro Municipal Sá de Miranda - o Teatro do Noroeste foi para a praça pública, para a catedral cem vezes cívica dos antigos Paços do Concelho (agora sem os barrocos <EM>apliques</EM> que alguém um dia defendeu contra os desvarios da arte moderna) teimando em fazer renascer esta efémera arte do eterno, mil vezes amordaçada, mil vezes em crise, mil vezes pujante. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Neste espaço/tempo de comunicação em que o teatro sobrevive, não podemos deixar de perceber que ali ao lado, as tecnologias da informação nos colocam simultaneamente em duas ou mais dimensões, numa altura em que o conhecido só o é enquanto os <EM>media</EM> tecnologicamente apetrechados o queiram. Assim o teatro cumpra também essa função com esclarecidos propósitos de nos fazer reflectir sobre o real.</P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <STRONG>2.ª Estação<br/></STRONG>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A necessidade de obras no velho teatro oitocentista e não só, trouxe também aos antigos Paços do Concelho o paradoxo do aqui e do agora, mostrado a partir da peça <EM>Perdidos nos Apalaches (Brincadeiras Quânticas)</EM>, de Sanchis Sinisterra. Aqui, em Junho, o Teatro assumiu deliberadamente a problemática da dimensão como pretexto para outras (des)convencio-nalidades.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Esta fuga à convenção do velho espaço à italiana permite nos tempos que correm um encontro connosco e com as motivações que nos levam ao teatro. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No espaço teatral (ou melhor, no espaço onde se convencionou desenrolar o espectáculo de teatro) todos nos comportamos em duas dimensões: como actores e como espectadores. A verdade é que, nesta dita era da democratização da cultura, mais difícil se torna descobrirmos a função que verdadeiramente desempenhamos: se a de sermos vistos, se a de vermos.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em épocas passadas a disposição dos lugares no teatro reflectia a hierarquia social. O ir ao teatro <STRONG>para ver</STRONG>, <STRONG>para ser visto</STRONG>, ou <STRONG>para ser visto a ver</STRONG> era uma função social compreendida e exercitada. Agora, por convenção, vamos ao teatro para ver, embora a prática esteja longe disso. Peças como estas talvez nos ajudem a recuperar a verdade dos factos. <EM>Perdidos nos Apalaches</EM> contribui para que melhor percebamos a realidade, ao sermos integrados na trama da peça como associados do Clube de Divulgação Cultural Amadeu Pimentel, ali presentes para participar no acto social que é a assistência a uma conferência (ou a um espectáculo de teatro). Vemos e vemo-nos, porque o mestre sala faz questão disso.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Por outro lado, não devemos esquecer-nos, olhando para nós próprios, que o lazer e o andar entre as gentes é também uma actividade social, convencionada. Nos novos espaços de representação social, onde incluo as catedrais de consumo, milhares de humanos cumprem a sua actividade de exibição quotidiana, vestindo-se de forma adequada.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Vestimo-nos adequadamente para ir ao centro comercial, ao restaurante, ao futebol, à inauguração da exposição, à conferência, ao comício, à missa, ao tribunal, ao médico, ao advogado, ao casamento, ao baptizado, ao funeral, a isto, àquilo, para a manifestação <EM>Por Timor</EM>, ...para o trabalho, etc., etc..<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Vamos de encontro à <EM>Sociedade do Espectáculo</EM>, de Guy Debord que escreve: &#8220;a fase presente da ocupação total da vida social pelos resultados acumulados da economia conduz a um deslizar generalizado do <EM>ter</EM> em <EM>parecer</EM>, de que&nbsp; todo o &#8220;ter&#8221; efectivo deve tirar o seu prestígio imediato e a sua função última&#8221;.</P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <STRONG>3ª Estação</STRONG><br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Pode um espectáculo de teatro ser trabalhado como um espectáculo de magia em <EM>close-up</EM>, em que o mágico manipula a realidade/ilusão em frente dos olhos do espectador?<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Poderá uma peça de teatro fazer-nos acreditar que afinal somos actores e actrizes, ao mesmo tempo que espectadores?<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; As <EM>Regras da Arte de Bem Viver na Sociedade Moderna</EM>, de Jean-Luc Lagarce, estreada em Junho, abriu-nos a porta para um mundo de regras de etiqueta e de boas maneiras permitindo uma tomada de consciência, no final do século XX, da incoerência e do desmembramento sublime a que chegamos. Ou melhor, a que chegou uma sociedade onde o que era um procedimento de regulação social, passou a ser um conjunto de didascálias sopradas no palco do espectáculo social por um qualquer ponto de serviço.</P><P align=center><IMG src="./archive/jescaleira1.jpg"></P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nesta peça de Lagarce, as actrizes tiram de dentro da sua interpretação os truques da velha sociedade, manipulando a realidade por cima e em cima dos nossos olhos. E nós ali estamos, talvez sem percebermos que também no quotidiano grande parte das regras não passam de ilusão, de passes de magia, escondendo um qualquer truque que só o mago entende. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Cada um de nós desempenha funções de cenário e de actor mudo numa cerimónia onde a senhora (dos gatos) dita as regras. Actores-espectadores habituados às regras que outras senhoras e senhores vão impondo, sorrimos e questionamo-nos (talvez) sobre o ser dessas convenções, se para isso nos restar espaço, pois, como escreve no programa José Martins, &#8220;as sementes das regras estão dentro de nós&#8221;.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Através de reflexões proporcionadas por estas não convencionalidades, vamos descobrindo que as regras existem para que as pessoas se mostrem a cumpri-las e não tanto para que se cumpram. Quando o espectáculo acaba, as regras são arrumadas, como adereços utilizáveis, até ao próximo ritual em grupo, pois o rotineiro funcionamento social é sempre assegurado por via de outras regras mais biologicamente telúricas..<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ficam, entretanto, as aparências. Feuerbach, no prefácio à segunda edição de <EM>A essência do Cristianismo</EM> dizia : &#8220; E sem dúvida o nosso tempo...prefere a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência ao ser...O que é sagrado para ele não é senão a ilusão, mas o que é profano é a verdade...&#8221;</P><P><STRONG>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; 4ª Estação</STRONG><br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Que dizer de uma ópera de Mozart em Teatro de Marionetas?<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Que pensar quando essa ópera de Mozart é apresentada numa Galeria de Arte?<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Fora de convenções assistimos a esta <EM>Flauta Mágica</EM> composta no último ano de vida de Mozart, com um libreto escrito a pensar nos ideais e convenções da Maçonaria.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Acolheu-a e acolheu-nos, em Maio, a Galeria Barca d&#8217;Artes, espaço do Centro Cultural do Alto Minho, local de culto onde a diversidade tem quebrado a covencionalidade dos espaços exclusivos. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Zarastro e seus sacerdotes, mestres-guardiões da paz e da fraternidade que esta ópera fantástica nos pretende transmitir, foram conduzidos pelas mãos de outros dois sacerdotes do teatro que escolheram Viana para seu ermitério &#8211; Alexandre Passos e Lucílio Valdez.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O primeiro, especialista reconhecido em Teatro de Marionetas e o segundo, conhecido animador cultural e teatral, ao trazerem por suas mãos esta <EM>Flauta Mágica</EM> traziam à luz do dia este novo grupo, o seu Grupo de Teatro de Marionetas e Manipulação de Objectos.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Entramos no domínio da pura convenção teatral. O efeito atingido é máximo quando objectos vulgares, bonecos, formas, coisas, ganham alma e são entendidos como humanos. A distanciação aqui é efectiva: o que digo não sou eu quem o diz, é o boneco.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Daí, a sábia recuperação para a política espectáculo do estafado dito &#8220;enquanto cidadão, acho que sim, enquanto &#8220;membro do meu partido&#8221;, acho que não&#8221;. É como se o cidadão assumisse simultaneamente o papel de mani-pulador e de forma animada, predispondo-se a auto-manipular-se num espectáculo com dois actores em um: ele e o outro que sendo ele, não age como isso, continuando, no entanto a ser ele. </P><P align=center><IMG src="./archive/jescaleira2.jpg"></P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nesta ópera sem música, manipulava-se a paz, fazia-se desdenhar a <EM>Rainha da Noite</EM>, augurava-se um bom desfecho para <EM>Pamina</EM> e <EM>Tamino</EM>. <EM>Papagemno</EM> e <EM>Papagena</EM> também aproveitaram. A consciência colectiva precisa de flautas mágicas que em momentos como estes, em que o mito milenarista teima em sobreviver, despertem atitudes solidárias, capazes de fazer avançar a utopia.</P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <STRONG>5ª Estação</STRONG><br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Existe em Viana um recanto agradável, baptizado não sei há quanto tempo, nem porquê como Praça da Erva.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Esta polissémica erva tem acolhido na sua praça diversas manifestações artísticas, desde representações teatrais, feiras medievais recriadas, concertos vários, até ao conhecido <EM>Jazz na Praça da Erva</EM> que em todos os Julhos, tem dado notoriedade e imagem de marca a este recanto vianense.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Neste ano de 99, quis a providência, através do guardião das águas celestes, que a chuva enviasse, nas últimas sessões, o <EM>Jazz na Praça da Erva</EM> para o auditório do Castelo de Santiago da Barra.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Foi sem dúvida uma prenda do celestial Pedro ao anfitrião Francisco Sampaio, que viu em tão pouco espaço de tempo o seu castelo invadido primeiro, por hordas de comilões, nas tasquinhas das Festas Populares e ,depois, por&nbsp; melómanos amantes do Jazz.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Do passado surge, no outro canto da cidade, um outro espaço, talvez convencional, para o Jazz, mas já não tanto para as sessões da Assembleia Municipal de Viana do Castelo.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No entanto, estes dois actos de criação colectiva &#8211; um concerto de Jazz e uma sessão da Assembleia Municipal - comportam características em comum, sendo a mais notória a&nbsp; convencionada necessidade de improvisação para que a obra se cumpra.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No Jazz, partindo de um tema central, num diálogo participado e por vezes aguerrido, os músicos vão improvisando, constituindo cada solo, por vezes, uma peça de alto valor estético.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quando, numa assembleia de cidadãos, os políticos eleitos tratam da coisa comum, improvisos com maior ou menor valor estético e baseados nos temas da agenda do dia, são atirados para a assembleia, deliciando o livro de actas e a plateia que segue atenta a discussão. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Não sei se António Pinho Vargas e Bernardo Sassetti1 , músicos que tivemos a felicidade de ouvir nas ditas sessões transferidas, têm correspondentes nos políticos da nossa praça, como estrelas da improvisação e da composição melódica. No entanto, espera-se que a administração da coisa pública, tal como a música, tenha, nos seus protagonistas, estrelas de criatividade política, de eficiência/eficácia, de dedicação/desprendimento e de um equilibrado sentido de gestão.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; E nesta sociedade de trocas, que também é democrática, algo há - ou se espera que haja - no outro lado dos nossos actos, quanto mais não seja para que nos incentive a continuar. O que os músicos vêem retribuído em discos vendidos e boas falas da crítica especializada, verão os políticos em votos futuros e no reconhecimento superior para cargos mais consentâneos com os seus desejos.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Daí que no mundo da improvisação haja que ter um cuidado redobrado. Estou certo, no entanto, que os músicos de Jazz terão face à improvisação uma postura mais profissional.</P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <STRONG>6ª Estação</STRONG><br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No espírito da afirmação de Lavoisier, &#8220;na terra nada se cria, nada se perde, tudo se transforma&#8221;, João Ricardo Oliveira, o mediático vianense auto-intitulado de <EM>Dr. Sound</EM>, apresentou-nos música não convencionalmente feita, partindo de objectos produzidos, consumidos e abandonados...e reciclados...e reutilizados. Isso foi em Maio na ala nova do Museu Municipal de Viana do Castelo.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Como é sabido, a produção numa economia de mercado satisfaz planos estratégicos dos seus promotores, que se propõem retirar um determinado rendimento do capital investido, satisfazendo as necessidades dos consumidores.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O socializado acto do consumo, por outro lado, permite que aqueles bens produzidos satisfaçam as necessidades dos consumidores, desaparecendo uns no acto do consumo, sendo outros passíveis de várias utilizações. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Como recordação física do processo, ficam no final, resíduos, <EM>basura</EM>, <EM>trash</EM>, <EM>poubelle</EM>, <EM>abfall</EM>, <EM>immondizia</EM>. São, afinal de contas, bens negativos capazes de causar efeitos perniciosos se não forem reduzidos, reciclados e reutilizados.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Daí que o vianense Dr. Sound (<EM>Escolinha, para os amigos</EM>, antes de ir para Berlim, Nova York, Paris e Londres), transformasse o lixo em música. Nada de mais humano, nada de mais ecológico, nada de mais economicamente saudável.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Numa <EM>performance</EM> urbana de fim de milénio, esperando, no entanto, que&nbsp; não seja o lixo a única coisa que nos reste, tivemos oportunidade de assistir a uma viagem sonora no <EM>Espaço 15:03</EM>, onde profeticamente o lixo grita pelo estatuto de cidadania exigindo direito a tratamento de coisa útil(izável).<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Porque na produção escrita também certamente se geram desperdícios e inutilidades, paro por aqui, no lixo, esta minha espiral. Também não consegui encontrar mais estações no caminho, sob cujo abrigo pudesse continuar as minhas reflexões. Assim, quedei-me no lixo profético da esperança de não ser de lixo o nosso futuro.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Feito a partir de, e com tantas incomunica-bilidades, poderá o lixo, se reutilizado, ser mais um meio de comunicação. Afinal, a não convencionalidade continua a surpreender o Homem.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mas no fim (ou princípio) de tudo, vindo do fundo dos rituais das cavernas que o futuro Diónisos apadrinharia, o <STRONG>espectáculo</STRONG>, como porta aberta à tão humana criatividade, continua a ser o guardião do Graal. Do Graal que encerra o segredo da catarse colectiva, único elemento capaz de realizar e revitalizar, pela solidariedade da comunicação, o equilíbrio necessário à manutenção da espécie.</P><P>&nbsp;</P><P>(1) Bernardo Sassetti, dias depois de ter actuado em Viana do Castelo, apresentou-se no Centro Cultural de Belém. Tendo sido programado para o ar livre e como chovesse, o Diário de Notícias noticiava em meia página que o dito pianista tinha sido obrigado, com muita pena do público, a tocar no interior. Percebi com isto que o direito de um Festival ser noticiado não depende da chuva, nem do artista, nem do tipo de música, nem do mês em que é realizado, mas de ......<br/><IMG src="./archive/jescaleira3.jpg"></P><P>&nbsp;</P>
<H3>"4 Poemas"</H3><H4 align=right>por José Viale Moutinho (pp. 51-56)</H4><BLOCKQUOTE dir=ltr style="MARGIN-RIGHT: 0px"><P dir=ltr align=left><STRONG>ELEGIA DE UMA TARDE DE SÁBADO</STRONG></P><BLOCKQUOTE dir=ltr style="MARGIN-RIGHT: 0px"><P dir=ltr align=left><STRONG>1</STRONG></P><P>esta tarde de sábado é a pior<br/>das tardes de sábado.<br/>acabei de escrever um outro nome<br/>no reverso da terra, o teu nome,<br/>e o pó das palavras escorrega,<br/>lentamente escorrega,<br/>na ampulheta.<br/>doem-me estes olhos de tanto <br/>os fixar nos jornais antigos.<br/>é a letra miúda, oca, negra,</P><P>onde tudo se diz, arma<br/>e se disfarça,<br/>que fode quase tudo:</P><P>as asas deste anjo que sou<br/>são de pau, papel e cera velha,<br/>os braços e as pernas<br/>como canas da índia mal descoberta,<br/>as grilhetas de um fraco metal<br/>transformado da escória<br/>apanhada a eito nas escombreiras <br/>da serra de santa justa.</P><P><STRONG>2</STRONG></P><P>eis a ilha mal desenhada,<br/>eis o penedo do sul com a espada<br/>cravada por um rei perdido<br/>em lendas de guerras africanas:<br/>a tempestade turva <br/>a limpidez das águas próximas,<br/>as nuvens, as negras nuvens<br/>que pairam sobre mim, <br/>em março, como hoje,<br/>acabam por afastar-se,</P><P>e agora penetro no jardim proibido,<br/>onde estão todas as fontes da cidade,<br/>sem água, sem mágoa,<br/>silenciosas cúmplices dos jovens amantes<br/>entre os arbustos. afinal,<br/>que me importa a ilha,<br/>esta ilha,<br/>as suas líricas gaivotas:<br/>é que o ogre lá está<br/>devorando os pequenos ogres<br/>e o resto,<br/>mesmo esse teu nome <br/>e os teus manuscritos abandonados.</P><P align=left><STRONG>3</STRONG></P><P>caminhando, solitário caminhar o meu,<br/>olhando o rio,<br/>os muros que se erguem do lado de cá<br/>do rosto,<br/>mal anoto a primavera,<br/>a estação dos derradeiros comboios.<br/>sábado? sábado?<br/>revolvo-me no sofá,<br/>escondido da luz coada da tarde.</P><P>é uma arde de merda, já disse,<br/>em que deveria estar <br/>diante de um espelho,<br/>e de um velasquez,<br/>os dedos do pianista mal tocando as teclas:<br/>as variações goldberg são <br/>um tributo de bach<br/>para que o silêncio seja mais harmonioso.<br/>harmonioso?<br/>aproximas as tuas mãos das minhas,</P><P>este sábado é a entrada <br/>de um velho museu de história natural,<br/>pálido e com algum pó</P><P><STRONG>4</STRONG></P><P>as&nbsp; minhas fontes, <br/>na verdade,<br/>não são versos nem multidões,<br/>nem fantasmas, <br/>nem música,<br/>proscrito dos mares e do areal;<br/>elas afundam-se numa tarde de Sábado,<br/>submergem na água de lavar <br/>a louça da semana,<br/>e ainda na verdade,<br/>esse homem que atravessa a sala<br/>e penetrra na parede do quarto de dormir<br/>não é fernando pessoa,<br/>quem diria?</P><P>trata-se de<br/>joão roiz de castelo branco:<br/><EM>partem tão tristes os tristes</EM>,<br/>infelizmente nasci com a pátria <br/>bem doente<br/>e um amargo sorriso afivelado:<br/>poe, penha, pessanha,<br/>guilevic, éluard,<br/>machado,<br/>e uns versos perdidos dos seus poetas,<br/>talvez demasiadas prosas sem teatro.</P><P><STRONG>5</STRONG></P><P>abro as mãos <br/>diante do espelho do quarto de banho:<br/>abro a boca<br/>e mostro as línguas a mim mesmo,<br/>tenho bolhas de medo<br/>e riscos de nascença nas mãos,<br/>mais manchas de veneno nas línguas,<br/>o espelho embacia-se,<br/>a água da torneira é acastanhada,<br/>o telefone toca e é engano,<br/>mas de novo digo que<br/>esta tarde de sábado é uma merda,</P><P>de olhos postos em mim,<br/>de um bolso da camisa tiro<br/>o papelinho do mapa das fontes da ilha onde nasci,<br/>de outro bolso um belo cd-rom<br/>com as raízes de quem sou,<br/>a crónica genealógica deste sangue perdido,<br/>deste pó conduzido entre os vasos da ampulheta.</P></BLOCKQUOTE></BLOCKQUOTE><P dir=ltr>........................................................................................................</P><BLOCKQUOTE dir=ltr style="MARGIN-RIGHT: 0px"><P><STRONG>ENTRE MÁSCARAS</STRONG></P><BLOCKQUOTE dir=ltr style="MARGIN-RIGHT: 0px"><P>&nbsp;<STRONG>1</STRONG></P><P>&nbsp;depressa, depressa, esconde-te<br/>&nbsp;entre os lábios,<br/>&nbsp;na curva da língua,<br/>&nbsp;palavra,<br/>&nbsp;à entrada do pão, no dedo<br/>&nbsp;que procura a espinha;<br/>&nbsp;maldita palavra, depressa,<br/>&nbsp;há um ouvido à tua espera,<br/>&nbsp;um ouvido de pedra e cristais de silêncios vários,<br/>esconde-te,<br/>mesmo na concha da mão;</P><P><STRONG>2</STRONG></P><P>conheci-lhe o vulto envolto<br/>na nuvem de uma tempestade antiga,<br/>abri os olhos como aquele relâmpago<br/>da noite em que me perdera,<br/>abri a boca <br/>e senti a chuva nos dentes,<br/>essa música oculta, <br/>esse desdizer,<br/>e atraí o vulto envolto<br/>como quem atraiçoa as árvores;</P><P><STRONG>3</STRONG></P><P>mentes, sempre mentiste,<br/>sem saber como: mentias.</P><P>a navalha que te corta os lábios<br/>é uma folha de papel mágico,<br/>uma onda fina entre<br/>uma e outra mentira,</P><P>uma folha de registo de mentiras,<br/>uma asa cortada à tesoura;</P><P>mentes, sempre acreditaste<br/>no fio das lâminas,<br/>nesse insuportável sinal<br/>no canto da boca.</P></BLOCKQUOTE></BLOCKQUOTE><P>.........................................................................................................</P><BLOCKQUOTE dir=ltr style="MARGIN-RIGHT: 0px"><P><STRONG>AUSÊNCIAS</STRONG></P><BLOCKQUOTE dir=ltr style="MARGIN-RIGHT: 0px"><P>acenando com a humidade do lenço,<br/>os olhos que importam,<br/>em silêncios imperdoáveis,<br/>como lábios que procuram<br/>a boca onde se escondem as palavras<br/>de um amor evasivo,<br/>como o vidro embaciado da janela do medo,</P><P>e vou deslizando a língua, a negra língua,<br/>pelos teus seios,<br/>deitado na doçura fechada do teu ventre:<br/>a flecha que se despede em clara seiva<br/>como se amorosamente nos despíssemos.</P><P>são estes os dizeres do meu signo<br/>na revista de actualidades televisivas?<br/>é este o texto?<br/>pois merda para quem faz<br/>os horóscopos nesta revista!</P></BLOCKQUOTE></BLOCKQUOTE><P>.........................................................................................................</P><BLOCKQUOTE dir=ltr style="MARGIN-RIGHT: 0px"><P><STRONG>JÁ NINGUÉM CANTA</STRONG></P><BLOCKQUOTE dir=ltr style="MARGIN-RIGHT: 0px"><P>então, já ninguém canta?<br/>o sol aproxima-se<br/>dos seus próprios limites,<br/>os cães erguem<br/>os dentes às sombras mais altas.<br/>e a morte<br/>metida na gaveta chama<br/>as últimas sombras;</P><P>mas, como é domingo,<br/>a manhã do último<br/>domingo da estação,<br/>possivelmente estou<br/>a falar do outono,<br/>saí a passear os olhos<br/>mortos pelas paredes<br/>do castelo de duíno;</P><P>então, a voz pode perder-se<br/>sem um soluço?<br/>a lâmina não fere o globo ocular<br/>do silêncio<br/>do homem velho a arrumar<br/>as giestas lunares?<br/>são estas as ruas da cidade?<br/>claro, são estas</P><P>as ruas da cidade,<br/>as lojas estão fechadas<br/>e o medo é vendido<br/>nos panos estendidos,</P><P>aí há ainda elefantes e leões<br/>de madeiras exóticas,<br/>amuletos contra o medo,<br/>sedas próprias para<br/>putas invejosas:<br/>eis as suas vozes,</P><P>possessas,<br/>acreditam<br/>em qualquer coisa:<br/>nos tais limites<br/>do sol que excita os cães,<br/>nesses nigerianos<br/>acocorados na praça da liberdade,<br/>vendendo;<br/>&nbsp;<br/>trata-se de um Domingo<br/>à tarde,<br/>já perceberam,<br/>um entardecer tão vil<br/>que o quero esquecer,<br/>por isso invoco as sombras<br/>e as suas páginas<br/>e rogo aos deuses<br/>que nos entretenham<br/>com os medos,<br/>que incendeiem o teatro natural<br/>do gesto,<br/>o museu individual das paixões<br/>de asas abertas,</P><P>sabem como se faz<br/>um programa de televisão?</P><P>sabem quem se esqueceu<br/>de um romance de camus no café?</P><P><br/><EM>Porto: Setembro &#8211; Novembro de 1996</EM></P></BLOCKQUOTE></BLOCKQUOTE>
<h2>N.º 5 - Série 3 - Junho 2000</h2><p align="center"><a href="http://picasaweb.google.pt/lh/photo/GTIwqTs7N5ygAp8hWZmBgA?feat=embedwebsite"><img src="http://lh6.ggpht.com/_1tggD33jlcU/SrnsPKBY3fI/AAAAAAAAARI/JYNYYdkSueI/s800/mealibra_5_capa.jpg"></a><br/></p><ul><li><div align="left"><a href="/ccaminho/pt/?&amp;download=m5_sumario.pdf"><u>Sumário</u></a></div></li><li><div align="left">Das Literaturas - <a href="/ccaminho/pt/?Edi%E7%F5es%3A_Mealibra/N.%BA_5_-_S%E9rie_3_-_Junho_2000/%22O_Tempo_da_Imperfei%E7%E3o%22">"O Tempo da Imperfeição"</a>, por José Manuel Mendes (pp. 11-16)</div></li><li><div align="left">Das Literaturas - Poemas Inéditos - <a href="/ccaminho/pt/?Edi%E7%F5es%3A_Mealibra/N.%BA_5_-_S%E9rie_3_-_Junho_2000/%224_Poemas_In%E9ditos%22">"4 Poemas Inéditos"</a>, de António Ramos Rosa (pp. 19-20)</div></li><li><div align="left">Das Literaturas - Poemas Inéditos - <a href="/ccaminho/pt/?Edi%E7%F5es%3A_Mealibra/N.%BA_5_-_S%E9rie_3_-_Junho_2000/%222_Sonetos_In%E9ditos%22">"2 Sonetos Inéditos"</a>, de Fernando Pinto do Amaral (pp. 22-23)</div></li></ul>
<H3>"O Tempo da Imperfeição"</H3><H4 align=right>por José Manuel Mendes (pp. 11-16)</H4><P><br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A insignificância que somos. Não a perder pelo caminho. Não a esquecer quando o triunfo nos cinge à efémera eternidade dos deuses. Quando o infortúnio corrói ou aniquila. Trazemos algures cidades empardecendo, destroços a haver, cantos que o nevoeiro apaga e calcina. Frágil é sempre a própria luz. Por muito que arrepie, nas estações sem a garra da finitude, o seu voo de flamingo. Dela nascerão a cinza e a pedra, a memória delindo, limos que o rio abandona em nunca mais.<br/>22.5.93.</P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; a tua voz como lugar de avidez, tão erva e lua. Serpe, vento, alga. De súbito, a distância apagada na lousa e ambos escrevendo a uma só mão os nomes, as casas por haver.<br/>3.1.97.</P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Plenitude. Jugulada por uma impossibilidade. Este rio de lágrimas e cinzas, movimento sem medida nem aragem, absurda distância entre o desejado e o realizável. E o deserto do mundo. A última estrela. Apagando-se.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Do outro lado, raízes. Uma unidade que sobreviveu a múltiplos calafrios. Dorida imagem presente do que foi caminho. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O abismo nas águas apartadas.<br/>30.5. 99.</P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Janine, Robert. Manuel, Helena. Teresa, Daniel. Francisco, Luísa. Helena, Pedro Duarte. Graça, António Manuel. Ricardo, Alcina. Serge, Annie. Marta, José. Manuela, Carlos. Elisabeth, Gregory.&nbsp; Eduardo, Maria. Berta, João Adriano. Michel, Nicole. Francisca, Paulo. E tantas, tantos ainda. Vidas doadas ao longo de uma vida. Por entre mil angústias e muralhas, mil sóis sempre além do constrangimento. Mulheres de terra e água, mulheres em cujos ombros principiam o infinito, a ave, a perfeição, urnas salinas (Herberto Helder), pain des étoiles (René Char), olho-as e comovo-me, porquê de súbito a cidade vazia, o baloiço parado sob a lua, os telhados que não verei?, olho-as, do sonho esfacelado nem um ramo de ternura, tudo desfeito como se em mim fossem guilhotinados os que no júbilo permanecem, olho-as e absolvem-me, trazem o vento que bebo, sua brevidade e seu arbusto. Mas o minuto que falta é escuridão apenas. Janine, Robert. Manuel, Helena... <br/>2.99.</P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Tahar Ben Jelloun, <EM>L&#8217;Auberge des Pauvres</EM>: &#8220;Un amour qui n&#8217;est pas sujet de doutes et de tempêtes n&#8217;est pas tout à fait de l&#8217;amour, c&#8217;est autre chose. (...); l&#8217;amour, c&#8217;est du risque, du danger et de l&#8217;incertitude permanente, le plaisir est alors plus fort. La raison n&#8217;est pas toujours bonne. Faut pas croire, mais trop de raison dans les sentiments, ça les abîme souvent.&#8221;<br/>27.3.99.</P><P>&nbsp;Ao telefone<br/>&nbsp;- três depoimentos<br/>&nbsp;<EM>1. Almeida Garrett marcou, com alguns outros, as minhas leituras de adolescente. De então para cá, sobretudo a partir das propostas dos que melhor o vêm estudando, reli-o sempre com revigorado apreço e proveito. Personalidade singularíssima, deixou uma obra de rara diversidade e riqueza, engenhosa, inovadora, crescentemente assumida à luz do romantismo europeu e de um aprofundamento da nossa tradição lírica. Livros como <STRONG>Viagens na Minha Terra</STRONG> ou <STRONG>Frei Luís de Sousa</STRONG>, a par da restante dramaturgia e porventura mais do que o legado poético, foram acolhidos com alvoroço por várias gerações de narradores, leitores e profissionais do teatro. As <STRONG>Viagens</STRONG> têm, de resto, elementos fundadores de uma literatura que se estatuiu na modernidade. Por isso, o que nelas é crónica e crítica, efabulação e questionamento, digressivismo e sortilégio formal tocou, no chamado período formativo, autores cimeiros do passado e de hoje, José Saramago incluído. As investigações em torno da recepção de Garrett até ao presente bem o comprovam.<br/></EM>&nbsp;Menos conhecida será, entretanto, a intervenção do escritor na vida pública, por entre vicissitudes que lhe permitiram conhecer a oposição ao miguelismo e o exílio, a experiência revolucionária e os sobressaltos, os recuos que lhe sucederam. Considero admiráveis, por exemplo, as suas páginas parlamentares &#8211; pela viveza e pelo rigor, por uma osmose feliz entre poder oratório e performatividade, solidez de conteúdo e elegância de estilo. Permito-me lembrar o facto de lhe ter pertencido a primeira iniciativa legal no sentido de estabelecer um regime de protecção dos direitos de propriedade literária e artística. E tal iniciativa, sublinhe-se, não perde no confronto com as congéneres concebidas na Europa do seu tempo. A edição dos seus discursos, ainda de acesso difícil, decerto confirmará a opinião que emito.<br/>Frágil e contraditório, mundano e brilhante, de raiz melancólica e &#8211; como acentuou Gregorio Marañón &#8211; radicalmente romântico, lúcido e multiforme, a Garrett permanece destinado um lugar de vulto na nossa memória cultural. Apraz-me saber que aí o encontro quando amiúde o revisito.<br/>11.99.</P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; 2. Não sei se se lê hoje mais e melhor. Os números são contraditórios e, talvez valha a pena dizê-lo, não são tudo. Os números nunca são tudo. O esforço institucional empreendido no sentido da difusão do livro e do incremento à leitura, sobretudo por parte do IPLB, parece-me digno de admiração e solidariedade, mesmo estando certo de que é possível ir mais longe nas políticas e nos meios adoptados. Não direi o mesmo de outros departamentos públicos, o Ministério da Educação por exemplo. Aí, mesmo enaltecendo as progressões detectáveis nos últimos quatro anos pela mão da minha amiga Teresa Calçada, o saldo não me conforta. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Gostaria de acompanhar o contentamento e o optimismo daqueles que, como depreendo da pergunta formulada, acham que o Prémio atribuído a José Saramago opera prodígios, resolve problemas endémicos, faz vender a um outro ritmo as obras dos autores portugueses, no País e um pouco por toda a parte, ajuda os escritores, os editores e os livreiros a viver numa situação de menores constrangimentos, salva a língua portuguesa e o nosso património em risco, corrigindo a inércia das instituições. Mas não o farei. O Nobel foi a consagração de uma personalidade decisiva da literatura contemporânea, foi o nosso instante de triunfo, de sublimação, a hora intensíssima e breve, e, embora reconheça os seus efeitos, penso que não poderá exigir-se-lhe que substitua o que a múltiplos agentes incumbe, o que cabe ao Governo desde logo, às associações e grupos de iniciativa cultural, a todos nós, certamente relapsos à auto-crítica em circunstâncias como esta... <br/>(Dia Mundial do Livro / 99)</P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; 3. As Casas de Escritores encontram-se, regra geral, à margem de dinâmicas culturais que delas façam um lugar de visita, investigação e iniciativa. Deverá mesmo dizer-se que, em vários casos, se perdem num espaço de indiferença e abandono. Por ausência de acções políticas que articulem diferentes níveis de responsabilidade? O facto é que ninguém, a meu ver, está isento de erros, de inércia ou negligência, retardamento ou insensibilidade.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Torna-se indispensável proceder a um inventário criterioso das Casas existentes, definir com precisão o estatuto e o regime jurídico que lhes cabe, atenta a diversidade de situações, e estabelecer programas tendentes a vitalizá-las, seja no âmbito da fruição imediata, seja no da disponibilização de espólios e estímulo ao trabalho de pesquisa e criação, seja ainda em tudo o que respeita a protocolos de divulgação e interactividade. Mas, em algumas situações, impõe-se começar pelo mais urgente &#8211; o restauro e conservação dos bens, móveis e imóveis. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Decerto que não são comparáveis realidades como as Casas de Fernando Pessoa, Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro, José Régio, Vitorino Nemésio, Fernando Namora, ou, para ir atrás no tempo, Sá de Miranda, Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz. E, a par destas, numerosas outras. Daí a complexidade dos problemas a resolver. Complexidade, porém, não bloqueadora nem desinteressante. A circunstância de ter sido anunciado pelo Ministro Manuel Maria Carrilho um projecto de estudo e decisão, a curto prazo, das orientações a seguir, no diálogo com as entidades pertinentes, só pode merecer o meu aplauso e a melhor das expectativas.<br/>5.99 ?</P><P>E agora a guerra. É preciso erguer os olhos do chão, buscar de novo as palavras que são o clamor e recusa, que são a paz. Acrescentar qualquer coisa à terrível legenda de Dylan Thomas: &#8220;Rage, rage against the dying of the light&#8221;. Qualquer coisa. Em que mar de naufrágio encontrarei o meu escaler? Quando partir?<br/>30.3.99.</P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Chove. Não pára de chover. Sinto a garganta. E uma irritação de garoto em véspera de atirar pedras às próprias sombras.<br/>15.2.97</P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; c&#8217;est toi qui a les mots, pas moi. as palavras suspensas sobre o abismo, presas a uma viga que a todo o tempo poderá ceder, rendidas perante o voo de oiro de cada permuta, cada pátio por haver. se a viga cede? colheremos o orvalho e o lume no silêncio após a fractura, esse silêncio que preserva o indiscernível e a infinitude.<br/>19.2.97.</P><P>Romance inacabado &#8211; seis fragmentos</P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Pedra do Urso, rótulo numa garrafa de vinho. Interessou-me a metáfora em estado de possibilidade ou latência, uma metáfora justaposta ao topónimo, é certamente referencial a designação, e interessou-me a estória que espreita por detrás das palavras. A pedra onde o urso se enternecia, olhando a paisagem, à hora dos sinos? O fraguedo que abrigava a fera, a fera concreta ou o ícone em que um múltiplo se inscrevia, nos intervalos do terror? Que lendas e rimances, quantos tempos no tempo anónimo de gerações devoradas pela erosão e pelo esquecimento? Tomávamos chá com torradas e, por causa da constipação, comprimidos de paracetamol. Trazíamos no mais íntimo a crepitação e a elegia, um aroma de lilases ou anonas, como dizer o que no corpo nos transfigura e reinventa?, éramos ainda o que já ontem fôramos, a fábula do porco tinha encontrado uma outra, a do rapaz que se metamorfoseara em figos burros para vender na feira e generalizar a estupidez, tão raro uma leveza assim, a noite principiaria por entre adágios de beleza. Observava o perfil das casas na Almirante Reis, sabes que sempre vi a Almirante Reis como uma nervura saburrada na folha da cidade?, vou escrever de forma simples, uma avenida feiona e triste?, esmaecia a luz, já perto do Martim Moniz apareceriam os cães, tufos de gente, a nevrose do tráfego, seguíamos de mão dada e o mundo fazia-se de avenca e azul.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Anoto estas impressões enquanto aguardo a partida do avião. A sala quase vazia. Um cansaço bom, quase sonolência. Lassitude talvez. Tenho fome. Lembro-me da ternura de uma alusão tua às fomes que me devoram e movem. Sorrio. E é por dentro do sorriso que repouso no ombro que me dás. O ombro sereno onde marulham desejo e agasalho, fragmentos de epifania. </P><P align=center><STRONG>***</STRONG></P><P align=center><IMG src="./archive/jmmendes.jpg"></P><P>Gostarmos um do outro. Desnudarmo-nos ao sol da plenitude. Não apenas um diante do outro, dentro do outro. Também assim: cada um até ao mais íntimo de si mesmo. E numa tal fluidez de águas congraçadas inventar o azul que fica além do azul.</P><P align=center><STRONG>***</STRONG></P><P align=left>&nbsp;</P><P align=left><STRONG>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; </STRONG>fala-me a tua ausência em cada lugar hoje apagado, todos os lugares por onde os dias me levam ainda, resíduo e cinza, talvez escória e oclusão na cidade te reencontro e não tenho, na casa e nas ruas, naquele baloiço numa noite quente de luar, no fascínio do rosto com que me olhavas à hora múltipla de naufragar. olha, é outra vez o cão a que deste salsichas, a biblioteca do bairro e uma alfarrobeira mexicana por saber, a bica numa mesa em que acordo no teu gesto e no teu gesto me ilumino. volto ao silêncio da sala, música e quietude, ou então jogo e júbilo, maturação. e somos o que fomos, crianças no voo mais humano da perfeição. falta ao mês de julho a tua mão na minha mão, falta-lhe o que a memória desejaria doar à vida não refeita. e assim, lentamente, fica o barco no cais, as águas gelam, nenhuma árvore vem iniciar a primeira manhã do mundo.<br/></P><P align=center><STRONG>***</STRONG></P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Atravessa o jardim em direcção à porta de saída. O nevoeiro é agora uma espécie de sujidade da noite. Faz frio. Ouve o eco dos próprios passos enquanto caminha. E, de novo, a voz do médico: Yes, it is. A cancer, Doctor? Is it possible? Aí tem a cidade, os plátanos, o sossego das ruas. A luz dos candeeiros. Segue em direcção ao Tamisa, irá jantar?, é apenas uma sombra entre prédios que a invernia escureceu. Leva na mão um romance de Thomas Hardy, <EM>The Mayor of Casterbridge</EM>, e alguns discos, entre eles as <EM>Sinfonias on</EM> <EM>Ovid&#8217;s Metamorphoses</EM>, <EM>Nos. 1-3</EM>, de Dittersdorf, comprados, no início da tarde, em lojas do Soho. Vai só, eis chegados os dias de ir só até uma árvore, uma pedra, e gravar o avesso, a ausência. Pensa obsessivamente em Kafka. Porquê? Margaret, a enfermeira, trazia chocolates e ramículos de azevinho no bolso da bata. Os sinos tocavam ao longe, muito ao longe, depois dos telhados onde a chuva repousara.</P><P align=center><STRONG>***</STRONG></P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; procura a mesa na esplanada. aquela, ao fundo e à direita de quem entra, ao pé da vidraça. uma cadeira ficará vazia. é outra vez domingo, passará a tarde entre livros e rumores, nas margens do Sena, la peine est venue après la joie, et les jours s&#8217;en vont, pede peixe e água, escreve na toalha versos de Rilke e Breton, impressões da passagem pelo <EM>Chatelêt</EM>, onde uma noite viu Barbara em concerto. chove. olha a rua e o tempo da imperfeição, o rosto amado, esse rosto que lhe sorri desde a raiz de tudo, passam velhos e cães, um homem de bicicleta, papéis amarrotados que o vento move. tenta um fio de azul, um fio que não há. e volta àquele lugar do ocaso em Villejuif, árvores nuas além do pátio, um cheiro a éter e a rosas, o sósia de Jospin a dizer-lhe on doit jamais attendre le dernier mot. esperanças contrabandeadas na fronteira, ilusão e desespero frente a frente? está frio, acende um cigarro. escolhe o mesmo gelado de outrora, pistacho e baunilha. et un petit café, s&#8217;il vous plaît. não chamará um amigo, não visitará ninguém. até à hora do avião irá no encalço de uma luz afinal erradia, em debandada.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A cidade e o frio. Atravessamos as ruas num enlevo de véspera, na anulação das chatices do tráfego, um e outro entre maresias de agosto à claridade do azul. Tudo em nós se faz harmonia, desejo, cumplicidade. Partilhara contigo, durante o almoço, aquilo que penso sobre a crise do escritor em mim. De forma implacável. Quis que soubesses até que ponto tenho consciência do que se passa, onde levo o diagnóstico, quais as soluções ainda possíveis no limiar do abismo. Mais ou menos a concluir, descobri toda a leveza das palavras para, com verdade, te exprimir a raiz de uma determinação: &#8220;O puto, encostado às tábuas, com um pé a escorrer pela escarpa do precipício, talvez descubra a maneira de se safar.&#8221; Pela meia tarde, numa rede de júbilo e nostalgias, contei estórias dos anos de estúrdia numa outra cidade, comíamos biscoitos, mais precisamente: tu comias biscoitos e eu devorava-os (ah, as minhas fomes!) , enquanto a água para o chá aquecia na cafeteira, relatei episódios da infância a propósito de certas paixões equívocas que me prendem à geleia de marmelo, ouvi-te falar da tua rebeldia, já tão estuante de criatividade, nos dias da meninez, dias de imaginar o mundo maior e melhor do que deveras é, como se pôs minúsculo o mundo neste agora de uniformizações e subditanias, abraçámo-nos, fosse pelo que fosse imaginei uma praia, o mar odoroso, a brisa e o sal, algas, folhas de piteira, dunas, o abraço no cristal do génesis, rumor de origem e eternidade. Tenho agora diante dos olhos a lua imensa, sobe devagar no negrume que as torres de holofotes clarejam, vou conduzi-la a essa praia e pedir à noite que convoque os mastros dos navios, mastros e aves brancas, uma das paisagens a que sempre pedirei a rosa e o desatino, dou-te o poema entretanto a surgir, seu canto de alumbramento e sedução, de novo busco os teus braços e neles me renovo. Até amanhã. Agora preciso de partir. </P><P>11.3.97&nbsp; a&nbsp; 21.1. 00.</P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Eis um disco que dá gosto ouvir: <EM>Os Amores Libres</EM>, de Carlos Núñez. Já conhecia um pouco da sua música através da palavra de amigos galegos. Mais tarde, a Carla chamou-me a atenção para um momento singularmente belo da sua actuação em palco, algures, gravado pelas câmaras de um canal espanhol. Agora, este CD. Fico a pensar, enquanto de novo passa no meu leitor, naquela intervenção arrebatadora no funeral de Torrente Ballester. Tocando sobre o poema Negra Sombra, de Rosalía, Carlos Núñez transia-nos de beleza, dor e uma neve suavíssima de perdurabilidade. Devo-lhe o que então senti, inexprimível, e o que volta a proporcionar-me com este trabalho de uma nudez tão rara.<br/>29.6.99.</P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Serge Reggiani, na TV5, cantando <EM>Le petit garçon</EM>. Numa gala de celebração do cinema, com um garoto quase imóvel em cima do piano de Raymond Bernard. Não, não era Giorgio Cantarini, o pequeno actor de <EM>A Vida é Bela</EM>, embora compusesse uma figura que de certo modo o convocava. Era, isso sim, o interlocutor de uma fábula que não envelhece, faz parte do que aprendemos e doamos, attends, je sais des histoires, il fait un peu froid ce soir, elle n&#8217;est plus là, non, ne pleure pas. Interpretação cheia de força e sensibilidade, a emoção intacta. Mas as palavras, nas frases mais longas, já não surgem como outrora, abreviam-se, trepidam às vezes. E há, naturalmente, um pendor sobretudo recitativo onde víamos a extensão e a pletoricidade da voz. Interpõe-se a memória de um outro registo, ainda que este nos comova e suscite a admiração maior. Memória, acolhimento também, lugar do génio que continua e será, num qualquer amanhã, extinto lume? A efusividade e o enternecimento da plateia, quando se ouviram as notas finais, teriam areias assim, transidas de rios que não voltam, melancolia, sobressalto? Il pleut sur la maison, mon enfant, mon amour.<br/>22.1.99</P><P>tremer em toda a terra do ser. buscares em mim o mais recôndito e fazer explodir o astro que tão longamente silenciara. e ali por perto o sal de um oceano que era apenas memória e melodia.<br/>28.4.99</P><P>Réplica</P><P>O amor é como a água,<br/>queridos concidadãos;<br/>purifica e dissipa os gases nocivos.<br/>É como a poesia também<br/>e pelas mesmas razões.</P><P>O amor é um tesouro de tal modo valioso,<br/>queridos concidadãos, <br/>que, no vosso lugar,<br/>a sete chaves o guardaria &#8211; <br/>como o ar ou o Atlântico ou<br/>como a poesia!</P><P>William Carlos Williams<br/>(Tradução possível, ao calor da tempestade. Na <EM>Raidue</EM>, canta agora Paolo Conte: &#8220;E comincerà: la scimmia e la musica / che provano in due il passo invisible&#8221;.)<br/>12.5.98</P><P>Um livreiro, um amigo</P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Houve um tempo em que, para mim, o Porto era a ronda dos cinemas, o convívio dos amigos, certa inscrição do rio na página do nevoeiro ou nas crepitações da luz. E uma livraria, a Leitura, onde procurava o que dificilmente encontraria alhures, onde me detinha descobrindo a actualidade e bom critério das obras expostas, o mérito dos fundos editoriais acumulados nas prateleiras. Não falo apenas de um importante catálogo de títulos que a ditadura repelia. Nem das publicações, numa quadra posterior, mais atentas a um percurso de cidadania e intervenção. Refiro, de modo particular, a qualidade do que se nos oferecia em domínios tão diversos como a literatura e as ciências sociais, a filosofia e a história,&nbsp; as artes, o direito, o cinema. Impressionavam, com efeito, a vastidão e a novidade, a organização do acervo, a capacidade e prontidão de resposta a pedidos formulados. E o rigor de um ficheiro que, pouco a pouco, se foi tornando mítico.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Eu entrava, percorria as estantes com vagar, folheando e lendo, recolhido num silêncio de reflexão e prazer. De raro em raro, alguém perturbava esses instantes, um conhecido, um ocasional interpelante. No meio do bulício, construía um lugar de ilha, a sua música secreta, o seu voo suspenso. Ao cabo de uma hora, quase nunca menos do que uma hora, juntava os volumes escolhidos sobre o balcão e, antes de pagar, tinha em regra perguntas a fazer. Sóbrio, eficacíssimo, o livreiro respondia, eliminava dúvidas, formulava sugestões. Não permitiu que ficasse, uma só vez,&nbsp; à margem do desejo por concretizar. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Certa altura, recordo, achando-me impossibilitado de ir a Paris, um dos meus destinos de sempre, desafiei-o a conseguir, em tempo exíguo, &#8220;La question se pose&#8221;, autobiografia de um amigo dilecto que a outro gostaria de dar numa data de aniversário. Ambos sabíamos que não seria fácil satisfazer a pretensão. Por isso, à saída, com excesso de previdência e incredulidade, impaciência talvez, perdulário jeito, fui comprar os <EM>Poemas Sinfónicos</EM> de Dvorák numa loja ali perto. Só que, ainda agora não sei como, o livro chegou. Chegou cedo, a preço ajustado à revelia de qualquer especulação ou taxa de urgência. Eu deveria saber que era assim. Não acontecera, anos atrás, haver-me conseguido um &#8220;impossível&#8221; Gramsci, em edição inglesa, num tão rápido varar de dias que envergonharia decerto os actualíssimos <EM>book-sellers da Net</EM>?<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Acresce que a delicadeza e o saber do Fernando Fernandes, é dele que falo, a par do seu aprumo cívico, cultural e político, constituíam já uma legenda. Respeitava-o, admirava-o. Sem disfemismos de linguagem, de forma discreta. Senti amiúde que contraíramos para com ele uma dívida de gratidão. Assumo-a no que me respeita, escritor obscuro, leitor militante (diria Carlos de Oliveira). Assumo-a também enquanto Presidente da APE, seguro que estou da insubstituível acção de personalidades como a daquele que homenageamos. Como não posso partilhar a circunstância em que a celebração decorre, apraz-me pedir a José da Cruz Santos que por mim abrace o grande poeta da vida a quem tanto queremos, exprimindo-lhe, com plena sobriedade e emoção, o meu obrigado.<br/>3.11. 99</P><P>não como as aves</P><P>parte. não como as aves pelo inverno.<br/>olha para ti num degrau da escada. cai a cinza, <br/>súmula de cristais<br/>em desalinho. o telefone toca junto à porta.<br/>rosas te buscam numa outra<br/>areia,<br/>rosas que ele não leva no saco por tuas mãos<br/>trazido, gume e vala.<br/>tão frio o mundo enquanto desce,<br/>pedra de raízes correndo<br/>sob escombros.<br/>e o sol decepado, o rio a naufragar.<br/>põe a boina, toda a música emudece. Holst,<br/>por exemplo. ou talvez apenas o latido<br/>dos cães, a canção da ilha no mês<br/>de maio.<br/>Via de costas para o vento. aprende do dia<br/>em que a eternidade morreu,<br/>homem sem tempo nem lugar à margem<br/>do teu corpo.<br/>deixa-o partir. e atende o telefone. rosas te buscam, <br/>brancas rosas.<br/>1.99?</P><P>Soldados, castelos, moinhos de vento</P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A infância foi, para Fernando Namora, uma travessia de questionamentos e solitudes, descobertas, fascínios, desafiando a memória do adulto com o enunciado sempre mutante das suas ocorrências e imagens. Povoada de gente e sensações, momentos com a magia do augúrio, cenários nunca rasurados ou esbatidos. Assim, por exemplo, em <STRONG>Autobiografia</STRONG>: &#8220;Às vezes persiste só um odor: resinas, urze, o chamuscar do porco na bárbara matança ritual (...) Às vezes um som: o vento nas ramarias, os sinos perdidos na charneca, os estalidos da madeira do tecto, o estrondo no castanheiro do fundo do quintal naquela noite de raios e coriscos, o pior nocturno de uma ave.&#8221; E, do mesmo modo, como em numerosas páginas da sua bibliografia, uma tribo de lutadores pertinazes, os pais desde logo, tão diferentes entre si, de insubmissos e sonhadores, de artistas e boémios, pessoas percorridas pelo rio da melancolia ou capazes de acender a estrela onde ela faltasse e anular a treva. Sabemos os nomes: Padre-Boi, Joaquim Melâneo, Pedro Olaio, Mestre Paulo, João Lóio, a Ti Florinda (&#8220;ensinou-me romanços versejados, deu-me motes para a minha inventiva assim instigada&#8221;), e tantos, tantos mais. Artur Varela. E, depois,&nbsp; Manuel Filipe, Manuel Deniz Jacinto. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; São escassas as alusões a um périplo de folguedos, aos jogos, brigas e devaneios da idade. Porque o molde singular o afastou de uma vivência em tudo idêntica à dos companheiros, vaguendo, observando o quotidiano das porfias na &#8220;vila da repousada lembrança&#8221;, decorando livros e livros de poesia? Não exactamente. A verdade é sobretudo esta: preferiu, na linha de uma conduta que o distinguia, evocar aqueles a quem ficou devendo algo do que foi, apurando-lhes o perfil, exaltando-lhes os méritos. Por outro lado, decerto projectou em várias das figuras romanescas por si criadas expressões, lances, esperanças e logros, desditas, comportamentos que poderiam ter-lhe pertencido. O garoto de <STRONG>Casa da Malta</STRONG>, por exemplo, sagaz e prestimoso diante de uma emergência em que, de súbito, se fazia ouvir o medo e a epifania? Jènito, o <EM>rapaz do tambor</EM> em <STRONG>Cidade Solitária</STRONG>, cúmplice e determinado, capaz de um gesto que se increvia na matriz de quantos resistiram à tirania? Não, decerto, os miúdos e adolescentes deserdados que percorrem os lugares ficcionais dos <STRONG>Retalhos da Vida de Um Médico</STRONG>, lugares que permanecem como sendo a eloquência do real de que partiram para exprimir a desolação e o humanismo. Mas, de alguma forma, os próprios netos, protagonistas de <STRONG>Estamos no Vento</STRONG>, rebeldes e colhendo a erva do amanhã no trânsito das interrogações ou das ousadias.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; E, no entanto, é possível rastrear representações lúdicas da meninice na obra de Namora. Nesses anos primeiros, anos em regra austeros, não eufóricos, seja nas incursões biográficas, seja na construção de entidades imaginárias, surgem amiúde quadros marcados pela instância do desejo ou da deceptividade, da fantasia, do sobressalto, por um olhar socialmente vigilante e crítico. A notação do fruído ou do interdito por razões psicológicas não se dissocia daquela que, no poema <STRONG>Terra</STRONG>, põe o filho de Cassilda a &#8220;espantar as galinhas&#8221;, a &#8220;moer o Farrusca&#8221;, a &#8220;moer o Leão&#8221; e a apetecer, já bem dentro do sono, os &#8220;brinquedos bonitos&#8221; que são da ordem do impossível no contexto familiar. Brinquedos, quem sabe?, como os que Mestre Paulo, o carpinteiro, fabricava para o pequeno Fernando, escritor em devir, &#8220;soldados, castelos, moinhos de vento&#8221;, longe dos que esplendiam nas montras da cidade imensa. Ou tão-só uma máscara de papelão, o caçar moscas na vidraça, o &#8220;ir aparar com a boca / as gotas de chuva do beiral&#8221;, a &#8220;bola de futebol no largo da escola&#8221;, num horizonte percorrido por condeixenses e também pelo velho fogueteiro, a bruxa, os desprotegidos da sorte, os palhaços que traziam da lonjura o mistério e a folia, os sinos às trindades, os viandantes? <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O facto é que, para Fernando Namora, o universo infantil, com o que lhe é específico, recusa visões idealizadoras ou convencionais, busca a genuinidade dos contrastes, dirime-se entre a insciência e o processo cognitivo, a dor sem lastro e a cicatriz, o episódio volátil e a percepção identitária, a plenitude dos dias venturosos e a assombração. E essa evidência constitui-se como um repto à responsabilidade colectiva no sentido de proporcionar a cada criança uma maturação em liberdade, não constrangida pelo ferrete das injustiças, singularizada no engenho, na experimentação e nas mil aprendizagens da vida. Para que nunca irrompam aves perturbadas daquela pergunta, algures, num dos seus títulos de referência: &#8220;A bivó foi alguma vez menina?&#8221;<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; 17.4.00. <br/></P><P><IMG src="./archive/jmmendes1.jpg"></P>
<H3>"4 Poemas Inéditos"</H3><H4 align=right>por António Ramos Rosa (pp. 19-20)</H4><P>&nbsp;</P><P>Já não é tempo de<br/>e é este o tempo porque é sempre assim.<br/>Por breve que seja e obscuro o anúncio<br/>há que dar os passos necessários porque é tempo.</P><P>E assim faremos o que talvez não esperássemos<br/>e que esperávamos em inquieta expectativa.<br/>Quantas sequências tem o dia,<br/>quanto silêncio na imensidão da noite!</P><P>E para que são as palavras que se perdem<br/>no seu próprio som e na sua cor sempre excessiva?<br/>Se um sopro de calma confiança as reunir<br/>talvez o tempo seja a transparência de um instante<br/>e seja como nunca, fábula, sortilégio, musa.</P><P>&nbsp;</P><P><STRONG>.........................................................................................................</STRONG></P><P>&nbsp;</P><P>Louvar<br/>após o longo apagamento<br/>a tranquilidade dessa respiração harmoniosa<br/>que ilumina o ar e deixa eclodir<br/>o que se tinha recolhido no silêncio.</P><P><STRONG></STRONG>&nbsp;</P><P><STRONG>.........................................................................................................</STRONG></P><P>&nbsp;</P><P>Estaria se estivesse não estou porque não estou<br/>Nem um murmúrio branco da branca solidão da página<br/>Nem um murmúrio vermelho de algum grão de terra<br/>Do que é nulo e neutro o que poderá surgir?<br/>Deus que é Deus quando o nada prevalece?<br/>Uma prece ou súplica nunca poderá ser ouvida<br/>mas talvez uma prece suscite a possibilidade de um ingénuo impulso<br/>e a palavra possa surgir com uma imprevisível audácia<br/>Deus então será a penumbra vibrante<br/>por onde o poema flui em sinuosas voltas<br/>E se tiver a subtil simplicidade da água<br/>Poderá ser à transparência um peixe luminoso<br/>Que é a sua própria imagem deslizando em fugidia liberdade<br/>Quando por fim sentir que a sua sombra sorri<br/>É porque Deus passou como um peixe de sombra.</P><P>&nbsp;</P><P><STRONG>.........................................................................................................</STRONG></P><P>&nbsp;</P><P>Vem meu Deus com os ramos do sono entrelaçando-se<br/>e unindo-se como uma rosácea cada vez mais densa e fluída<br/>e perfumando o corpo com o seu odor de sombra<br/>e oferecendo o universo por dentro como uma amêndoa ou um diamante<br/>Vem com a tua violência suave com a tua felina lentidão<br/>e lavra o meu corpo com o teu sopro oceânico<br/>para que eu seja uma vogal do teu silêncio<br/>e beba a tua saliva para que o impossível seja real<br/>e eu reencontre a minha nudez contígua ao universo<br/>Vem que eu quero ouvir quero ver palpar cheirar<br/>O teu corpo de sombra oceânica e de leão vegetal<br/>para que não perca o ensejo de estar vivo<br/>e entre na dimensão da tua viva eternidade.</P>
<H3>"2 Sonetos Inéditos"</H3><H4 align=right>de Fernando Pinto do Amaral (pp. 22-23)</H4><P dir=ltr style="MARGIN-RIGHT: 0px" align=left><STRONG><EM>2 Sonetos Inéditos</EM></STRONG></P><P><STRONG>DOCAS</STRONG></P><P>Escoa-se o tempo em cristalina areia<br/>dia a dia, por entre os nossos dedos,<br/>arrastando pra longe alguns segredos<br/>diluídos na sombra de uma teia</P><P>cada vez mais anónima e alheia<br/>à noite que começa. Tarde ou cedo,<br/>é preciso aceitar, vencer o medo,<br/>olhar a multidão que saboreia</P><P>as horas, os minutos, os segundos<br/>à beira deste rio, em esplanadas<br/>onde todos parecem estar assim</P><P>desde sempre, à procura de outros mundos<br/>neste pequeno mundo e nos seus nadas,<br/>nesta vida pequena até ao fim.</P><P>&nbsp;<br/><STRONG>.........................................................................................................</STRONG></P><P>&nbsp;</P><P><STRONG>CONSELHO</STRONG></P><P>É preciso que escrevas um poema<br/>fiel à tua voz quando essa voz<br/>vier como o silêncio mais atroz<br/>da noite onde se afoga a tua pena;</P><P>e é preciso que a tua voz não tema<br/>nenhuma assombração, dessas que a sós<br/>pairam de vez em quando sobre nós<br/>e rasgam nesta vida o vão cinema</P><P>dos gestos mutilados e ausentes,<br/>farrapos de um contágio que mal sentes<br/>a abrir no céu a porta adormecida.</P><P>E é preciso que a sombra seja lida<br/>Como se nela a própria luz falasse<br/>E dissolvesse noutra a tua face.</P>
<h2>N.º 6 - Série 3 - Dezembro 2000</h2><p align="center"><a href="http://picasaweb.google.pt/lh/photo/-qvtXVvgVEyp_D65Kgv6hQ?feat=embedwebsite"><img src="http://lh4.ggpht.com/_1tggD33jlcU/SrnsP-cHSqI/AAAAAAAAARM/Wxsza7u4-6M/s800/mealibra_6_capa.jpg"></a><br/></p><ul><li><div align="left"><a href="/ccaminho/pt/?&amp;download=m6_sumario.pdf"><u>Sumário</u></a></div></li><li><div align="left">Das Literaturas - Inédito - <a href="/ccaminho/pt/?Edi%E7%F5es%3A_Mealibra/N.%BA_6_-_S%E9rie_3_-_Dezembro_2000/%22Assobio_na_Noite%22">"Assobio na Noite"</a>, por Lídia Jorge (pp. 11-17)</div></li><li><div align="left">Das Literaturas - Inédito - <a href="/ccaminho/pt/?Edi%E7%F5es%3A_Mealibra/N.%BA_6_-_S%E9rie_3_-_Dezembro_2000/%22O_La%E7o%22">"O Laço"</a>, por Rosa Lobato de Faria (pp. 19-20)</div></li><li><div align="left">Das Literaturas - Poesia - Inéditos - <a href="/ccaminho/pt/?Edi%E7%F5es%3A_Mealibra/N.%BA_6_-_S%E9rie_3_-_Dezembro_2000/Poesia_In%E9dita_de_Manuel_Ant%F3nio_Pina">"Partida"</a> e <a href="/ccaminho/pt/?Edi%E7%F5es%3A_Mealibra/N.%BA_6_-_S%E9rie_3_-_Dezembro_2000/Poesia_In%E9dita_de_Manuel_Ant%F3nio_Pina">"Quinquagésimo Ano"</a>, de Manuel António Pina (pp. 70-71)</div></li></ul>
<H3>"Assobio na Noite"</H3><H4 align=right>de Lídia Jorge (pp. 11-17)</H4><P><STRONG><EM>(Ficção)</EM></STRONG>&nbsp;</P><P>&nbsp;</P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A interpretação dos sonhos deveria merecer com mais frequência o crivo da ironia. Só assim se poderia compreender o Prof. Reinaldo Mateus se tivesse visitado a si mesmo, munido duma faca brilhante, afastando com ela os cortinados de seda.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Encontrava-se deitado ao lado da sua mulher, separado do exterior apenas por esses tecidos finos, e mesmo suspenso entre a memória e o sono, sabia estar ocupando um dos ângulos mais avançados do Hotel Amplexor. Como o próprio nome sugeria, esse hotel fora construído em forma de ferradura sobre uma língua de areia, e por isso a sua estrutura projectava dia e noite um pedaço de sombra branca pela praia dentro como se uma parte da sua matéria desejasse galgar uma onda. </P><P align=center><IMG src="./archive/lidia1.jpg"></P><P>Também convirá saber, ainda que não seja demasiado necessário, que o hotel era o quinto de uma fila contínua de muitos outros, e que estava separado das zonas de rebentação apenas pela primitiva estrada marginal. O renque de palmeiras que o ladeavam, também elas dispostas em forma de ferradura, parecia de plantio recente e as folhas, apesar de exuberantes, nem sequer atingiam a altura das primeiras janelas. Perto dos hotéis ainda se encontravam restos de barcos velhos, vários vestígios de bens arcaicos por remover, juncos e canaviais partidos, e era entre esses destroços duma vegetação selvagem que se erguiam as cabines telefónicas em forma de caixa de vidro. Aliás, outrora, a zona deveria ter apresentado uma morfologia bastante diferente, já que a superfície da praia era contida no leito à custa de espigões de pedra, e o enfiamento de certos acidentes desaparecidos havia emprestado àquele troço da costa o nome de Dunas Machas. A alguma distância, o corpo do Casino, emerso da vegetação rasa, quando a noite chegava, iluminava-se de luzes vermelhas.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mas esses aspectos, que o Prof. Reinaldo Mateus mal registava, constituíam uma decoração imperfeita como outra qualquer, não tinham nada a ver com o seu sonho de Verão. O professor conhecia o lado irónico dos sonhos, o traço de fanfarronice que caracteriza esses acontecimentos furiosos do ser, o desejo extraordinário de brilho próprio neles patente, mesmo quando a cavalgada aparece disfarçada pelo terror e pela desconjunção. Ele mesmo havia defendido essa tese, ainda que de forma difusa, ao longo de oito livros decisivos sobre a interpretação da Arte. Por isso, sabia muito bem por que razão aquela faca não era uma faca qualquer. Ela continha, gravada na sua lâmina, uma inscrição perigosa &#8211; <EM>&#8220;Onde não há esperança, não há medo&#8221;</EM>. Sabia, além do mais, como esse seria um lema incómodo para alguém que desejasse viver minimamente tranquilo.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Contudo, no seu sonho, o professor não via essa inscrição, não a lia, tinha a certeza que estava lá, por um saber anterior aos sonhos, e porque ele próprio era um homem vigilante sobre si mesmo. Ou melhor, sabia muito bem, no meio da sua noite, quer estivesse a dormir no apartamento em Flummery Square, London W1, quer se encontrasse num quarto de hotel, no sul do seu país, que o objecto gravado que manuseava era a terrível navalha de Michelangelo Merisi, o dito Caravaggio. Na verdade, desde que havia escrito sobre o pintor lombardo &#8211; fora matéria&nbsp; do seu quinto livro &#8211; e concluíra que todos os outros, depois da sua passagem, se tinham limitado a ser réplicas daquele terramoto, a faca do pintor fazia parte do sonho recorrente em que ele abria cortinas e ficava olhando para uma mulher virgem, ao mesmo tempo acordada e dormindo, como uma fruta caída no meio de uma cama. E no entanto, sabia também que não poderia usar essa navalha na própria vida, porque esse lema que havia levado o seu dono ao mais formoso contraste entre a luz e a sombra, também o levara à fúria, à dissolução e à morte. O professor era um destes homens inquietos que nascem em harmonia com uma parte substancial do mundo e por nada desejam ficar apartados dela. Assim ele sonhava e não sonhava com essa lâmina, pois ao invés do que o seu lema defendia, ele desejava ter medo para poder ter esperança. Ao contrário de Michelangelo Merisi, ele queria caminhar suave pela vida, com um leve tremor de medo, conduzindo-lhe o coração.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Então, precisamente, o seu coração bateu mais forte. A sua mulher dormia e o Prof. Reinaldo Mateus ouvia a respiração dela como o contraponto necessário do ruído criado pelas ondas do mar. Duas chamadas diferentes, duas realidades opostas, excitando-lhe a vaga do medo. Enquanto a respiração da mulher, sobre a almofada, lhe dizia &#8211; <U>Não te movas, não te movas,</U> as ondas invisíveis, batendo na praia antes da madrugada romper, instigavam-no para diante &#8211; Corre rápido, corre rápido, corre rápido. Duas chamadas, duas vozes distintas e contraditórias, proferidas ao mesmo tempo. Ouvindo-as, o professor, com os olhos abertos fixados no tecto baixo do quarto, pensou no passado, quando a sua mobilidade era aceitável, e concebeu um plano. Concebeu-o metodicamente, como se projectasse um livro. Então seria assim &#8211; Primeiro, desceria com a sua mulher e esquecer-se-ia de comprar os jornais. Depois tomaria o pequeno-almoço decentemente, e enquanto a sua mulher subisse ao quarto a fim de se munir dos seus objectos de mar, ele iria permanecer no hall sob o pretexto de comprar aquilo de que se tinha esquecido. Em seguida dirigir-se-ia ao balcão da portaria para poder formular três perguntas, três. A saber &#8211; Como se chamavam os hóspedes do 504, até quando tinham reserva marcada, e finalmente como se chamava ela. Só então se encaminharia para a montra dos jornais e iria ao encontro da mulher. Mas naturalmente que, nesse instante, já existiria um nome para a pessoa que o agitava daquele modo, já estaria de posse do nome dela. Por alguma coisa tinha sonhado com aquela faca.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Sim, nada melhor do que um plano bem elaborado durante uma insónia da madrugada. &#8211; Passadas três horas após a elaboração do plano. Ali estava ele, esperando que a mulher no elevador, conduzindo-a para dentro da cabine espelhada, vendo as portas correrem, trancarem-se e fecharem-se, para em seguida se dirigir ao balcão da portaria. Atrás do balcão havia dois recepcionistas. Um deles era alto e magro, nariz fino, riso fácil. O professor já o notara dias antes, tendo pensado no seu concurso, que havia suposto discreto e delicado. O outro, pelo contrário, era baixo, atarracado, de sobrancelhas negras muito juntas, formando um só arco, e sob essa sombra pesada, uns olhos escuros, imóveis. O professor quereria ter sido atendido pelo primeiro, mas no momento em que se dirigia na sua direcção o recepcionista espigado desaparecia na porta do fundo, decifrando os dados comerciais duma folha branca. Ficou o segundo.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O prof. Reinaldo Mateus ainda hesitou. Teve receio de entregar as três perguntas àquela pessoa intransitiva e baça, àquele jovem pequeno de olhos parados, que no entanto já vinha colocar-se na sua frente com uma mobilidade de corpo que não condizia com a paralisia da face. Mas não teve dúvida de que se encontrava nas mãos duma pessoa eficiente, quando num abrir e fechar de olhos o rapaz lhe disse o que desejava ouvir. &#8211; Que a família em questão tinha o apelido de Gonçalves, que mantinham reserva para mais dois dias, e que a senhora, aquela senhora por quem ele se interessava, se chamava Miriam. Na verdade, estava em mãos responsáveis. &#8220;Miriam...&#8221; &#8211; repetiu o professor, com o coração a bater descompassado, diante dos olhos parados do rapaz curto, mediterrânico, fechado como o seu colega dentro dum fato escuro. &#8220;Senhora Dona Miriam&#8221; &#8211; repetiu o rapaz. &#8220;Miriam...&#8221; &#8211; repetiu o professor. Então o professor, movido por uma gratidão extraordinária, e suspeitando que o rapaz o tinha compreendido, levou a mão ao bolso e, sem olhar, entregou-lhe uma nota de mil. Só depois se dirigiu à montra dos jornais. Quando a mulher desceu, o medo e a esperança, entrelaçados um no outro, tinham feito o seu labor &#8211; Ele encontrava-se em pé, sobraçando dois diários estrangeiros e dois nacionais, e ainda pôde dizer &#8211; &#8220;Demoraste&#8221;. E a sua mulher respondeu &#8211; &#8220;Foi só um instante&#8221;. Miriam, Miriam, pensou ele. &#8211; Como não lhe tinha passado pela ideia? Era isso, ela tinha sido sua aluna. E agora ali estava.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ali estava. E se a pessoa do professor fosse indiferente a Miriam, naturalmente que ela não fingiria indiferença quando se encontrava entre o marido e os filhos. Depois de se cruzarem, porém, ela costumava voltar-se, envolvendo-o com o olhar. Ela ficava a vê-lo, a ele, como ele olhava para ela, reconhecendo-se, formando linhas tangentes e secantes que iam convergir num ponto único, num local dourado, um espaço tocante de entendimento. Então, naquele dia, o professor não se despiria , nem iria até ao mar. Ficaria vestido, lendo os jornais, à sombra do caniço, tomando um chá fresco. A sua mulher desceria com as vizinhas da Flummery Square, que por acaso tinha vindo encontrar ali para grande alegria sua. Desceria com aquelas mulheres que contavam, com voz semelhante à da Rainha Filha, como tinham sido boas as férias passadas, dois anos atrás, numa das ilhas Fidji. Acompanhadas, de vez em quando, por aqueles dois homens que liam o <EM>Financial Times</EM>, com a altivez de Lord Nelson brandindo a espada com seu único braço. Ele, porém, não os desprezava por isso, mas por pertencerem àquela tribo vasta no mundo, que julga que Vermeer é o nome duma família de vermes ou quanto muito duns aracnídeos. Então ele ficaria ali, no meio da areia, ficaria recuado&nbsp; no bar de caniço para pensar em Miriam.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Sim, era exactamente&nbsp; pelas onze horas que o marido dela costumava dar lições de natação às crianças, e os três desciam sem ela, sem Miriam. A paisagem marítima era vasta, cheia de veraneantes, o céu amplo e quente, o mar raso, tão amplo quanto o céu, e faltava Miriam. A praia não tinha Miriam. Também por essa altura as senhoras de Flummery Square entravam no mar, e a sua própria mulher tinha o bom gosto de entrar na água naturalmente. Mas uma daquelas senhoras usava uma boina de nadar amarela, protegida por uma espécie de malmequeres carnudos. De longe ele via onde se encontrava a tribo feminina da Flummery Square, através daquela espécie de bóia amarela que flutuava na cabeça duma pessoa. Através desse marco de vizinhança, ele controlava as entradas e as saídas da sua mulher. Assim, o professor naquele dia ficaria a ler os jornais, até ao momento em que a vida estivesse no ponto exacto do seu zénite &#8211; Os rapazes lá estavam a nadar com o pai, a sua mulher lá estava saltando na água com os braços levantados, e além estavam as duas cabines de telefone, em forma de caixas de vidro. Com passos leves, dirigiu-se para uma delas, cheio de esperança.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Medo e esperança, pensou abrindo a porta de vidro, entalada entre as ervas. Muito medo e muita esperança. Com o dedo afoito, discou o número do hotel, pediu o 504. Esperou. Ouviu a música. A música do hotel terminou e a seguir disseram-lhe que não se encontrava ninguém. O professor saiu da caixa de vidro, olhou em redor, viu o mar na sua calmaria, as cabeças entre as parcas ondas, no seu lugar, os braços levantados, as bóias, tudo no seu lugar, e descendo pela areia, sem ruído, nas suas sandálias finas, percebeu que esse homem com apelido de Gonçalves continuava a nadar entre as suas crianças. Tudo estava bem, no auge do equilíbrio, no zénite. Sentiu o seu medo no zénite também, no zénite a sua nova esperança. Sobraçando os quatro jornais já desconjuntados, atravessou a marginal esburacada e dirigiu-se para o Hotel Amplexor.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Talvez ela, que não se encontrava no quarto, estivesse no hall ou no bar. E nesse caso o que faria? &#8211; Olhá-la-ia de frente, esperaria pelo seu bater de pestanas, ou o seu movimento de lábios, o seu sinal de assentimento, e depois, depois, falaria com ela. Falaria com Miriam. Uma antiga aluna que a vida tinha trazido ao seu encontro, num hotel em forma de ferradura. Com o coração a bater descompassado, o professor ultrapassou a porta giratória e entrou. Mas o grande hall estava deserto e o rapaz curto, de olhar inexpressivo, caminhando rápido, como se a parte de baixo não condissesse com a de cima, veio na sua direcção. Muito rápido, ao contrário do movimento dos olhos que não era nenhum, ou pelo menos, se era algum, o professor não o distinguia. Veio e disse &#8211; &#8220;A Senhora Dona Miriam desceu à praia agora mesmo&#8221;. Disse-lhe baixo, com uma voz sem inflexão, como a sua cara. Então o professor percebeu que aquele rapaz inexpressivo tinha entrado definitivamente na sua vida. &#8220;Muito obrigado...&#8221;- respondeu. E levando a mão ao bolso da carteira, entregou-lhe uma nota de mil. Tinha de voltar à praia.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mas os pensamentos dum homem, mesmo com a elevação do Prof. Reinaldo Mateus, não caminham sempre à mesma altura, como ele mesmo quereria, porque o pensamento não é apenas um corpo de asas, tem suas garras enfiadas na terra. Por isso o professor parou para se questionar &#8211; &#8220;Terei dado mil escudos&nbsp; ao rapaz da recepção?&#8221; Já ia a caminho do bar de caniço donde ficaria a ver Miriam, entre o marido e os filhos, e ainda pensou &#8211; &#8220;Espera, enganei-me. Dei cinco mil escudos ao rapaz...&#8221; &#8211; disse para si, apalpando-se, parado, a caminho do bar de caniço. &#8211; Convém acrescentar que, por essa altura, com mil escudos ainda se comprava uma boa garrafa de whisky. Por conseguinte, por seis mil escudos &#8211; era quanto naquele dia já dera ao rapaz inexpressivo &#8211; poder-se-ia comprar seis boas garrafas de whisky. Mas como o professor não bebia, fez umas contas diferentes. Com aquele dinheiro, era possível adquirir um dos seus oito livros, todos com uma excelente bibliografia e profusamente ilustrados. E o professor recomeçou a caminhar. &#8211; &#8220;Miriam?&#8221;<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Não, pensando bem, não se importava &#8211; Tinha reconhecido na pessoa dela uma antiga aluna, a Miriam, e a partir de agora saberia em que lugar preciso poderia encontrá-la, graças a ele, ao rapaz inexpressivo. O que eram quatro mil escudos de prejuízo? E então, começou a enxergar e viu, ao longe, o que lhe pareceu ser a silhueta de Miriam, entre o marido e os filhos. Marido e Mulher, ao fundo, de costas para o refúgio de caniço, ambos de rosto para a ondulação rasa do mar. Os filhos rapazes entrando e saindo, saltando. Ele não ouvia&nbsp; os seus gritos de alegria, mas imaginava-os, colava-lhes as vozes dos outros rapazes que passavam rente à sua cadeira de praia, gritando. E ela. Ela. O coração do professor, tremendo, sob a camisa de linho, que não despia, à espera, não sabia de quê. À espera dos olhos dela. Sim, os olhos dela ali vinham. Entre o marido e os filhos, caminhando, pela senda de tábuas que unia a orla molhada à areia seca, passava junto ao bar de caniço e findava na estrada marginal primitiva. Ela ficou atrás do marido e das crianças, eles passaram, ela olhou para o professor. Ele viu. Atrás deles, ela acenou com o olhar, rindo, ou melhor, sorrindo, pensou o professor. Ele curvou a cabeça, voltando-se, vendo-os afastarem-se, até que os quatro se misturaram com os outros hóspedes que àquela hora entravam pela porta giratória do Hotel Amplexor. &#8211; Sentado na cadeira, entre as ervas e o mar, o professor sentiu a maior esperança e o maior medo do mundo.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O maior medo do mundo, pensou, de tarde, ao encaminhar-se&nbsp; para a recepção, na hora do grande calor. Porque os seus pés voavam, o seu coração arrebatava-o para fora daquela teia de vidros altos e paredes brancas onde os dois estavam prisioneiros, agora que tinha a certeza de que ele e ela, aluna e professor, entendendo-se através do mutismo, do olhar e da precaução, estavam perto um do outro, no meio de todos os outros. Muito, muito medo. A mulher disse-lhe &#8211; &#8220;Porque não dormes a sesta? Fazia-te tão bem. Devias dormir em vez de estudares os jornais, para nada...&#8221; Ele respondeu-lhe &#8211; &#8220;Vou descer para comprar uma revista&#8221;. &#8220;outra revista?&#8221; &#8211; perguntou a mulher. &#8220;Se esperares por mim, eu vou também...&#8221;<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mas não, a sua mulher não se levantou. Estava cansada do mar, da batida da água, do almoço, da luz intensa da praia. Não iria vê-lo comprar a revista, apenas recomendou &#8211; &#8220;Toma cuidado, não te enganes, não tomes a direita, segue pela esquerda até ao elevador, senão perdes-te e vais ter ao outro lado deste labirinto...?<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &#8220;Sim, eu sei&#8221; &#8211; disse o professor.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; E saiu para o corredor como quem sai para uma planície, caminhando rápido pela alcatifa fora, sem olhar para trás, para descer e obter notícias dela. De Miriam. &#8211; Lá estava ele, a fonte da sua informação, o rapaz apertado no fato escuro. Mas o que poderia perguntar? Completamente entregue ao acaso, sem plano nenhum, o professor ficou diante do rapaz inexpressivo, à espera. O rapaz, com a cabeça em baixo, com as mãos móveis, o corpo móvel, mas os olhos parados como uma esfinge, ali estava a olhá-lo. O coração do professor encontrava-se perplexo de si mesmo, da sua própria figura. Sabia, contudo, que se ele não lhe dissesse nada seria porque nada tinha para lhe dizer. E então o rapaz atarracado confirmou a sua suspeita &#8211; &#8220;Por enquanto não há nada&#8221;. Não há nada, concluiu o professor. Mas não fazia mal. Ao ouvi-lo, não estava só com a sua inesperada paixão, porque a voz do rapaz unia-o a ela. Sem saber muito bem o que fazer, comprou a revista, e antes de subir, acercou-se do balcão e gratificou-o de novo. Ficar a saber que não se sabia de nada sobre Miriam, valia muitas vezes mais do que a nota de mil escudos que de novo lhe colocava no côncavo da mão. Significava que entre ele e Miriam havia um aliado seguro.</P><P align=center><IMG src="./archive/lidia2.jpg"></P><P><br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ali estava, pois, tinha um aliado vigilante e seguro. Talvez aquele aliado fosse capaz de lhe dizer a hora exacta em que ela se encontrava no hall. Talvez a hora em que saísse só, talvez o momento em que reentrasse no quarto. E a sua imaginação voava, entre o hall branco, a areia fina e a penumbra do quarto. Do quarto voava para o grande mar, um cruzeiro no mar, um enorme navio, mas onde os camarotes seriam pequenos e íntimos. Aí, talvez ela referisse detalhes do passado. O professor fazia um esforço para se lembrar do passado, como e quando ela tinha sido sua aluna, em que circunstâncias, em que anfiteatro, imaginava as letras das provas, atribuía-lhe uma caligrafia, um rosto mais jovem, e como tudo era uma nebulosa, ele erguia a nebulosa como território de eleição rasgado pela figura tangível do presente. Se a encontrasse cara a cara &#8211; por vezes seria no quarto escuro, durante um minuto só que fosse, cheio de medo e esperança &#8211; ele dir-lhe-ia que assim, com os seus dois meninos rapazes, ela lhe lembrava &#8220;A virgem, o Menino e Santa Ana&#8221;. Imaginava que lhe dizia. E para que ela se lembrasse dessa imagem, mais que não fosse das antigas aulas, haveria de acrescentar, em jeito de fantasia, que ele mesmo gostaria de afastar com a ponta da sua própria sandália a cabeça daquela víbora, a imagem do mal, para só existir, em torno dela e dos seus meninos, a imagem do bem. Por certo ela se lembraria das suas lições, do amor que ele nutria por aquele quadro, também conhecido por &#8220;Madona dos Palafreneiros&#8221;, e a devoção que dedicava ao seu autor, Caravaggio. Haveria de lhe dizer, antes que lhe estendesse os braços. Haveria, sim, uma vez que tinha aquele aliado, lá em baixo, no rés-do-chão, observando, vigiando por ele. E os seus pensamentos eram longos, demorados, porque demasiado altos, e por conseguinte as suas palavras não podiam deixar de ser breves. Assim, quando desceu para jantar, ao atravessar o hall, apenas disse a sua mulher &#8211; &#8220;Vou ali&#8221;.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ela aconselhou-o &#8211; &#8220;Então vai devagar&#8221;.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Caminhando rápido, o professor dirigiu-se ao balcão, e o rapaz inexpressivo ainda lhe pôde dizer &#8211; &#8220;Saíram. Devem voltar tarde&#8221;. Mas nesse instante, a mulher já se encontrava junto dele. O professor ficou sem palavras, perdido de fúria e desespero, e ali mesmo perdeu a paciência, durante um segundo, sem medo e sem esperança, como o lema gravado na faca, por sentir que naquela noite não iria ver Miriam, e saber que o tempo escoava, e que nem uma palavra poderia trocar com ela, sem que fosse vigiado, e por isso, disse em voz alta, muito mais alta do que seria permitido a um professor que já publicou oito livros de referência, que só lhe apetecia subir ao quarto, arrumar a sua bagagem e partir. Disse, voltando as costas, em frente do rapaz inexpressivo, que os olhava como se fossem duas moscas zumbindo, no meio do hall branco. &#8220;Eu nem deveria querer jantar, nem deveria...&#8221; &#8211; disse o professor, encaminhando-se para o restaurante onde já lá se encontravam as duas senhoras de Flummery Square, muito inglesas, a que se juntavam os maridos tão ingleses quanto elas. &#8220;Pois muito bem&#8221; &#8211; disse ele. &#8220;Mal jante, tu ficas e eu vou-me deitar&#8221;.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; E a sua mulher começou a falar em voz baixa, com as senhoras de Flummery Square. Entre aquelas falas, meio polidas meio displicentes, finas gargalhadas próprias de um jantar de Verão, uma delas dizia que se o professor não conseguia dormir, que pedisse na copa um bom chá de salsa. <EM>Parsley</EM> &#8211; Ouvia ele distintamente. A outra aconselhava &#8211; &#8220;Se não consegue sossegar, faça-lhe um chá de alface..&#8221; &#8211; <EM>Lettuce</EM> &#8211; Escutava o Professor, incapaz de entabular conversa. &#8220;Vou-me deitar&#8221; &#8211; disse ele. E a mulher ia levantar-se também, mas uma das senhoras de Flummery Square, a que usava a touca de malmequeres carnudos quando ia para a água, prendeu-lhe o braço e bastante divertida falou-lhe ao ouvido. As três uniram-se para rirem desabridamente. As três a rirem. As três. Fosse como fosse, um bom Deus devia guiar a mão e o espírito da senhora da touca, pensaria o professor um minuto depois das gargalhadas. &#8211; Pois ao aproximar-se do elevador, havia um grupo de hóspedes à espera para subir. O elevador demorava a descer. Desceu, abriu-se e do fundo espelhado saíram Miriam, o marido com apelido de Gonçalves e os dois filhos pequenos. E ela escolheu a pessoa do professor entre todos os do grupo que esperavam e sorriu. Ela era a primeira entre os quatro que saíram, e nem por um segundo alterou a direcção da cabeça, mas os olhos fecharam-se um pouco, os lábios abriram-se, como pela manhã sobre a passadeira de tábuas, e ele teve a certeza de que ela, nesse abrir e fechar de lábios, tinha pronunciado três palavras &#8211; <EM>&#8220;Boa-noite, professor&#8221;</EM>. Iam Jantar. &#8211; O professor gostaria de voltar a trás, mas não podia. O professor não tomou o elevador. Não se moveu. Ficou ali. O seu vigilante tinha-o enganado. Ou então eles haviam mudado de planos. Acaso poderia o seu vigilante adivinhar tudo, incluindo a mudança de planos que ocorre subitamente no seio dum casal? Não seria pedir demasiado a um recepcionista vigilante? Fosse como fosse, tinha valido a pena.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Então a manhã seguinte seria a última, o banho de mar seria o último, a hipótese de a ver ao longe seria a derradeira, derradeira a última noite. Se durante aquele dia não se encontrasse com Miriam, só a teria visto, nada saberia dela, nem o local onde vivia, nem a que trabalho se dedicava, nem sequer ficaria com o telefone para lhe ouvir a voz de vez em quando. Ter-se-iam cruzado por engano, para nada. A noite anterior teria sido a última vez que a teria visto. A última. O seu maior receio seria de que o rapaz inexpressivo não estivesse, lhe faltasse. Ele era a última ponte, a boca inexpressiva por onde saía a voz do seu próprio assobio. E esperou, andou vagueando entre o hall e a areia, as ervas e as caixas de vidro, por vezes com a mulher por perto, a perguntar o que tens, sentes-te mal, sentes-te bem, porque não dormes, não te sentas, não sossegas, queres alguma coisa, alguma tisana, algum comprimido, algum chá, atrás dele, sempre rente a ele, até que de novo chegou a hora de jantar, sem voltar a ver Miriam. Atrás do balcão, o recepcionista atarracado olhava para baixo, ocultava o olhar inexpressivo sob as pálpebras, concentrado no labor das suas mãos escondidas. Era como se dissesse &#8211; Não posso fazer nada. Não tenho nada para lhe dizer. Ou então, vão sair, já saíram, não a verá mais. Alguma coisa que significasse uma perda para sempre, ele queria dizer-lhe. E quando subiram ao quarto, depois do jantar, a mulher disse-lhe &#8211; &#8220;Estive a pensar e acho que deveríamos ir embora. Penso que te sentes mal...&#8221; E assim era.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O Prof. Reinaldo Mateus não sabia se valia a pena ter experimentado medo e esperança. O que sentia agora era alguma coisa semelhante a desgraça e desalento. &#8220;Deveríamos...&#8221; &#8211; disse ela. E metodicamente, a sua mulher começou a despir-se. A mulher demorava no quarto de banho, limpava-se, escovava-se, massajava-se, preparava-se para a sua noite, esse espaço reparador do resto da sua beleza. E ele esperava, não sabia porque esperava, mas esperava. Ainda vestido, com um jornal português aberto à largura do seu corpo, lia letras sentado entre os cortinados abertos, diante do mar, onde as luzes do hotel iam bater, perdendo-se. O escuro da noite em frente. O escuro para onde ele quereria atirar um assobio-quadrado, próprio do salteador e do amante. Porque haveria de se entregar à noite? Deixar esmorecer assim o seu desafio? Esperou. Fez bem esperar &#8211; O telefone tocou devagar, a campainha no registo mínimo, o som duma borboleta eléctrica zumbindo, ele atendeu. Da recepção a voz inexpressiva disse &#8220;A senhora está lá fora, na rua, à sua espera&#8221;. Pousou o auscultador. Quando o pousou, o coração do professor uniu-se no meio do peito, e em seguida alargou-se até aos confins da noite. Respirou fundo, como antigamente. Era isso, então ia descer. Percebendo que ele se preparava para sair, a mulher apareceu no meio do quarto, e ele julgou que ela ia dizer &#8211; <EM>Eu vou também</EM>. E nesse caso, ele teria de lhe responder &#8211; <EM>Como queiras</EM>. E sairia. Mas a sua mulher disse-lhe &#8211; &#8220;Estás a falar sozinho, como antigamente&#8221;. O professor não podia parar e começou a dirigir-se para a porta. Ela ainda lhe disse &#8211; &#8220;Escuta bem. Tenho aprendido demais com as senhoras da Flummery Square. Chegou a minha vez. Se vais sair sem mim, e te perderes, não serei eu quem te irá buscar...?<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; E ainda &#8211; &#8220;Não, não serei eu.&#8221;<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &#8220;Também não te estou a pedir nada&#8221; &#8211; disse ele, sem a ouvir, pensando em Miriam, no atraso que aquela troca de palavras poderia significar em relação a Miriam. E encaminhou-se definitivamente para a porta.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A sua mulher ficava em camisa de noite, com o cabelo enrolado, de costas para a porta que ele abria e logo fechava. O que sabia ela da sua vida? Continuaria a adivinhar o seu pensamento como antes? &#8211; Não queria pensar, não era a hora de pensar. Rapidamente, o elevador colocou-o no hall. O rapaz inexpressivo atendia novos hóspedes ao balcão. Ele aproximou-se, com o coração a bater descompassado, sem medir qualquer distância nem consequência. Ultrapassou aquelas pessoas que chegavam. O rapaz disse-lhe &#8211; &#8220;Está na rua, tem um vestido branco.&#8221;.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &#8220;Tem um vestido branco, está na rua&#8221; &#8211; repetiu o professor, limpando o suor da testa, deixando-se levar pela porta giratória e saindo para a rua. &#8220;Está na rua...&#8221; &#8211; disse para si. &#8220;Tem um vestido branco&#8221; &#8211; Era fácil de ver um vestido branco. Na rua, havia o grande escuro da rua, a vegetação selvagem, as caixas de vidro ao lado do hotel, a velha estrada por onde caminhava um vestido branco. &#8220;Miriam!&#8221; &#8211; disse ele. Ali estava ela. Era preciso andar rápido atrás de Miriam, alcançá-la. Só Deus saberia pelo que teria passado Miriam para se encontrar sozinha a caminhar, àquela hora, por uma estrada. Um milagre. Tinha imaginado um encontro de vários modos, e em vários sítios, mas não aquele. Ultrapassava-o a forma como o encontro estava a acontecer, e encaminhando-se para ela, andando atrás dela, sem parar. Aliás, Miriam caminhava à sua frente, sem pressa, ele é que andava devagar. Por certo esperava-o. Esperava-o caminhando adiante, sem se voltar, como deve caminhar a mulher. Até que ele chamou &#8211; &#8220;Miriam, espere por mim!&#8221; Miriam, porém, não o deveria ter ouvido. Talvez o professor falasse baixo de mais, ou nem mesmo falasse e julgasse que sim, à medida que colocava os pés no chão de asfalto e areia, demasiado devagar para o vagar de Miriam. Um táxi parou junto de Miriam, Miriam entrou. O professor tentou correr atrás do carro que levava Miriam, mas apesar da baixa velocidade a que seguia cada vez o carro se afastava mais. O coração batia nas suas fontes. &#8220;Miriam?&#8221; &#8211; Nesse momento, o professor virou-se na direcção do hotel, e viu vir, avançando pela estrada adiante um novo táxi iluminado. De súbito, o hotel fixo, em forma de ferradura, onde ficavam a mulher dele e o marido dela, pareceu-lhe um imóvel ameaçador. Era preciso tomar aquele táxi e seguir Miriam que se dirigia para algum recinto especial onde Miriam premeditara encontrar-se com ele. Pensava o professor, com o rosto colocado entre os bancos, dirigindo com a força do olhar os movimentos do táxi, atrás do outro táxi. &#8220;Para onde se dirigirá aquele táxi?&#8221; &#8211; perguntou o professor, seguindo o percurso proposto por Miriam.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &#8220;Para onde?&#8221; &#8211; disse o taxista, parecendo hesitar na resposta e conduzindo tão lentamente quanto o táxi que perseguia. Mas em seguida acrescentou que deveria dirigir-se ao Casino, embora os taxistas àquela hora costumassem fazer uma volta até ao fim das Dunas Machas. Depois, sim, depois é que regressavam pela outra estrada, fazendo um enorme percurso, até ficarem diante do Casino. Ele não, ele como taxista nunca faria uma coisa dessas, mas se o serviço consistia em perseguir o outro táxi, ele seguiria atrás, fazendo idêntico caminho. E aí, o professor, por um momento pensou na faca de Caravaggio, mas só por um instante, por um segundo, talvez, pois o que o empurrava, naquele momento em que havia deixado a mulher dentro dum quarto de hotel, e em que seguia atrás de Miriam, sozinha, sem marido nem filhos, dentro dum carro alugado, era sem dúvida o seu oposto &#8211; Muito medo e muita esperança,<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Uma extraordinária esperança, quando o táxi começou a passar junto de candeeiros que olhavam a rua com a sua luz mortiça, outros que nem olhavam porque se encontravam desconjuntados e partidos, rente às acácias selvagens, ao longo de umas ruas que se urbanizavam, entre guindastes e materiais de construção espalhados, seguindo Miriam. Sempre na peugada do táxi da frente, passavam por cima de tábuas, sacos, montículos de areia e cimento, ferraduras, mangueiras, detritos, covas e saliências da velha estrada, atrás do táxi onde se vislumbrava, quando a luz incidia, o cabelo dela, de Miriam, e todo esse balanço levava o professor para uma zona sonhada, no auge absoluto do medo e da esperança, ao longo das Dunas Machas. O motorista ainda lhe disse &#8211; &#8220;O senhor não acha melhor ultrapassarmos o meu colega, para ver se persegue a pessoa certa? Mas as palavras do motorista pareciam saídas duma boca adúltera. Naturalmente que ele não perseguia ninguém, apenas se deixava conduzir por Miriam, que o levaria até um sítio justo para terem um encontro, uma conversa pura, criarem os dois um plano limpo. Quem saberia? Tinham chegado ao local onde o asfalto se perdia sob as ervas. Aí o táxi da frente fez um salto, baixou numa cova de terra, torceu, ziguezagueou e virou para trás, levando no seu interior Miriam. O taxista disse para o professor &#8211; &#8220;É sempre assim, fazem esta pirueta para justificarem o regresso à estrada e empocharem mais dois ou três mil...&#8221;<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &#8220;Vamos atrás!&#8221; &#8211; disse o Prof. Reinaldo Mateus. &#8220;Vamos correndo até onde eles pararem. Onde o seu colega parar, paramos também&#8221;. E de novo correram em sentido contrário, por uma estrada que atravessava as Dunas Machas, atrás do outro táxi, saltitando, balouçando, fazendo voltas e voltas, aproximando-se perigosamente, por vezes, o carro de trás do carro da frente, com Miriam lá dentro, olhando adiante, sem dúvida à espera de encontrar o local exacto, até que o motorista disse muito alto &#8211; Eu não disse? Já cá estamos! Há outros que ainda dão voltas maiores até cá chegarem...&#8221;<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O coração do professor batia certo, seguro, ritmado pelo motor do carro em abrandamento. Em frente, as luzes eram intensas. Ele pagou a corrida, o táxi da frente abriu a porta e Miriam saiu. O professor ainda disse &#8211; &#8220;Miriam? Estou aqui&#8221;. A rapariga virou-se e não era Miriam.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A rapariga que ele havia tomado por Miriam ainda o olhou, ainda fez um gesto de reconhecimento, mas logo se recompôs, sacudiu o vestido, apanhou um pouco a saia, e correu para o interior das luzes que assinalavam o domínio do Casino. Desapareceu nas luzes vermelhas. O motorista parecia já ter vivido situações semelhantes, para ele tudo parecia natural e previsível, e disse, com o carro a trabalhar, o braço fora do carro e a mão a acenar para dentro como um gancho &#8211; &#8220;Posso levá-lo de volta&#8221;. Sim, podia, pois aquela pessoa não era Miriam. O rapaz da portaria tinha-o enganado. Ou ele ter-se-ia enganado por si mesmo, ou a faca de Caravaggio havia-o seduzido ao contrário, levando-o para fora do seu sonho de Verão. Sim, queria voltar. Mas não queria voltar com aquele homem de táxi. Queria outro táxi. Aliás, transpirava demais. E sem responder ao motorista, aproximou-se do Casino.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Não entrou, não saberia entrar num Casino, mas ficou ali, sentado numa vasta sala vestibular, disperso, ouvindo um rumor estranho, uma alegria que lhe parecia conter segredos que não lhe diziam respeito, vindos de uma outra esfera, sentado no meio dum espaço adverso, para onde um engano o tinha trazido. Ficou ali, foi ficando por mais algum tempo, sem se importar com o tempo, e só quando o ruído se lhe afigurou insuportável e as pessoas de bem vestidas e bem automobilizadas lhe pareceram malfeitoras e assassinas, ele saiu para a rua e tomou um novo táxi. E ele pediu ao novo motorista que o levasse ao Hotel Amplexor, e o motorista em vez de tomar a direcção exacta, conduziu-o de regresso por um circuito que cada vez mais o afastava, balouçando-o no carro, através da estrada esburacada, dos detritos e das pranchas, desenhando uma enorme volta, num percurso transversal ao mar. Para o professor não tinha importância. Quando entrasse pela porta giratória, preferia que fosse tão tarde que já nem lá estivesse o rapaz atarracado, para não ter a tentação de perturbar a sua inexpressividade. &#8220;Então chegámos...&#8221; &#8211; disse o taxista, com o à vontade de quem engana por código firmado.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &#8220;Chegámos&#8221; &#8211; disse o professor, sem se importar. Agora não lhe apetecia abandonar o táxi. A seu pedido, tinham parado uns metros antes do renque das palmeiras, e ele olhava para o volume transparente da cabine telefónica em forma de caixa de vidro, donde dois dias entes havia ligado para o quarto dela, e via-a agora, a caixa, como uma coisa perdida no meio das ervas escuras. Aliás, o mar, os espigões de pedra, o bar de caniço, a passadeira de tábuas, a areia, as folhas verdes, tudo era escuro, sem uma estrela. Brilhavam por um brilho que lhes era próprio, não estavam ligadas a nada, como nos quadros dele. Nenhuma luz descia de fontes vastas, cada coisa irradiava por si, e onde se via beleza poder-se-ia dizer agonia, exactamente como nos quadros dele. A caixa de vidro brilhava e ao mesmo tempo morria. &#8220;Chegámos&#8221; &#8211; disse o taxista. &#8220;Pois chegámos&#8221; &#8211; disse o professor, disposto a atravessar a porta-giratória sem desviar o olhar dos seus próprios pés. Queria passar naquele hall, imponderável, invisível, transparente como o ar. Mas isso não era possível &#8211; o rapaz inexpressivo estava atrás daquela alta trave de madeira donde o havia iludido e chamou-o Porque o chamava? Iria, não iria? Quem o tinha enganado? Sim, não poderia deixar de ir. Já ali estava diante do contador, mas a sua decepção era tão grande que não conseguia dizer uma palavra. Aliás, o rapaz atarracado também não tinha quaisquer palavras para dizer. De mãos móveis e sobrancelhas unidas, virou-se, aproximou-se do cacifo do professor onde havia um papel dobrado e entregou-lho. O professor tirou os óculos e leu a mensagem extraordinária &#8211; <EM>&#8220;Professor, esperei duas horas e meia por si. O mesmo aconteceu há dez anos atrás, no pequeno café da Flummery Square. Miriam Gonçalves &#8211; Adeus, professor&#8221;</EM>. O professor leu esse papel durante muito tempo.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &#8220;Um tempo extraordinário, rente ao balcão&#8221;.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&#8220;Ouça&#8221; &#8211; perguntou por fim. &#8220;A que horas saem?&#8221;<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O rapaz respondeu &#8211; Acordam às cinco, partem às seis&#8221;. O professor estava com dificuldade em ver as horas. O rapaz disse-lhe &#8211; &#8220;São três e meia&#8221;. O professor começou a mexer nos bolsos, encontrou duas notas de cinco mil escudos e colocou-as na mão curta do rapaz. &#8220;Diga-me &#8211; vão apagar as luzes do hall?&#8221; &#8211; E continuava a remover os bolsos. &#8220;Não senhor, as luzes ficam abertas durante toda a noite&#8221;. O professor encontrou mais duas notas de cinco mil escudos e entregou-as ao rapaz &#8211; &#8220;E tem a certeza&nbsp; de que para saírem terão de passar por esta porta?&#8221; Sim, não havia outra porta de saída, disse-lhe o rapaz. O professor continuava a procurar mais dinheiro entre os papéis da carteira que espalhava desordenadamente sobre o balcão mas não encontrava. Queria gratificar mais e mais aquele rapaz. Por fim juntou os papéis espalhados, a que acrescentou a mensagem de Miriam, e disse-lhe &#8211; &#8220;Não apague nenhuma luz. É ali mesmo que eu quero esperar&#8221;. E limpando o suor da cara, procurou o sofá que melhor olhava para o elevador principal. Pois era ali que iria sentar-se. Para ver Miriam. Para que ela também o visse. Para que ela soubesse que um homem de fato amarrotado e olhos vermelhos tinha passado a noite inteira à espera dela. Para ele recolher para sempre a imagem dela em roupas de partir e malas de viagem. Entre o marido e os filhos. Amor por amor. Sem esperança e sem medo, como na inscrição da verdadeira faca. E o professor fechou os olhos, no hall branco, e assobiou na noite, devagar. Diante, controlando o tempo, de pálpebras descidas, encontrava-se o seu vigia.</P>
<H3>"O Laço"</H3><H4 align=right>por&nbsp;Rosa Lobato de Faria (pp. 19-20)</H4><P><STRONG><EM>(Ficção)</EM></STRONG>&nbsp;</P><P><br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Sou um homem pacato. Em dez anos de casamento, a Adriana nunca se queixou. Às vezes diz que eu falo pouco, que não me abro, que não partilho as coisas com ela. Mas é o meu feitio. Gostaria de lhe dizer, por exemplo, que me sinto poeta. Não que saiba escrever, não é isso, mas poeta por dentro, cheio de metáforas, de imagens bonitas, de palavras musicais. Ela havia de se rir de mim e eu não suporto que se riam de mim. Como da última vez que tive de usar smoking e a Adriana riu até às lágrimas porque eu tinha o laço torto. Irremediavelmente torto. Acho que o defeito é do meu pescoço. Visto smoking duas vezes por ano, no máximo, e o laço fica sempre torto.</P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Hoje vamos a uma festa. Aniversário de casamento de um casal amigo. Se a Adriana sai do banho e começa a rir da tortuosa posição do meu laço, garanto que a mato. Há poucas coisas no mundo que me enervam, mas rirem-se de mim e do meu laço com vida própria é mais do que consigo aguentar.</P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A Adriana sai do banho, linda, húmida, enrolada num toalhão cor de fogo. Parece uma rainha pagã, com os cabelos soltos, ondulados nas pontas. Protegeu-os da água e estão secos mas parecem selvagens assim recém libertos da touca. Os braços nus seguram a toalha e as pernas aparecem na sua total desinibição. Percebo que vou ter que despir o smoking e atirar para o chão o vestido, a bolsinha de missangas, os sapatos de cetim que a esperam sobre a cama. Desmanchar de novo o laço, paciência, de qualquer modo está inelutavelmente torcido.</P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Tens o laço torto, diz a Adriana e desata a rir.</P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Aproximo-me dela e a Adriana pensa que lhe vou oferecer o pescoço para que me ajeite o laço, mas é ela que me oferece o pescoço nu para que o esgane.</P><P align=center><IMG src="./archive/rosafaria1.jpg"></P><P>&nbsp;</P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Seguro-lhe as mãos atrás das costas, das costas dela, quero dizer e tenho à minha mercê a jugular azul, talvez lilás, se eu fosse vampiro que prazer cravar-lhe os dentes, vê-la tornar-se exangue nos meus braços, ter a certeza de que nunca mais iria rir de mim.</P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Aperto-a tanto que os olhos se tornam inquietos, diz, agora não, o seu perfume envolve-me de forma hipnótica, apetece-me mergulhar nele, navegar a todo o pano nesse mar de aromas, amá-la enquanto a mato devagarinho.</P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quero matá-la com as minhas mãos nuas, não usarei a faca, nem a arma de fogo, nem o veneno, nem as minhas lâminas, ali mesmo à mão na casa de banho. Posso escolher entre apertar-lhe a garganta com todas as minhas forças ou atabafá-la até à morte com as almofadas de penas, e deixá-la estendida na cama ao lado do vestido por estrear, com os olhos azuis escancarados de espanto.</P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Tinha dez anos quando o meu avô me mostrou as flores do linho. Sobe para a carroça, disse ele, se queres ver a cor dos olhos da mulher com quem hás-de casar. Eu subi, encantado com aquelas férias no norte onde aprendi mais numa semana do que num ano inteiro em Lisboa. Eram as primeiras horas da manhã e aquele ar tão limpo, cheio de cantos de pássaros, de odores diferentes, múltiplos, agrestes, despertava os meus sentidos, ensinava-me a terra. O avô levou-me por um caminho sem fim, ao ritmo do passo vagaroso do velho cavalo de chapéu de palha. Quando chegámos ao campo de linho ele deixou-se ficar com as rédeas na mão, a olhar em silêncio. Depois desdobrou um guardanapo de quadrados vermelhos e fez aparecer dois grandes pães, um com presunto para ele, um com queijo para mim. Dois copos grossos e curtos, uma garrafa de verde branco. Eu nunca tinha bebido vinho e disse que não queria, mas o avô garantiu&nbsp; que se eu ia conhecer a cor dos olhos da minha futura mulher tinha que&nbsp; beber como um homem e deixar que aquela gotinha de álcool ajudasse a imaginação. Assim fiz. O pão ainda estava&nbsp; quente, o vinha ainda estava fresco. Fiquei um pouco tonto e muito alegre e o meu avô desceu da carroça, segurou na minha mão, levou-me pelo campo e apontou, num gesto circular</P><P>olha</P><P>e eu olhei e vi multiplicados por mil os olhos da Adriana e a profecia ficou comigo tão viva que quando a conheci tive a certeza de que me estava destinada desde que os homens cultivaram o linho.</P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Agora estou a beijá-la enquanto lhe seguro as duas mãos atrás das costas com a minha mão direita, e com a esquerda lhe tapo o nariz. Debate-se. Sinto-lhe os seios que se esmagam contra a minha camisa de cerimónia, ainda não tenho o casaco vestido. Sou obrigado a deixá-la respirar porque a boca desce agora pelo decote para beijar-lhe o corpo, aquele corpo que é a minha perdição, embora nunca lho diga da forma apaixonada como o sinto. A toalha há muito que escorregou para o chão. A pele ainda está húmida, morna, deliciosa e eu penso confusamente que quando terminar de matá-la ficará fria como uma estátua de mármore.</P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quando na nossa lua-de-mel entrámos no Louvre de mãos dadas, a Adriana conseguiu iludir a vigilância do guarda, atrapalhado com uma escola barulhenta, para apalpar o corpo da Vénus de Milo. Achei que estava quente, disse ela, de tal forma aquela carne palpitava de vida. Falámos nisso durante dias, da impressão que lhe fez aquela pedra que parecia viva, interrogámo-nos se a arte seria isso, criar vida a partir de matéria informe, sons caóticos, palavras sem sentido, telas vazias. Iniciávamos apenas a nossa vida adulta, recém-formados, recém-casados, procurando respostas em tudo, incluindo a descoberta alucinada dos corpos. O teu corpo, Adriana. Mesmo quando o nosso casamento encarrilou numa certa rotina, não deixei nunca de interrogar-me sobre esse mistério que faz com que me roje mentalmente a teus pés, de corpo e alma.</P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; E agora estou aqui a matar-te. Não devias ter rido do meu laço torto. Não devias. Ainda por cima não sei como se faz. Não tenho experiência. Dizemos eu mato-te mas não sabemos como separar do seu encanto esse conjunto milagrosamente harmonioso de ossos, músculo, pele, cabelos, e o que dizer dos olhos, da boca, dos dentes, do sorriso, das unhas, do cheiro, da saliva, da batida exaltante do coração. O teu coração, Adriana, que se esconde sob este maravilhoso seio esquerdo, o que tem o sinalzinho cor-de-rosa junto do mamilo. O teu coração, meu amor.</P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Parece que o mais fácil é apertar o pescoço. Coloco a polpa dos polegares naquela covinha da garganta, tão bonita, entre duas clavículas perfeitas, que te sustentam esses ombros de estátua.</P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quantas vezes nas nossas peregrinações pelos museus te comparei às esculturas admiráveis dos maiores artistas, Rodin, Bellini, Canova, mas nenhuma delas tinha a maciez dos teus contornos, a penugem dourada, apenas visível em contra-luz, as minúsculas imperfeições da pele que te tornam única, sim, estas levíssimas sardas que a última praia te deixou no nariz e na pele do decote e a que as pontas cor-de-cobre dos teus cabelos propõem a rima certa e me transportam para outro lugar.</P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Estamos à beira-mar e não há como a espuma para enquadrar as tuas pernas perfeitas, fortes sem serem grossas, altas sem serem magras, ágeis sem serem musculosas. Os teus pés descalços trazem a nudez primordial que torna a praia da manhã num lugar virgem, como se a areia, alisada pelo vento da noite e a última maré cheia, fosse pisada pela primeira vez. Embriagados de sal e de sol fazemos amor entre as rochas com pequenas ondas mansas a lamber-nos o corpo num vai-vem festivo. E tu ris, com os rins na água e as pernas de deusa enroladas na minha cintura.</P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ai, Adriana, como a vida tem força. Se não fechar os olhos não poderei matar-te. Irei pelo contrário possuir-te, com fúria, com raiva, com paixão, mais uma vez sujeito ao império da tua força, da tua exuberância, da tua troça</P><P>tens o laço torto</P><P>não suporto que troces de mim, eu nunca te disse mas amo-te para além do razoável, por isso não podes rir-te depois de eu me ter esforçado tanto para te agradar, às cegas aperto-te a garganta, aperto, aperto, até não ver mais nada, não entender mais nada, até caíres sobre a toalha vermelha que te rodeia o corpo nu como uma gigantesca flor de sangue.</P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Inclinado sobre a cómoda, tento compor o laço. A porta da casa de banho abre-se, talvez com o vento, tens o hábito de tomar duche com a janela aberta para não embaciar os espelhos.</P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Surges enrolada na toalha cor-de-fogo, orvalhada, despenteada, belíssima e dizes, num sorriso sedutor, bravo, o teu laço está impecável.</P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Um pouco à bruta arranco-te a toalha, deito-te ao lado do vestido novo, empurro para o chão os sapatos de cetim. Fazemos um amor fora de horas, excitante, inesperado</P><P>agora não</P><P>agora sim, e o meu laço fica irremediavelmente torcido e tu, Adriana, nunca saberás os perigos de viver há dez anos com um poeta em construção. </P><P align=center><IMG src="./archive/rosafaria2.jpg"></P>
<H3>Poesia Inédita de Manuel António Pina</H3><H4>"Partida" e "Quinquagésimo Ano"</H4><P align=right><STRONG>de Manuel António Pina (pp. 70-71)</STRONG></P><P><STRONG>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; ................................................................................&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; </STRONG></P><P><STRONG>PARTIDA</STRONG></P><P>De súbito extinguiu-se qualquer coisa,<br/>soltou-se qualquer peça de uma máquina incompreensível<br/>de que dependia, afinal, a minha vida;<br/>tornou-se tudo demasiadamente literal,<br/>até eu estar ali, sem compreender;<br/>e até eu não compreender era<br/>algo inteiramente incompreensível;<br/>o mundo, que via pela primeira vez,<br/>via-o através de uns olhos que não me pertenciam,<br/>que não pertenciam, porque eu próprio era<br/>uma acontecimento incompreensível acontecendo,<br/>algo que me acontecia, não sabia a quem;<br/>o comboio afastava-se levando-te<br/>para fora de mim como alguém sonhando,<br/>e eu, e tudo o que de mim sabia, desaparecera<br/>e ficara um sítio vazio<br/>onde as últimas horas da tarde<br/>como aves extenuadas pousavam.</P><P><STRONG>.........................................................................................................</STRONG><br/><STRONG></STRONG></P><P><STRONG></STRONG>&nbsp;</P><P><STRONG>QUINQUAGÉSIMO ANO</STRONG></P><P>São muitos dias<br/>(e alguns nem tanto como isso)<br/>e começa a fazer-se tarde de um modo<br/>menos literário do que soía,<br/>(um modo literal e inerte<br/>que não posso dizer-te<br/>senão literariamente).<br/>Mas não há pressa, nem se vê ninguém a correr;<br/>a única coisa que corre é o tempo,<br/>do lado de fora, porque por dentro<br/>a própria morte é uma maneira de dizer.<br/>Caem co&#8217;a calma as palavras<br/>que sustentaram o mundo,<br/>mas o mundo não parece<br/>menos terreno nem impermanece.<br/>Restam, é certo, alguns livros,<br/>algumas memórias, algum sentido,<br/>mas tudo se passou noutro sítio<br/>com outras pessoas e o que foi dito<br/>chega aqui apenas como um vago ruído<br/>de vozes alheias, cheias de som e de fúria:<br/>literatura, tornou-se tudo literatura!<br/>E a vida? (Falo de uma vida<br/>muda de palavras e de dias, uma vida nada mais que vida;<br/>haverá uma vida assim para viver,<br/>uma vida sem a si mesma se saber?)<br/>Lembras-te dos nossos sonhos? Então<br/>precisávamos (lembras-te?) de uma grande razão.<br/>Agora uma pequena razão chegaria:<br/>um ponto fixo, uma medida.</P>
<h2>N.º 7 - Série 3 - Fevereiro 2001</h2><p><strong>Número Especial - correntes d'escritas</strong></p><p align="center"><a href="http://picasaweb.google.pt/lh/photo/IVX-EuQ2ftumd-b_jD-Igg?feat=embedwebsite"><img src="http://lh6.ggpht.com/_1tggD33jlcU/SrnsQjr2sbI/AAAAAAAAARQ/FSDnO31W4m4/s800/mealibra_7_capa.jpg"></a><br/></p><ul><li><div align="left"><a href="/ccaminho/pt/?&amp;download=m7_sumario.pdf"><u>Sumário</u></a></div></li><li><div align="left">Crónicas e Outras Prosas - <a href="/ccaminho/pt/?Edi%E7%F5es%3A_Mealibra/N.%BA_7_-_S%E9rie_3_-_Fevereiro_2001/%22O_rem%E9dio_contra_os_pesadelos%22">"O remédio contra os pesadelos"</a>, por Cristina Norton (p.22)</div></li><li><div align="left">Poesia - <a href="/ccaminho/pt/?Edi%E7%F5es%3A_Mealibra/N.%BA_7_-_S%E9rie_3_-_Fevereiro_2001/Poesia_de_Albano_Martins">"Paleta"</a> e <a href="/ccaminho/pt/?Edi%E7%F5es%3A_Mealibra/N.%BA_7_-_S%E9rie_3_-_Fevereiro_2001/Poesia_de_Albano_Martins">"Pequenas Coisas"</a>, de Albano Martins (p.33)</div></li></ul>
<H3>"O remédio contra os pesadelos"</H3><H4 align=right>por Cristina Norton (p.22)</H4><P>&nbsp;<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Numa grande cidade do norte de Portugal, vivia uma menina chamada Joana, que era bonita e alegre como quase todas as crianças e gostava de brincar, de ir à escola e de dormir, como qualquer uma delas. Só que, quando o João Pestana passava com o carrinho de mão e lhe atirava suavemente alguns grãos de areia nas pálpebras para que ficassem mais pesadas, Joana esforçava-se em não fechar os olhos porque tinha medo de adormecer.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O cansaço conseguia vencê-la a maioria das vezes, e entre os muitos sonhos que não recordava, também tinha pesadelos que lhe provocavam suores frios e uma angústia que a fazia chorar. Às vezes alto, porque o medo era muito, outras baixinho para não acordar os pais. E assim ficava, virada para a parede, na parte mais escura da cama, para que os maus sonhos, que segundo ela entravam pela janela, não a vissem e fossem procurar outros quartos onde espalhar o medo.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Um dia, os pais tiveram de fazer uma viagem, e como estava em período de férias, deixaram-na em casa da avó Clara, que tinha uma pequena casa frente ao mar, na Póvoa de Varzim. Joana gostava muito dessa avó, que não via tanto quanto gostaria, e tinha o dom de saber as razões do inexplicável e de encontrar soluções para todos os problemas. Também curava com remédios caseiros desde uma tosse forte, - com xarope feito à base de rodelas finas de beterraba que polvilhava com açúcar e deixava de um dia para o outro, até que o líquido de uma cor de vinho escuro enchia o fundo do prato &#8211; até ataques de soluços, bebendo água ao contrário, ou seja com o tronco do corpo para a frente e a cabeça virada para o umbigo, os dentes batendo no lado oposto do copo e a água entrando pelo palato e indo parar à garganta e não ao nariz como se supunha. A avó Clara também a levava a conhecer os segredos do mar; ensinava-lhe a distinguir o cheiro das algas, das lapas, e de como as repugnantes e viscosas alforrecas, ao deslizar na água, pareciam vestir-se com as suas melhores cores e rivalizavam nos rosas, azuis e amarelos. Perseguiam caranguejos invasores de conchas vazias e viam-se mudar de casa à medida que cresciam, e tantas eram as coisas que descobria que, quando chegava a noite, cansada de correr e brincar na praia, dormia dum sono pesado até de manhã.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Uma noite mais escura que as outras, no meio do silêncio daquela casa velha, a avó ouviu um choro pequenino. Acendeu o candeeiro da mesinha de cabeceira e aproximando os óculos dos olhos ensonados conseguiu ler as horas no relógio: 4 da manhã! Levantou-se com calma e foi ao quarto contíguo ver o que é que se passava.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Joana contou-lhe o pesadelo, onde apareciam feras e precipícios. A avó ouviu-a atentamente e no fim explicou-lhe que os sonhos maus, aqueles que carregam as más memórias&nbsp; das pessoas que os sonharam um dia, cansados das imagens feias que pesavam muito mais do que as bonitas, atiram-nas para as camas dos que dormem, de preferencia para as dos meninos, que são aqueles que melhor as absorvem, libertando-se assim do seu desassossego, passando-o simplesmente para outros.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A avó, sem acender a luz, porque conhecia os cantos da sua casa e dos móveis ao ponto de poder andar às cegas, foi buscar o remédio para o mal da neta. Na cozinha, pegou um copo de vidro transparente e, depois de pôr no fundo uma pedra pequena, das que se encontram vulgarmente no campo ou nas margens dos rios, encheu-o de água da torneira e voltou com ele para junto da Joana.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Contou-lhe que as pedras têm o poder de atrair os pesadelos através da água, e uma vez lá dentro não conseguem sair, e que, se todas as noites pusesse um copo com a pedra e água limpa na mesinha de cabeceira, os pesadelos mergulhariam nela e não iriam incomodar os seus sonhos.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O resto da noite passou sem mais sobressaltos.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A partir de então, todas as noites, antes de ir para a cama, Joana vai buscar o seu copo com a pedra e a água e, todas as manhãs, quando acorda bem disposta por ter passado a noite a sonhar com cavalinhos e estrelas do mar, despeja no lavatório a água cheia de maus sonhos.</P><P align=right><EM>Lisboa, 5 de Maio 2000 </EM></P>
<H3>Poesia de Albano Martins</H3><H4>"Paleta" e "Pequenas Coisas"</H4><P align=right><STRONG>de Albano Martins (p.33)</STRONG></P><P align=right><STRONG>.......................................................</STRONG></P><P><STRONG>PALETA</STRONG></P><P>Tens uma paleta<br/>a que faltam<br/>algumas cores Talvez<br/>porque há substâncias<br/>a que não soubeste<br/>dar expressão Ou porque elas<br/>são incolores Ou porque<br/>em toda a realidade<br/>há fendas<br/>que nem pela palavra<br/>nem pela cor<br/>alguma vez<br/>saberás preencher.</P><P>.........................................................................................................</P><P><STRONG>PEQUENAS COISAS</STRONG></P><P>Falar do trigo e não dizer<br/>o joio. Percorrer<br/>em voo raso os campos<br/>sem pousar<br/>os pés no chão. Abrir<br/>um fruto e sentir <br/>no ar o cheiro<br/>a alfazema. Pequenas coisas,<br/>dirás, que nada<br/>significam perante<br/>esta outra, maior: dizer<br/>o indizível. Ou esta:<br/>entrar sem bússola<br/>na floresta e não perder<br/>o rumo. Ou essa outra, maior<br/>que todas e cujo<br/>nome por precaução<br/>omites. Que é preciso,<br/>às vezes,<br/>não acordar o silêncio.</P>
<h2>N.º 8 - Série 3 - Junho 2001</h2><p align="center"><a href="http://picasaweb.google.pt/lh/photo/CQ0hEkCmUsdxwlSh6c_gHw?feat=embedwebsite"><img src="http://lh4.ggpht.com/_1tggD33jlcU/SrnsRV3JekI/AAAAAAAAARU/iNoZzB3guJ0/s800/mealibra_8_capa.jpg"></a><br/></p><ul><li><div align="left"><a href="/ccaminho/pt/?&amp;download=m8_sumario.pdf"><u>Sumário</u></a></div></li><li><div align="left">Do Social e Humano - Inédito - &nbsp;<a href="/ccaminho/pt/?Edi%E7%F5es%3A_Mealibra/N.%BA_8_-_S%E9rie_3_-_Junho_2001/%22Adolescer_de_Paix%E3o%22">"Adolescer de Paixão"</a>, por Inês Pedrosa (pp. 121-122)</div></li></ul>
<H3>"Adolescer de Paixão"</H3><H4 align=right>por&nbsp;Inês Pedrosa (pp. 121-122)</H4><P>&nbsp;<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Escrevi «A lnstrução dos Amantes» quando comecei a ter medo de me esquecer do sabor violento e vagaroso da paixão. Estava quase a dizer «primeira paixão», como se os sentimentos não fossem blocos de imobilidade, imunes às vaidades do tempo e aos humanos esforços da evolução. Quis que o título fosse irónico q. b. e redundante como o coração: a verdade, a minha verdade, é que aquilo a que chamamos instrução é insensibilização e esquecimento, estratégias de sobrevivência ao absoluto que nos impele para a fusão final, a obsessão, a morte.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Na viragem dos trinta anos, dei por mim demasiado atenta aos números e às cronologias, a contar pelos dedos amores, memórias, trabalhos, tentada a somar vitórias e diminuir derrotas como uma criança insegura ou uma mulher madura. A maturidade parece ser o grande mito substituto: já que os deuses estão, no mínimo, loucos, os homens (e agora até as mulheres) tomam-se por seres livres, racionais, clarividentes e a caminho da infalibilidade. Enfim, maduros.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quanta candura se esconde nas arcas da presunção. Como se a maturidade não fosse um comércio de medos: troca-se um sótão inteiro de fantasmas invisíveis (a paixão, a eternidade, a ressurreição, o destino, a alma) por uma colecção de medos físicos (medo de deslizar pelo corrimão da escada, medo do desemprego, medo dos ladrões, medo das doenças, etc.). É um negócio arriscado, porque ninguém nos pode garantir que os medos impalpáveis não se aproveitem da sua invisibilidade para se agarrarem às arestas dos medos visíveis.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O certo é que, com o passar dos anos, julgamos que aprendemos a amar e a desamar e a fazer lutos e transferências. Enfim; temos toda a parafernália de que precisamos para uma saudável ginástica sentimental. Amamos porque, desamamos quando, gerimo-nos parcimoniosamente. Mas o comércio dos medos nunca resulta por completo. Sobra sempre um pó de fantasma, pronto a desfazer-se em luz e água dentro dos nossos olhos. Não, não se trata de recusar a terrível aridez da idade adulta, ou de incensar os primeiros ciclos de trabalhos e amores como os melhores anos da nossa vida. Passo a explicar: a minha teoria para-sociológica, nada científica mas convicta, é de que o estado adulto repete em embrulho mais bem acabado o viver da infância. Como a criança, o adulto completo é aquele que se interessa um pouco por tudo e muito por nada, de forma a defender-se de grandes exposições e dramas definitivos. Sempre atarefados e prudentemente impacientes, crianças e adultos vivem fora do negrume das paixões extremas. O adolescente, pelo contrário, interessa-se muito por uma meia dúzia de coisas, sentimentos e pessoas, e despreza tudo o que disso sobra.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Claro que hoje em dia é fácil romantizar os adolescentes, porque a juventude tornou-se uma categoria de consumo útil, e portanto louvada e publicitada por políticos e empresários. Os bancos criaram contas e cartões especiais, a moda inventou marcas só para eles, os anticoncepcionais saltaram para os supermercados, substituindo primorosamente o óleo de fígado de bacalhau, as mesadas aumentaram, Os horários expandiram-se, as campanhas eleitorais exaltaram-nos em câmara lenta a imagem da Grécia antiga.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; lnvenção recente? Não. Os adolescentes sempre existiram; novos, a bem dizer, são os velhos. No inicio do século, uma criança em cada cinco morria antes dos cinco anos. Ate há muito pouco tempo, as pessoas acasalavam aos treze anos e a esperança de vida era de cinquenta anos. O mundo ocidental sempre foi governado por miúdos, e não me parece que tenha sofrido alterações de maturidade quando os lideres começaram a envelhecer. Actualmente, os homens e as mulheres beneficiam de um suplemento de vida disponível da ordem dos vinte anos (entre os sessenta e os oitenta anos) , ou seja, tão longo como a infância e a adolescência.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Só a partir do século XIX o adolescente aparece como figura separada, como herói e criador. Foi o romantismo alemão, cujo expoente máximo será o Werther de Goethe, quem deu crédito à ideia da juventude como uma fase da vida com um valor intrínseco, etariamente definido.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quando, em 1905, o psicólogo norte-americano Stanley Hall inaugurava oficialmente as comemorações científicas da adolescência, com dois grossos calhamaços de análise resultantes de um inquérito à miudagem do seu país, </P><P align=right><IMG src="./archive/inespedrosa1.jpg"></P><P>não&nbsp;imaginava estar a atear o rastilho de um novo género de literatura. Era o fim dos dias de ouro dos pater famílias: a partir de agora, o mau feitio dos petizes tinha uma razão de ser e muitas reivindicações a fazer.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em «A Depressão no Adolescente», (Afrontamento, 1984) Carlos Amaral Dias e Teresa Nunes Vicente sublinhavam que nas obras sobre a adolescência «se vê claramente o quanto os problemas dos jovens sintetizam a patologia dominante da sociedade contemporânea: a angústia, a solidão, a falta de sentimentos profundos (a morosidade) o aborrecimento, a falta de alegria». Por outro lado, em 1980, num artigo intitulado «La jeunesse n&#8217;est qu&#8217;un mot», Pierre Bourdieu assinalava o carácter abstracto e construído das classes de idade: um adolescente trabalhador não cabe no mesmo saco de um estudante. Em Portugal, Daniel Sampaio tem publicado uma série de livros pioneiros (até pela comunhão entre transparência e profundidade), desmistificando todas as ideias feitas e apriorísticas sobre isso a que chamamos juventude.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Psicólogos e sociólogos (por exemplo, Manuela Fazenda Martins em «A Tentativa de Suicídio Adolescente» (Afrontamento, 1990) verificam que nos confrontamos hoje com uma nova fase, a pós-adolescência, definida sobretudo, de um ponto de vista sociológico, pela dificuldade de acesso ao mundo do trabalho. Ora, o obstáculo é o grande chamariz da paixão; quando a vida real se torna impossível, a vertigem surge como alternativa total, numa rendição total ao sonho, exterior ao correr dos dias.</P><P><IMG src="./archive/inespedrosa2.jpg"><br/></P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Foi isso que eu quis contar, em «A lnstrução dos Amantes»: a paixão como resistência ao tempo. Só nesse sentido é que a paixão é a incansável reprise da adolescência, que foge ao ar do tempo fechando as portas sobre si própria. Falamos daquela determinação para a missa negra da felicidade que acudiu a Romeu e Julieta, a definitiva Julieta que ninguém desconsiderou como adolescente, apesar dos seus parcos catorze anos.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Creio que esta confusão de sentidos e sentimentos a que chamamos nova desordem amorosa tem a ver com o fim dos interditos. Esse grande mito ocidental que é a paixão confronta-se agora pela primeira vez com o seu mais poderoso antídoto, a que podemos chamar romanticamente, amor, ou, mais simplesmente, vida partilhada. Os casamentos marcados, os destinos traçados a negro espicaçavam os mundos contrários. Mas que fazer, passada a moda do degredo e das grades de convento? Inventaram-se outras algemas: o amor sortido, conhecido em certos meios pelo eufemismo de amor Iivre, o flirt modernaço, o beguin elegante, o affaire entre duas viagens de affaires. A geografia (política ou territorial) cumpre no mundo contemporâneo o papel tirano que dantes cabia às famílias.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quis dar conta destas mutações e da permanência, para lá de todas as contingências, desse ideal de amar o amor que norteia o nosso ocidente, como anotou Denis de Rougemont. Quis ainda falar da paixão como acto radical, gesto de luz e revolta, fenómeno que rompe as conveniências sociais estabelecidas e por isso instaura uma pequena revolução. Não pretendia escrever uma história de iniciação, mas acabei por me dar conta de que não há outras. E acabei por verificar que o tema da iniciação atravessa a maioria dos romances que mais me interessam - pela ruptura formal e filosófica que realizam- na literatura portuguesa do século XX. São eles: «Nome de Guerra», de Almada Negreiros, «Sinais de Fogo», de Jorge de Sena, «Manhã Submersa» e «Para Sempre» de Vergílio Ferreira ,«O Que Diz Molero», de Dinis Machado, «Retracto Dum Amigo Enquanto Falo» de Eduarda Dionísio, a «Tetralogia&nbsp; Lusitana» de Almeida Faria, «Missa in Albis» de Maria Velho da Costa ou «Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura», de António Lobo Antunes.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; E só sei que não sei que temperos fogem à paixão, para que tanto e tão cruamente ela enjoe o amor. Sei apenas que assim é, e que não há sobre a Terra concerto possível para estas duas vozes, que são as do poder maior. O poder da mágoa, que tudo domina, e que nos abre a estreita porta da instrução para a felicidade. Seja lá isso o que for.</P>
<h2>N.º 9 - Série 3 - Dezembro 2001</h2><p align="center"><a href="http://picasaweb.google.pt/lh/photo/J6AMLLLT4DaPLfSAGlFvgg?feat=embedwebsite"><img src="http://lh4.ggpht.com/_1tggD33jlcU/SrnsSQqJCMI/AAAAAAAAARY/woisNfhFke8/s800/mealibra_9_capa.jpg"></a><br/></p><ul><li><div align="left"><a href="/ccaminho/pt/?&amp;download=m9_sumario.pdf">Sumário</a></div></li><li><div align="left">Poesia - Inédito -&nbsp;<a href="/ccaminho/pt/?Edi%E7%F5es%3A_Mealibra/N.%BA_9_-_S%E9rie_3_-_Dezembro_2001/%22Dois_Poemas_de_Granada%22">"Dois Poemas de Granada"</a>, de Rosa Alice Branco (pp. 169-170)</div></li><li><div align="left">Diários / Autobiografias - Diário - <a href="/ccaminho/pt/?Edi%E7%F5es%3A_Mealibra/N.%BA_9_-_S%E9rie_3_-_Dezembro_2001/%22O_Princ%EDpio_da_Realidade_%28Fragmentos_de_Di%E1rio%29%22">"O Princípio da Realidade (Fragmentos de Diário)"</a>, por Julieta Monginho (pp. 92-96)</div></li><li><div align="left">Crónicas - <a href="/ccaminho/pt/?Edi%E7%F5es%3A_Mealibra/N.%BA_9_-_S%E9rie_3_-_Dezembro_2001/%22O_Teatro">"O Teatro, a Justiça e o Gajo da Judiciária"</a>, por Álvaro Laborinho Lúcio (pp. 189-190)</div></li><li><div align="left">Das Artes Plásticas - <a href="/ccaminho/pt/?&amp;download=m9_gentesdeviana.pdf">"Gentes de Viana do Castelo"</a>, de Alcino Viana / José Filgueiras (pp. 231-238)</div></li></ul>
<H3>"Dois Poemas de Granada"</H3><H4 align=right>de Rosa Alice Branco (pp. 169-170)</H4><P><br/><STRONG>UM COPO PARA A MINHA SEDE</STRONG></P><P><br/>Bairro árabe. Subir e descer. <br/>Dentro do que sou e não sabia.<br/>O cheiro das vogais colorindo o colo<br/>das montanhas. O meu filho dorme <br/>com o nome das ruas junto ao Darro<br/>e o pequeno gato que apareceu à porta.<br/>Os nossos passos são o arabesco do gemido<br/>do pequeno Boabdil em plena queda.<br/>Tu és o meu gerúndio, a negação do tempo<br/>fora das muralhas. Intocável o esquecimento.<br/>Desço pelo teu corpo até ao empedrado das ruas<br/>e o meu coração rasteiro come a poeira<br/>do vento. Um copo para minha sede. <br/>Aprendo com a cidade<br/>a trazer o instante no bolso das moedas.<br/>Granada já não chora e o rio estende-me<br/>O seu leito. Deverei pernoitar neste caminho<br/>onde a asa ferida do pássaro lhe alimenta<br/>o voo? Aprendo o riso órfão dos muros de argila,<br/>os sinais dos mortos subindo pelo ar<br/>até à mesquita. Aprendo com a língua das ruas,<br/>com os dentes de leite de Albayzin.<br/>Fim de tarde. Procissão de cores comendo<br/>a blusa até à carne com um copo de vinho<br/>e a neve da montanha. Dentro de mim<br/>a pele da cidade penetra o corpo dos ciganos <br/>em voo rasante sobre nada.</P><P><STRONG>.........................................................................................................</STRONG></P><P><STRONG>O GATO ANDALUZ</STRONG></P><P><br/>O meu filho caminha por aí. Já não sei<br/>se é o Douro ou o Darro que lhe embala o sono.<br/>Nem onde guardei as datas e o nome das ruas<br/>ou se te vou encontrar logo à tardinha.<br/>Deixei-me de saber e de pensar que sei.<br/>Um gato arranha à minha porta a miar em andaluz.<br/>Eu arranho a porta a dois dias daqui, duas horas<br/>de avião. É proibido miar nos voos europeus.<br/>Engulo a saliva do dia e assim se faz noite.<br/>E não há gaivotas a gritar por mim. Por mim<br/>estou eu à janela do avião. As malas <br/>com que te hei-de dizer: cheguei. O teu abraço<br/>como um rio qualquer onde corra água. <br/>Esquecer o que ficou para trás e a língua que me fala.<br/>Levar o copo à boca de onde nasce a boca,<br/>a fonte do quintal, a nascente do mar. O meu filho<br/>voa como se caminhasse descalço. Cruzamo-nos<br/>no horizonte sobre a linha do rio onde desagua a luz. <br/>E as palavras aquietam-se no seu nada.</P>
<H3>"O Princípio da Realidade (Fragmentos de Diário)"</H3><H4 align=right>por&nbsp;Julieta Monginho (pp. 92-96)</H4><P><IMG src="./archive/julieta_monginho.jpg"></P><P><STRONG>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; 7/1</STRONG></P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Uma manhã de sol, sem aguaceiros, quase sem nuvens, e logo este pequeno alívio, este ligeiro deslassar do nó, este leve amaciar da pedra na garganta. Ficar aqui, nesta manhã. Sempre nesta manhã, sempre rodeada deste sol. Resistir ao movimento de rotação da terra. Alhear-me do mundo. Permanecer quieta e atraída pela luz. Como um girassol.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Resignar-me. Aceitar &#8211; até quando? &#8211; o princípio da realidade, a alternância entre pequenas luzes e a noite. Sentar-me anichada ao calor da lareira, de costas para a televisão. Assistir assim à campanha eleitoral, sem imagens, só com as vozes joviais dos candidatos que se tornam peixeiras (blrrr, quantos duches por dia?), almocreves (<EM>então e isto quanto é que custa, ó amigo? Não não não eu estava só a ver, não é para levar nada</EM>) e faz-tudos, descendo ao povo para que o povo condescenda e ponha a cruzinha ao lado da cara solene de Suas Excelências Narcissíssimas.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Sem imagens torna-se ainda mais caricato tudo isto e quase se tem pena dos incansáveis candidatos. Aliás a palavra <EM>candidato</EM> sugere imediatamente uma espécie de transpersonalização &#8211; o aristocrata a imitar o povo, o povo a imitar o burguês, o tolo a imitar o intelectual e vice-versa, o esperto a imitá-los a todos segundo as exigências dos jurados -&nbsp; com vista ao exercício do poder. É assim nas <EM>misses</EM>, nos clubes de futebol, nos <EM>bigbrothers</EM>, na política. Figuras tristes. É preciso fazer um grande esforço de depuração para não as confundir com o valor, intrínseco e real, de alguns dos intervenientes. Há dois que fingem menos, e nisso merecem aplausos: aquele, o do PC, que nunca fingiu que era <EM>candidato</EM>, e o Rosas do Bloco, que antes das palavras sisudas faz ouvir o fumo do cachimbo e consegue opor a sobriedade às provocações do candidato que não é nem deixa ser.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Anichada à lareira, de costas para a televisão. Como um girassol.</P><P><STRONG>&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp; 22/1 </STRONG></P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Uma mulher sentada articulava a dor em palavras difíceis, legendadas, e lágrimas. Um filho pequeno ao seu lado direito, um filho pequeno ao seu lado esquerdo, suportavam a dor com o silêncio e as mãos em movimentos desconexos &#8211; uma unha mordida, um esfregar de joelhos, um balouçar de dedos. Os três perguntavam e agora? Dantes ele (marido, pai) estava longe mas mandava dinheiro, nós não podemos trabalhar, agora ele também não.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Foi nessa altura que apareceu Nicolae (pai, marido) em Portugal, deitado numa cama, tetraplégico por causa de um acidente de trabalho. Clandestino.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Depois veio Vladimir, que é arquitecto mas em Portugal só desenha à noite, à luz da vela, num tugúrio sem casa de banho, nem sonhos, nem nada. E a seguir Igor, que é médico, mas passa os dias a alisar soalhos.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Escravos. Todos escravos num país que se orgulha de ter abolido a escravatura antes dos outros mas agora tem muitas obras gigantescas para exibir aos mesmos outros e muitos amos que como todos os seus antepassados resumem a vida ao delírio de ter. Contra esta gente não há leis, mesmo que se acredite na boa vontade do legislador. Não há leis porque eles não sabem o que é isso, não sabem nada a não ser a forma de engordar extractos bancários.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Não é preciso fazer esforço para simpatizar com estes escravos, tão médicos, arquitectos, ingénuos, brancos, determinados, sozinhos, como nós. Deve ser por isso que há tempos tive um sonho em que aparecia um insecto lindíssimo, com uma cauda lilás e uns olhitos brilhantes, que quando olharam para mim se transformaram numa menina linda. E atrás dela uma família inteira de insectos, escravos, lindos, a pedir acolhimento. Adoptámo-nos uns aos outros e ficámos um pouco menos sós.</P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <STRONG>5/2 </STRONG></P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Morreu Xenakis e cheguei a casa com vontade de ir pôr a tocar um disco dele. Não tanto para evocar, mas para tentar um elo que nunca encontrei, a ligação com um momento, com um impulso musical que tanto nos princípios se assemelha ao meu impulso narrativo (o jogo matemático não para ditar mas para multiplicar caminhos aleatórios infinitos) e tanto na realização dele se afasta. Mas isto dos impulsos tem muito que se lhe diga. À conta deles deixamos que a vontade enfraqueça, se torne incorrigível, tudo com o mais descarado dos sorrisos inocentes. E foi assim que ao procurar o lugar de Xenakis entre os discos deixei que a mão direita parasse nos Poemas Sinfónicos de Dvorják e já não os largasse por nada deste mundo.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; É que isto das afinidades e dos gostos, tal como os impulsos, também dá que pensar. Gostei dos Poemas Sinfónicos (tarde, tarde) ainda antes de saber que foram inspirados em histórias tradicionais checas e que o meu preferido &#8211; A Bruxa do Meio-Dia &#8211; fala da personagem sinistra que amedrontava os meninos malcomportados. Como o papão que espreita do telhado à espera que o bebé faça uma birra para não comer a sopa e foge ele próprio assustado com a voz da mãe a cantar uma cantiga de embalar para o menino dormir um soninho descansado. Gosto dos Poemas Sinfónicos indiferente ao papel que desempenharam na transição da música checa para a linguagem tonal do século XX que conduziu a Janácek etc. etc.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os impulsos, as afinidades, os gostos, as histórias ancestrais. É assim que a vida me vai timidamente alumiando.&nbsp; </P><P><STRONG>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; 27/2 </STRONG></P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Confesso que tinha comprado o livro, não sei há quanto tempo, mais pelo título &#8211; <EM>Contingência, Ironia e Solidariedade</EM> &#8211; do que pelo autor, Richard Rorty, de quem conhecia algumas referências mas não um livro completo. E a certa altura, em jeito de síntese da sua tese de partida, leio: <EM>uma sociedade liberal é uma sociedade que se contenta com chamar «verdadeiro» (ou «certo» ou «justo») ao resultado, seja ele qual for, de uma comunicação não distorcida, a uma perspectiva, seja ela qual for, que vença num encontro livre e aberto. Esta substituição equivale a pôr de parte a imagem de uma harmonia preestabelecida entre o sujeito humano e o objecto do conhecimento e, assim, a pôr de parte a problemática epistemológica-metafísica tradicional.</EM><br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Tão tentador, não é? aderir a uma concepção assim, como se pudesse trazer, qual aspirina, o alívio rápido e eficaz do tormento de questionar permanentemente o que é ser neste mundo. Mas então porque é que, mal passa o efeito do comprimido, a dor de cabeça volta sempre ao local do crime, da pergunta? Não me parece que venha só do cepticismo (da ironia?) a relutância à adesão. Virá da própria expressão que se pretende, com aplausos, definir? Não sei, mas não faz mal, não tenciono tomar a aspirina, resta-me ir continuando a perguntar enquanto leio.</P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <STRONG>5/3 </STRONG></P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A tragédia foi ontem à noite mas só hoje foi conhecida a sua dimensão e as causas começaram a emergir do lodo. A queda do pilar central da ponte de Entre-os-Rios sobre o Douro carregado de areia e fúria, abriu o abismo para os passageiros de um autocarro que voltava de excursão. Mais de sessenta cadáveres ainda por resgatar. E com a queda do pilar da ponte caiu o do governo, o bombeiro voluntário do PS, o ex-ministro do Equipamento Social, Jorge Coelho. De forma expedita e voluntária, num gesto de alcance político assinalável, muito provavelmente para se dedicar à construção de outras obras de engenharia mais ou menos civil.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Eu não tinha dito há dias que até os terramotos são diferentes neste mundo alheio às proporções? Também as outras iras da natureza o são, e em Portugal mandam ainda os prantos sobre os sustos. Porque tudo é muito velho e gasto, o dinheiro vindo da longínqua Europa não chega às causas públicas, os cuidados não chegam ao exterior das sedes dos partidos, governar é só uma forma de gerir os diversos poderes entre eleições. Nem a tragédia servirá para alguma coisa? Alguma vez mudará profundamente a perspectiva do exercício do poder?</P><P><STRONG>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; 21/3 </STRONG></P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Hoje, dia que oficialmente é o primeiro da primavera e na realidade o centésimo quinquagésimo deste inverno furioso, diz o jornal que são comemorados nada menos do que quatro dias mundiais: o da poesia, o do sono, o das florestas e o da eliminação da discriminação social. Considerando que a luta contra a discriminação é um dos meus exercícios quotidianos, que não tenho vocação para capuchinho vermelho e que mantenho uma relação cordial com as insónias, fico com a poesia, a minha eleita. Só que hoje não estou virada para lirismos. É que as cheias voltaram a soterrar pessoas, as águas do Douro engoliram de novo o autocarro e quase os esforçadíssimos mergulhadores, a plataforma petrolífera acabou mesmo por se afundar no Rio de Janeiro, a professora de português do Filipe mandou resumir a Odisseia em 15 linhas, a ETA fez a 29ª vítima desde o fim da trégua, Berlusconi está à frente nas sondagens, os Balcãs estão de novo à beira do abismo, os EUA «não forçarão a paz» no Médio Oriente. Hoje, 21 de Março de 2001, quero celebrar a poesia irada.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <EM>Venho falar por vossa boca morta./ Através da terra juntai todos/ os silenciosos lábios derramados/ e lá do fundo falai-me nesta noite/ qual se eu estivesse ancorado convosco,/ contai-me tudo, cadeia por cadeia,/ ou até elo por elo, e passo a passo,/ aguçai as facas que guardastes,/ colocai-as no meu peito e em minha mão,/ como um rio de raios amarelos,/ como um rio de tigres enterrados,/ e deixai-me chorar horas, dias, anos,/ idades cegas, séculos estelares.</EM> ( Pablo Neruda, Antologia).</P><P><STRONG>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; 4/5</STRONG></P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Atlas apoiou os Titãs, por isso foi condenado por Zeus a trazer os céus aos ombros para sempre.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Sísifo, trapaceiro e desobediente, foi condenado ao tormento eterno em Tártaro: obrigado a empurrar um pesado rochedo até ao cimo do monte. Quando está quase a aproximar-se do cimo o rochedo resvala e tudo volta ao princípio, para sempre.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mas Maria das Dores? Maria das Dores nunca nos seus setenta e cinco anos de vida foi traidora nem desobediente, pelo menos que constasse da reportagem televisiva onde entrou como parceira do protagonista e saiu arrebatando-lhe justamente a posição. Pelo contrário. Parceira obediente, ágil, leal, que falta terá ela cometido para merecer o castigo da pedra? A pedra que vai buscar ao mato e carrega às costas, mais de trinta quilos, vimos nós na reportagem. E quando deposita a pedra aos pés do amo, para ela, pedra, só, os olhos dele são, que de sublime acordo com as mãos a transforma em lindíssimas esculturas &#8211; uma eva, um adão, uma fama &#8211; arrancadas à matéria inerte pelo sonho do escultor. Para ela, Maria das Dores, só o nome que lhe deram e a esperança de que um dia. Havendo saúde já não se pode dizer mal da vida, mas o meu sonho era que o meu marido gostasse de mim. Sorri na direcção da câmara porque era uma vergonha aparecer a chorar na televisão. E no dia seguinte regressa ao mato, carrega às costas a pedra para depositar aos pés do artista que só por ela, pedra, se enamora. Carrega o sonho para oferecer ao velho sonhador.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp; </P><P><STRONG>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; 2/6 </STRONG></P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A fotografia a cores ocupa quase metade da primeira página do Público. À primeira vista confundi-o com um pequeno cantor prodígio &#8211; o microfone bem seguro nos dedos, os lábios cheios de luz entreabertos como numa cantiga. Depois li a brevíssima identificação - <EM>símbolo da luta contra a sida na África do Sul</EM> - e reparei no que estava inscrito sob o nome: duas datas que limitam o tempo, o registo da morte. Entretanto, claro, reparei nos olhos que convocam para o mundo o sentido oposto à crueldade e estremeci quando olhei para a primeira das datas inscritas sob o nome &#8211; 1989 &#8211; o ano do nascimento do meu filho. Tentei várias vezes guardar o nome num lugar mais seguro do que uma página de jornal, ainda que primeira. Nkosi Johnson, Nkosi Johnson, Nkosi Johnson, repetia, para nunca esquecer o nome do menino que morreu.&nbsp; Lembro-me de há uns tempos ter lido que a doença lhe tinha sido transmitida pelos pais, ambos também já mortos. E dou por mim a considerar muito correcta e ridícula a recentemente obrigatória licença de paternidade durante os cinco dias subsequentes ao nascimento. Porque entre pai e filho cinco dias não são nada, nem sequer doze anos, e um minuto, até o olhar breve de um segundo, pode ser a vida. Ou a morte, a sua coroação. Tudo o mesmo estremecimento de amor e mágoa. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Agora percebo que estava certa quando comecei por confundi-lo com um pequeno cantor prodígio. O que importa é reconhecer Nkosi Johnson &#8211; filho de John &#8211; como um menino só, num palco involuntário. Ou a mover ligeiramente o mundo no sentido oposto à crueldade, e seguir-lhe o caminho.</P><P><STRONG>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; 12/7</STRONG></P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O tocador debruçava-se para o coração da guitarra e queria ouvir o seu próprio coração. Ou talvez o coração de quem nele ouviu a melodia e o lume pela primeira vez. De quem se enleou, nervos e dedos, na música que nos chegava como o respirar. Fundo, penetrando as cordas, a música o próprio desespero, o único caminho. O respirar que se ouve até no discos e que os anima com a perfeição. Pedro Jóia tocava Carlos Paredes no pequeno auditório da FNAC do Cascaishopping, criando e deslumbrando com a memória do cansado criador. Apetecia nunca mais ouvir outro silêncio.</P><P><STRONG>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; 20/7</STRONG></P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <EM>- Mais est-ce qu&#8217;ils croient au bonheur, tous ces gens là?<br/></EM>É caso para fazer esta pergunta, fruto da curiosidade de Carole, uma das personagens de Jean-Claude Izoo («Vivre Fatigue»), perante a multidão que invadiu as ruas de Génova em protesto contra a globalização a propósito da cimeira do G-8. Eles reagem, todos, ao grito, ao pontapé, esperneando, como há tempos escrevi, mão na mão, punho cerrado, cabelos longos, curtos, palavras duras, impropérios, silêncios, em grupos do acaso, em bandos de (anti)globe trotters, amando-se e odiando-se entre si. Reagem todos, e isso é bom. Porque não se pode olhar para o espectáculo do mundo liberalizado sem virar a cabeça, vomitar ou resistir. É preciso que haja quem resista e apesar da estranheza talvez a esquerda, ou seja a força do inconformismo, seja agora isto. Agora é preciso ser intolerante, teimoso, barulhento, sagaz, mais forte do que a fortaleza das forças de segurança, mais visível do que as eternas estrelas, visível para defender os invisíveis, os que se mostram apenas quando a morte já tomou conta das imagens e nos vem rir na cara. É preciso resistir, ainda que através desta estranheza, desta heterogeneidade, deste excesso que ainda é diminuto, que ainda é inocente, perante a arrogância dos que mandam e dos que mandam nos que mandam.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <EM>- Mais est-ce qu&#8217;ils croient au bonheur, tous ces gens là?<br/></EM>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ou seja, será que deste movimento feito de vários movimentos reactivos sairá um projecto verdadeiro? Aqueles que, como eu, se organizaram, marcharam, pintaram paredes, cantaram em uníssono, por acreditarem&nbsp; cegamente na felicidade, e que agora têm dificuldade em aceitar outras formas de bater o pé, gostariam de pensar que sim. Gostariam de ouvir uma resposta diferente da que no livro (e no título respectivo) foi dada por Aurore:<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <EM>- Je vais te dire, quand t&#8217;es dans la merde jusqu&#8217;au cou, tu penses qu&#8217;à t&#8217;en sortir. Tenir jusqu&#8217;à la fin du mois. Et si t&#8217;as un boulot, tu te démerdes pour le garder.</EM></P><P><STRONG>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; 14/8</STRONG></P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quando começou, há quase vinte anos, eram só os ecos de uma maldição, uma partida pregada pelo bom deus. Era longe e com os ímpios, os impuros, os que merecem o castigo. Porque há uma ordem natural, macho e fêmea os criou dizendo crescei e multiplicai-vos. Multiplicai-vos à medida da vossa fome, do vosso desatino, para isso vos dotei com o livre arbítrio e lavo as mãos como alguns o farão por mim e pelo meu nome. Multiplicai-vos, disse, macho e fêmea, toda a falta a este mandamento será duramente castigada. Assim parecia ser, naquela atura, e nós a salvo. Quando soubemos da contaminação dos hemofílicos talvez o nosso comum senso de justiça tenha levado um soco, mas ainda eram os outros, desta vez os excluídos da sorte, de tal modo que a indignação não chegou para punir os responsáveis. Só muitos anos depois é que soubemos que todos nós somos suspeitos em vias de ser capturados num deslize. Um pequeno descuido, uma pequenina confiança, pode ser a morte do artista quando jovem. Claro que &#8211; deus quando dá o mal aos seus filhos dilectos também dá a mezinha &#8211; nessa altura já a indústria farmacêutica andava atrás de fórmulas lucrativas e acabou por encontrar maneira de pagarmos por uma doença crónica. Regressou o conforto às nossas almas que anseiam por um lugar no céu e noites de festa sem maus sonhos. Os outros, os excluídos da sorte, também hão-de dormir em paz e ganhar o céu, à sua maneira. Leio no «Público» que Portugal é o país da Europa com a maior incidência de sida. Não percebo por que razão me terá desgostado o primeiro impacto da notícia. Demasiado perto de África e da sua desdita, demasiados anos protegidos por deus.</P><P><STRONG>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; 11/9</STRONG></P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Hoje começou o século. Todos vimos, incrédulos, em directo, como o século começou: os aviões despenhando-se sobre a cidade mais alta do planeta, a invenção da morte como nenhum profeta imaginou. Daqui a dois mil anos que nome se dará a esta guerra, a esta era da pré-história? Haverá ainda alguém para a nomear?<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <br/><STRONG>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; 12/9</STRONG></P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nem o mundo nem eu conseguimos ainda entrever um raiozinho de luz. Nenhum de nós saiu ileso dos escombros. Todos estamos cobertos de pó e sangue aberto numa ferida comum, alheia ao ADN. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Será a guerra entre o bem e o mal, como lhe chamou G.W. Bush, o que vem a seguir? Mas não é essa a guerra sem vitória que se renova em cada instante, em cada fragmento do humano, desde que humanos nos reconhecemos? Porque nos parece tão decisivo este momento? Talvez porque nunca antes tivemos tantos instrumentos para enxergar o abismo à nossa frente e decidir como enfrentá-lo. Talvez seja preciso então usá-los com rigor, não regressar ao primitivo instinto, encontrar as respostas no que frutificou ao longo de vários séculos de interrogações, nesse pequeno núcleo de valores que com tanto sofrimento julgamos ter adquirido, já que é em nome deles que a luta se prepara. Julgar e punir os responsáveis, estejam onde estiverem, claro. Todos eles, sobretudo os que, tomados pela soberba invejosa e cruel, em nome de deus mandam morrer. Preservar o futuro. Mas não interromper a reflexão. Discernir qual é o mal, onde está o inimigo, antes de o reduzir a um rosto acobreado e a um nome, seja ele Bin Laden ou Islão, pois que tal inimigo se aproveitou de cada encolher de ombros, de cada proclamação omnipotente, para entre nós achar acolhimento.&nbsp; Opressão, cegueira, terror, onde quer que se alojem, é este o círculo a romper e urge aproveitar o momento para o tentar. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Longas noites se esperam, curto tempo. Uma mão para sacudir o pó dos olhos, a outra para nascer neste lugar de ausência.</P><P><STRONG>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; 8/10</STRONG></P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Difícil tomar uma posição estruturada perante a guerra que de repente tomou conta de nós. Porque somos contra a morte e contra o ódio que se geram um ao outro, porque nos repugna a devastação da inocência e a expressão danos colaterais para a designar, porque sabemos que não resolverá os problemas essenciais. Mas que fazer? Ao vir de microfone em punho e dedo em riste dizer ao mundo que a América nunca mais terá paz, Bin Laden ajuda Bush a sustentar a legítima defesa que invoca&nbsp; para justificar o ataque, proclamando o elemento que lhe podia faltar &#8211; a actualidade da agressão. Ao aparecer assim desafiando o mundo e condenando-o à catástrofe é Bin Laden quem reitera a declaração de guerra que lançara a 11 de Setembro, é ele quem justifica a insustentável construção do «good against evil». «Quem intercede pelo bem, participa do bem. Quem intercede pelo mal, participa do mal. Deus tem poder sobre tudo» (Alcorão, 4,87). Não há outra divindade a não ser Deus e Bin Laden é o seu Profeta.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Já escrevi neste diário que todo o poder precisa de inimigos e Bush parece milagrosamente ter encontrado o inimigo à medida da sua ambição. Queridos inimigos, G.W. e Bin Laden, que mutuamente se ajudam a realizar os respectivos impulsos de poder. Bush encontrou o inimigo certo para pôr em prática os seus desígnios hegemónicos com todo o mundo a aplaudir de pé. Eu continuo sentada mas não consigo alinhar com as posições que condenam o ataque só por ele ser americano, sob o pretexto de que a política arrogante da América tem, como efectivamente tem, responsabilidade pela situação criada, sem avançarem uma eficaz alternativa. Pergunto-lhes então o que fazer contra o domínio da barbárie terrorista e eles balbuciam «medidas de carácter político», «ONU», «espiral de violência», «civilização islâmica». Tudo isso é verdade, mas.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mudanças políticas, claro, mas evitarão próximos ataques terroristas a alvos inocentes com aviões ou gases ou bactérias fatais? A ONU &#8211; o seu Conselho de Segurança, a própria China &#8211; já caucionou a acção americana. A espiral de violência bárbara tem origens antigas e diversas mas só fez a sua entrada triunfal no dia 11 de Setembro: milhares de inocentes mortos numa manhã em contexto de paz não tem precedentes nem perdão. Não se trata de atacar a civilização islâmica, cuja individualidade digna de respeito nem se põe em causa, até porque Bin Laden e os seus cúmplices talibãs são uma excrescência, apenas dela se servem como uma referência de legitimação para os seus actos hediondos.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Com desgosto sou levada a crer perante estas posições resguardadas por um pseudo-pacifismo infrutuoso que tantos anos a tentarem convencer-se a si próprios de que certos fins justificam quaisquer meios, levam uma certa esquerda a involuntariamente secundarizar o horror terrorista relativamente ao impulso antiamericano, sem ter assumido como seu o combate fundamental pela liberdade, afinal o mesmo que há-de levar-nos a rejeitar qualquer tentação de postergar direitos essenciais em nome do conforto securitário.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Sejamos claros: o facto de termos razões de sobra para vociferar contra a hegemonia americana e o sofrimento que tem causado ao mundo não nos deve levar ao erro de alinhar com tudo o que se lhe oponha, muito menos com criminosos tiranos que adoram a morte em vez da vida, em vez de Deus cujo nome em vão invocam. Toda a diferença deve ser tolerada, assim nos ensinaram os princípios tão indelevelmente inscritos em nós que às vezes não reparamos que se trata de grandes aquisições civilizacionais, e é precisamente para os defender que devemos considerar intolerável não a diferença mas o crime.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Desolador este espectáculo do mundo. Deses-perante, porque já não o vamos conhecer melhor. Inabitável. Pré-histórico, na melhor das hipóteses. Tantos passos atrás. Em que caminho?</P><P><STRONG>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; 26/10</STRONG></P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No dia em que os EUA bombardearam pela segunda vez as instalações da Cruz Vermelha em Cabul, arrasando os mantimentos destinados aos refugiados, no dia em que os talibans executaram um opositor histórico do regime em vias de negociar uma aceitável alternativa à iniquidade, no dia em que o antrax alastrou na Casa Branca, no Senado, na CIA, na Estação Central dos Correios, causando mais vítimas mortais, no dia em que tudo isto acontece<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os bonés amarelos e os chapéus espalmados dos enólogos, para identificar aquela espécie de neobacantes senis e masculinas, a vociferar em frente da Assembleia da República. E são os dos bonés amarelos e os dos trajes medievais e os camionistas e os taxistas e o ministro da Agricultura e o ministro da Economia e o ministro da Saúde e o Campelo do queijo e do gabinete para analisar o Orçamento e a CGTP e a UGT e o PSD e o PP e a maioria da bancada socialista e os outros que não têm coragem de falar alto mas também não concordam, acham excessivamente baixa, acham um escândalo, um desastre para a economia nacional, um desastre para as noitadas, um desastre para eles. Tudo por causa da descida para 0,2 g/l da taxa de alcoolémia permitida na condução de veículos. Já falei com abundância e ira neste diário sobre o desgosto que me causa a idolatria do automóvel. A sinistralidade nas estradas portuguesas é um dos mais trágicos indícios do triste rumo do país: sub-paraíso fiscal plantado à beira estrada para que cada português, isolado do mundo, saiba ascender à suprema glória de empunhar numa mão o volante, na outra o telemóvel. As trágicas consequências dos acidentes ( porque é que ainda se chamará «acidente» a um acontecimento tão previsível e banal como este?) de viação, muito superiores em gravidade e número às do antrax, só não põem em pânico dez milhões de portugueses porque só os outros dez milhões é que não sabem conduzir. Claro que não é só o álcool o responsável, mas nunca um comprovado co-autor foi absolvido por fuga dos restantes. Procurem-se e capturem-se também, com cartazes e fotografias e carimbos, ao jeito dos americanos, e já agora com mais tino e afinação do que aqueles que parecem ter as tropas deles (assim não vamos lá). Mas quanto ao álcool criminoso, muito bem capturado nos 0,2, não cedamos às cunhas. E ponham-se na estrada brigadas de fiscalização, com aparelhos actualizados e fiáveis para fazer as medições.</P>
<H3 align=left>"O Teatro, a Justiça e o Gajo da Judiciária"*</H3><H4 align=right>por&nbsp;Álvaro Laborinho Lúcio (pp. 189-190)</H4><P><STRONG><EM>(Crónica)</EM></STRONG></P><P><br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Era 1978! K... descera de Coimbra com a missão de instalar e dirigir a recém-criada Escola de Polícia Judiciária, apropriadamente acomodada, ainda que provisoriamente, ali na Marquês da Fronteira, entre a Penitenciária e o Palácio da Justiça ... Era &#8211; repito &#8211; 1978! Formar um polícia, ainda que de investigação criminal, não era a mesma coisa que... continuar a formar polícias, mesmo que fossem de investigação criminal. Afinal era sempre de polícias que se tratava e &#8211; não esqueçamos &#8211; era 1978!<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; K... sentia que a imaginação podia ambicionar, agora com maior probabilidade, chegar, ainda que por momentos, ao Poder e acreditava mesmo que só assim o Poder se transformaria, ele próprio, em objecto de mudança. Ensinar filosofia a um candidato a polícia parecia-lhe, por isso, tão elementar como ministrar-lhe aulas de tiro. Nenhum polícia atira bem se não sabe por que razão atira, isto é, se não for ele, ele mesmo, a atirar, ele todo, para além do olho e do dedo indispensáveis à garantia do disparo certeiro. Atirar bem não é uma questão de pontaria, mas de consciência. Assim pensava K... talvez porque era 1978!<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Exactamente em 1978, a <STRONG>Barraca</STRONG> levava à cena, como sempre pela mão de Helder Costa, o <STRONG>Zé do Telhado</STRONG>. Ora, nada melhor para suscitar a desejável atenção crítica de um futuro polícia, do que assistir à representação como se de uma verdadeira aula se tratasse...<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Foi então, numa tarde de Junho igual às outras, que K... se dirigiu à Alexandre Herculano para adquirir os bilhetes, se possível todos, para o espectáculo do dia seguinte. Entre tabiques, logo à entrada, do lado esquerdo, uma jovem desalinhada (era 1978), ocupava a proposta de bilheteira que o tabuado envidraçado sugeria.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Muito boa tarde ... (pausa), Queria saber se é possível reservar, para amanhã, todos os bilhetes... (pausa) É para trazer os meus alunos ... (pausa longa), sou o director da Escola de Polícia Judiciária.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Num movimento sinuoso e esguio a jovem desalinhada levantou-se e caminhou às arrecuas para a pequena porta do fundo. Evoluía lentamente, com os olhos pregados em K... e com um sorriso sem expressão que lhe servia apenas de transporte até desaparecer. Desaparecer da vista, que não do ouvido, já que foi em aflitiva estridência que gritou para dentro:<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; - Ó Helder! Está aqui um gajo da Judiciária!...<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Com a turbulência que se seguiu em fundo, contrastava a serenidade do Zeca Afonso, debruçado sobre a viola, e recolhido a um canto, dali ausente, perseguindo vampiros e em busca de meninos de oiro!<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; - Então o que é preciso?! - Foi assim que o outro perguntou. E a longa explicação de K... sem ter gerado, é certo, total tranquilidade, foi, porém, suficiente para garantir a reserva dos bilhetes. De todos os bilhetes ... isto é, de quase todos. É que, no dia seguinte, juntamente com os alunos e o director da Escola de Polícia Judiciária, assistia ao espectáculo, acompanhado por discreta comitiva e a convite da <STRONG>Barraca</STRONG>..., o general Vasco Gonçalves...<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O Helder, com alguma excitação mal contida, circulava entre a assistência e ria garantindo aos seus a pública comicidade de algumas passagens, enquanto o Mário Viegas, nessa cena, fazendo de Guarda da Rainha, ao recrutar &#8220;braços fortes&#8221; para a &#8220;tropa&#8221;, lhes prometia, dentro do texto, &#8220;comida e dormida, um tanto por mês, farda e principalmente, principalmente, a estima de Sua Majestade&#8221;, e, fora do texto, entrada para a polícia e bilhetes à borla para o teatro!<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Que rica aula!<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em 1 de Janeiro de 1983 entra em vigor um novo Código Penal. Mais uma vez a mudança adquiria contornos culturais profundos exigindo, além de um esforço de actualização no domínio da técnica jurídica, uma nova reflexão também ideológica diante de um diploma legislativo que&nbsp;partia do pressuposto </P><P align=center><IMG src="./archive/alvarollucio_1.jpg"></P><P>de que &#8220;toda a pena tem de ter como suporte axiológico &#8211; normativo uma culpa concreta&#8221; e de cunho radicalmente humanista que resultava da afirmação de serem &#8220;os homens compreendidos como estruturas abertas e dialogantes capazes de assumirem a sua própria liberdade&#8221;.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Por isso que a Gulbenkian se tenha disposto para as Jornadas sobre o Código Penal como Acontecimento Cultural e, então, tenha sido já mais naturalmente aceite que, também sobre tal objecto, se pronunciassem Alçada Baptista, Abelaira ou Isabel da Nóbrega; que um debate sobre o &#8220;Zé do Telhado&#8221;, tivesse reunido à mesma mesa António Lopes Ribeiro, Helder Costa e K..., ou o gajo da Judiciária; e que Luís Francisco Rebello tivesse proferido uma confe-rência sobre &#8220;A Crimi-nalidade no Teatro Por-tuguês&#8221;.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Entre Justiça e Teatro ia-se, assim, urdindo uma aproximação que não era mais, afinal, do que o reconhecimento agora renascido, daquilo que o tempo há muito havia fixado. De facto, &#8220;quem olhar atentamente verá, lá longe, nos confins da História, Calígulas e Antígonas, Édipos e Prometeus que, pelas mãos de Sófocles ou de Ésquilo e perante a imagem tutelar de Témis, mulher de Zeus, tecem ainda essa teia onde um dia se deixaram prender e ficaram para sempre cativos da cultura, o Teatro e a Justiça&#8221;.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; E foi assim que, na formação de magistrados e no interior mesmo da sua escola se cruzaram textos como os da Bilha Quebrada, de Maria Não Me Mates Que Sou Tua Mãe, da Excepção e a Regra, do Dissidente Só, de Um Dia Na Capital Do Império, com nomes como os de Kleist, de Fernando Gomes, de Brecht, de Michel Vinavert, de António Ribeiro Chiado e, de novo, de Zeca Afonso e de Mário Viegas. </P><P align=right><IMG src="./archive/alvarollucio_2.jpg"></P><P>Este último feito Baal, peça maldita do Pobre B. B. e em cujo desempenho o Mário levava o Teatro à genialidade que só a Justiça absoluta se permite tentar igualar. Ainda assim, com importantes diferenças. Por um lado, segundo o pensamento de Roland Kessous, &#8220;no teatro quando acaba de se representar a última cena, sabe-se que se regressa à vida real, enquanto na vida judiciária, terminada a cena derradeira, nada se apaga e frequentemente há homens e mulheres que saem magoados&#8221;. Daí a necessidade de uma formação de magistrados que, sem descurar a preparação essencialmente técnica que assegura competência, não deixe de conceder especial atenção ao desafio da cultura indispensável à compree-nsão crítica do mundo e da vida, da sua evolução e da sua história, das suas grandezas e misérias.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mas se é assim por um lado, por outro é também urgente reaprender a força e o papel daquilo a que Bernard Dort chama &#8220;Os Poderes do Teatro&#8221; e encontrar aí uma outra forma de realidade.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A que nos é dada, por exemplo, pela Saudade, com a qual, Bruno Bayen, identifica &#8220;o momento de maior comoção do teatro&#8221;. Saudade enquanto visitação da memória, saudade enquanto perpetuação do tempo e da sua gente. Saudade, assim, enquanto justiça.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Para ser aí, onde o Judiciário julga e afirma o que é mortal e transitório e por isso se transforma tantas vezes num injusto concreto, que o Teatro projecta o imaginário como caminho de imortalidade e de Justiça. Para ser assim, então, pela mão do Teatro e da sua Poesia, que hoje, quando já é 2001, seja possível ainda olhar para K... inclinado sobre os tabiques de uma pobre bilheteira e ouvir uma jovem aflita e desalinhada gritar para dentro:<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; - Ó Zeca... Ó Mário ... está aqui um gajo da Judiciária!<br/>&nbsp;</P><P align=right><STRONG>* Não inédito</STRONG></P>
<h2>Nº 10 - Série 3 - Julho 2002</h2><p align="center"><a href="http://picasaweb.google.pt/lh/photo/qFJTr3LuL3P4Ll6Zblu6sQ?feat=embedwebsite"><img src="http://lh5.ggpht.com/_1tggD33jlcU/SrnsSyi0kCI/AAAAAAAAARc/VNtjrzX9nh4/s800/mealibra_10_capa.jpg"></a><br/></p><ul><li><div align="left"><a href="/ccaminho/pt/?&amp;download=m10_sumario.pdf">Sumário</a></div></li><li><div align="left">Teolinda Gersão - <a href="/ccaminho/pt/?Edi%E7%F5es%3A_Mealibra/N%BA_10_-_S%E9rie_3_-_Julho_2002/%22Big_Brother_Isn%26acute%3Bt_Watching_You%22">"Big Brother Isn't Watching You"</a>, de Teolinda Gersão (pp. 19-22)</div></li><li><div align="left">Teolinda Gersão - <a href="/ccaminho/pt/?Edi%E7%F5es%3A_Mealibra/N%BA_10_-_S%E9rie_3_-_Julho_2002/%22A_dedicat%F3ria%22">"A dedicatória"</a>, de Teolinda Gersão (pp. 23-25)</div></li></ul>
<H3>"Big Brother Isn&acute;t Watching You"</H3><H4 align=right>de&nbsp;Teolinda Gersão (pp. 19-22)</H4><P align=center><IMG src="./archive/teolinda_gersao_0.jpg"></P><P><STRONG><EM>(Ficção)</EM></STRONG></P><P>&nbsp; Escolhemos a Tânia porque não fazia falta, era muito bronca e parada, via-se logo que nunca iria fazer nada na vida. Foi por isso que pensámos nela. Podia ter sido a Elizabeth, a Carina ou a Vanessa. Mas a Elizabeth jogava bem ao volley, a Carina pagava-nos cervejas e a Vanessa tinha namorado. A Tânia era a melhor para ser morta porque não andava no mundo a fazer nada. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Foi só por isso que a escolhemos, não havia nenhuma razão especial, nem tínhamos nada de pessoal contra ela. Podia ter sido outra qualquer. Calhou ser ela. Só isso. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A Germana ainda disse que nos podiam pôr numa casa de correcção ou irmos a tribunal, mas a Celeste disse que da casa de correcção a gente também fugia e quanto ao tribunal que se lixasse. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Isso foi da primeira vez que tocámos no assunto, mas não era a sério, estávamos só a dizer coisas da boca para fora. Na verdade nessa altura não tínhamos intenção de matar a Tânia. Estávamos só a pensar como seria se a matássamos. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Podíamos ter falado de outras coisas, se não estivéssemos fartas de falar sempre do mesmo. Do pai da Andreia, que se enfiava nela, do irmão da Débora que ia de manhã para a metadona e depois ficava todo o dia em casa a fumar e a ver televisão, da mãe da Sheila que esvaziava garrafas de aguardente e as escondia debaixo da cama, da minha avó, que não se dava com a minha mãe, embora tivesse que viver connosco porque não tinha casa, e gritava com a minha mãe e a minha mãe batia-lhe e era todos os dias a mesma coisa, além do caminho casa-escola e escola-casa. Do pai da Germana, que tinha sido despedido há dois anos e nunca mais arranjava outro emprego, do pai da Celeste que passava os dias no computador e nunca falava, da mãe que vagueava pela casa e não ouvia o que lhe perguntavam, da casa da Celeste, que ficava num bairro caro e tinha tudo o que se podia desejar, frigorífico, vídeo, gravador, carro na garagem e garrafas de champanhe na despensa. Podíamos ter-lhe chamado novamente estúpida por não aproveitar o que tinha, mas já nem valia a pena repetir-lhe isso, a Celeste encolhia sempre os ombros e dizia que se aborrecia de morte como nós. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ou podíamos ter falado da escola e gozar com a aflição que a gente tinha dantes, por não passar. Agora a gente ria-se mas é da escola, e tanto se nos dava passar ou não, eram tudo balelas o que lá se aprendia, que se fodessem os Lusíadas, a gente tinha mais que fazer na vida. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A gente tinha era que viver e não estava a viver nada, era tudo muito chato e sempre igual. A única coisa diferente era a droga e a gente achava que também iria entrar nessa, mas por enquanto ainda não, só uns charros para passar o tempo, porque também havia muita chatice na droga, se bem que agora já tudo era mais fácil, porque a sociedade tinha passado a ser menos repressiva e mais livre, com salas de chuto e tudo o mais, mas tirando esse progresso tudo na vida era uma chatice e a gente não tinha aonde se agarrar. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No entanto algumas pessoas tinham vidas boas. Bastava ver as revistas: mulheres de vestidos de seda até aos pés, artistas de cinema, banquetes e desfiles de moda, raparigas lindíssimas de biquini e saltos de dez centímetros a serem beijadas por homens bronzeados, de tronco nu, à beira de piscinas, jovens lindos de morrer em carros descapotáveis que a seguir apanhavam um avião para as Caraíbas, deslizavam em pistas de ski ou tomavam drinks ao pôr do sol em Miami. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Há dois anos a Adelaide sonhava ser modelo e a Rute em ser miss. Nessa altura só tínhamos doze anos e não percebíamos nada do mundo, achávamos que bastava sermos bonitas e magras e estarmos prontas para ser fotografadas a sorrir. Colávamos fotografias de modelos na parede e imitávamos as poses. Eu fazia caras e gestos, a Celeste desabotoava a blusa e punha o peito para fora, a Germana levava as mãos diante dos olhos, como se fosse uma máquina, e fingia que disparava. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Conseguimos ficar magras porque não comíamos pão nem doces e bebíamos vinagre ao pequeno almoço, e quando não aguentámos mais pedimos ao tio da Adelaide que nos tirasse fotografias. Não ficaram mal, achámos até que podíamos ter chances. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nessa altura o Zeferino falou-nos de um concurso que ia haver na televisão, para entrar numa novela, tinham anunciado à noite, depois do noticiário. Ficámos loucas e fomos confirmar. Era tudo verdade e mandámos as fotografias, mas não fomos escolhidas. Depois disseram que tinham aparecido dez mil a concorrer. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A Rute chorou e a Adelaide não comeu a semana inteira. Como era possível conseguir alguma vez qualquer coisa se se tinha sempre de lutar contra dez mil. Como se ia conseguir alguma vez ser a mais bonita, a mais esperta, a mais sorridente, a mais magra, a mais simpática, a mais sexy, a de saltos mais altos e peito mais levantado no biquini, ou todas essas coisas juntas. A vida era muito difícil e o melhor mesmo era desistir logo de tudo, disse a Rute. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Então o Zeferino falou-lhes do negócio dos filmes, era só despir-se e fazer umas cenas e ser fotografado ou filmado, não custava nada e ganhava-se do bom e do melhor e era um começo de carreira, depois ficava-se conhecido e podia-se logo ser actriz. Eu e a Germana também quisemos ir, mais a Celeste, mas o Zeferino escolheu a Rute e a Adelaide porque eram mais bonitas e nós ficámos cheias de raiva. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mas isso foi há dois anos e não nos parece que elas tenham dado em grande coisa, deixaram de nos falar e dão-se grandes ares, mas andam cheias de olheiras e parecem velhas e quem subiu na vida foi o Zeferino, que até comprou um carro novo. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O que interessa é ter sorte. Pode-se gamar numa loja e arrecadar para o resto da vida sem ser apanhado, ou ganhar na lotaria. Ou ir à televisão, e ganhar cem mil numa noite. É só ter sorte. Ninguém sabe responder às perguntas que lá fazem, responde-se ao calhas e às vezes ganha-se. Ou pode-se entrar noutro jogo, na televisão: empurrar uma roda gigante e acertar num número. Mas ser escolhido para entrar no jogo também é uma questão de sorte. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A madrinha da Arlete ouve todas as manhãs o programa da mala. O telefone toca e alguém diz: Daqui fala a rádio, quanto dinheiro tem a mala? Quem acertar ganha. À madrinha da Arlete nunca telefonaram, no entanto ela passa as manhãs a ouvir para se manter informada. Se um dia lhe perguntarem, a vida dela muda. Por isso não desiste de ligar o rádio. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Melhor ainda que a rádio é a televisão. Um telefonema da televisão pode mudar a vida a qualquer um. Dizerem por exemplo: Você vem ao concurso. Aí já se tem tudo pago, é só andar em frente. Os da televisão têm cabeleireiro, maquilhadores, manicures, dizem que até dão o dinheiro para comprar roupa para se ir ao programa. E as lojas também oferecem tudo a quem lá vai. Se não, qualquer vizinho empresta. Para parecer bem na televisão não se regateia preço. Todos sabem que depois se fica rico e a quem é rico ninguém recusa nada. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quem aparecia na televisão estava safo, dissémos. Os que lá andavam sempre nunca eram apanhados nem iam para a prisão, mesmo quando cometiam crimes e lhes punham processos. Arranjavam sempre modo de escapar, toda a gente sabia. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Foi por isso que não nos preocupámos quando a Germana falou em casa de correcção e tribunal. Até porque não estávamos a falar a sério em matar a Tânia, pensávamos nisso como se estivéssemos sentadas num sofá, a olhar para um écran. Víamos tudo muito claro, mas depois era como se bastasse carregar num botão para as coisas voltarem a ser como antes. Ela estar viva ou morta dependia de carregar num botão. Não era verdade, mas pensávamos como seria se fosse. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Punham fotografias nossas nos jornais, íamos aparecer nos noticiários e ser entrevistadas e estar nas bancas, nas capas das revistas, e escreviam livros sobre nós. Nunca nos havia de faltar emprego, de resto nem precisávamos de emprego porque se ganhava muito dinheiro só com ir à televisão e ser fotografado e fazer declarações e falar. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Matar a Tânia não ia ser difícil, era só escolher a melhor maneira. Íamos por exemplo apanhar o metro com ela e empurrávamo-la numa estação, um segundo antes de passar o combóio. Ou deitávamo-la abaixo da janela da casa da Vanessa, que vivia num prédio de doze andares. Dissemos. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mas no metro havia o risco de não se saber que tínhamos sido nós a empurrá-la, podia pôr-se a hipótese de suicídio, todos os dias aconteciam coisas dessas. Com toda aquela gente apinhada nas plataformas, era difícil haver testemunhas a ver-nos empurrá-la. Na janela da Vanessa, havia o inconveniente de ela também querer participar, uma vez que emprestava a casa. Mas quatro pessoas era demais para nos darem atenção suficiente, três era o máximo para este tipo de coisa. Pelo menos foi o que pensámos. <br/>&nbsp;&nbsp; &nbsp;&nbsp;Então lembrámo-nos do envenenamento. Veio-nos à cabeça várias vezes, pusemos a ideia de parte mas depois ela voltava, e a certa altura o dia a dia parecia-nos distante, a minha avó, a mãe da Celeste, o pai da Germana passavam por nós de fugida, sem peso, como se também eles fossem imagens num ecran. Olhávamo-los sem os ver, deixámos de ligar ao quotidiano, estávamos ligadas a outra coisa. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Veneno de ratos, pensámos primeiro. Mas devia ter uma sabor tão mau que a Tânia dava conta. Então pensámos em comprimidos para dormir. Bastava ir roubando alguns das embalagens, até juntar uns cinquenta. Toda a </P><P align=right><IMG src="./archive/teolinda_gersao_1.jpg"></P><P>gente tomava &#8211; o pai da Germana, a minha avó, o meu tio Arlindo, o pai da Celeste, a mãe da Adelaide. Fomos tirando aos poucos, agora um e depois outro. Não era difícil. Não era mesmo nada difícil, verificámos. Em poucos dias tínhamos um frasco quase cheio. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; E depois era só dissolvê-los e metê-los numa garrafa de leite com chocolate. Não se ia notar alteração no sabor. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Também era fácil fazê-la engolir o chocolate. De certeza que sim.&nbsp;<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Era mesmo tão fácil que quase não demos conta de ter acontecido.Aconteceu, simplesmente. Sem percalços, exactamente como tínhamos pensado. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Fizemos uns dias antes uma espécie de ensaio. Convidámos a Tânia para vir passear connosco, ela aceitou logo, porque nunca ninguém a convidava para nada. Estava contente e não desconfiou de coisa nenhuma, como podia desconfiar? Fomos caminhando por uns campos vagos, não muito longe da escola, um bom pedaço antes dos prédios que andam a construir. Não nos aproximámos dos prédios, embora quando saímos da escola já lá não houvesse operários, estava tudo sossegado, não se ouvia o barulho das máquinas. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A Tânia sentou-se numa pedra e demos-lhe do nosso lanche : pão, uma maçã e uma garrafa de leite com chocolate para cada uma. Comemos e bebemos e tudo se passou normalmente. Não havia razão para não ser igual quando a convidássemos outra vez, pensámos. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ela veio logo connosco quando a convidámos, alguns dias depois, e parecia ainda mais contente, como se ir passear e lanchar connosco se estivesse a transformar num hábito. Perguntou-nos se íamos convidá-la mais vezes e ficou contente quando lhe dissemos que sim, porque até aquela altura ela nunca tinha encontrado companhia para nada, andava sempre sozinha. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Talvez por gratidão devorou o lanche com tanto entusiasmo e bebeu o leite até à última gota. Estávamos alegres e ela sentia-se à vontade. Tinha encontrado, finalmente, amigas e até nos parecia menos feia e atrasada. Era, sobretudo, obediente, fazia exactamente o que nós queríamos, quase sem precisarmos de lhe dizer nada. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Agora começava, por exemplo, a sentir sono e a ficar tonta, e, antes que se sentisse mal, gritasse por socorro ou chorasse, deitámo-la no meio de nós, encostámo-la a uma pedra e pusemos-lhe a cabeça por cima da mochila e de um casaco dobrado, para ficar mais confortável. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Perguntámos-lhe se estava bem e ela disse que sim, como se tivesse receio de nos desagradar, ou medo de que fôssemos embora e a deixássemos ali sozinha. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ficamos contigo, dissémos, adivinhando o que ela pensava. Não tenhas medo e dorme. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Fizémos-lhe festas na cara, ela acenou com a cabeça e disse que se sentia mal. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Revirava os olhos e começou a ter vómitos, mas acabou por não vomitar porque entretanto ficou meia a dormir, mas continuava a gemer, virava-se para um lado e para o outro, com movimentos aflitos, e de vez em quando tinha uns arranques do estômago, fazia movimentos descontrolados e ouvia-se a respiração mais forte. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Parece um peixe fora de água, disse a Celeste, provavelmente está com dores. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Depois sossegou mais até parecer dormir profundamente. Então pegámos-lhe, a Germana segurou-a por debaixo dos braços, eu levantei-a pelos pés e levámo-la para o meio de umas ervas altas, logo mais adiante. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Deixámo-la ficar, tapada com o casaco da Germana, porque assim iam ter a prova de que tínhamos sido nós. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Só em casa nos assustámos com a ideia de que ela podia não morrer. Nessa altura teríamos tido todo aquele trabalho para nada. Tentativa de assassinato não seria notícia, porque tentativa de suicídio também não era. A não ser que se tratasse de uma grande estrela a tentar suicidar-se. Então já podia ter algum interesse como notícia, mas mesmo assim muito menos do que um suicídio verdadeiro. Tentativa de assassinato não era nada. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assustámo-nos deveras e ficámos com raiva dela. Era tão desastrada e estúpida, saía-se sempre tão mal em tudo que podia falhar mais uma vez e não morrer. A ideia era tão aterradora que nos arrependemos de não ter escolhido a Vanessa, a Elizabete ou a Carina. Com tantas outras possíveis, tínhamos logo que escolher a Tânia. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Adormecemos a pensar que ela ia voltar à escola, no dia seguinte. Abrir a porta, atrasada como sempre, com ar de quem em anda no mundo por ver andar os mais, e sentar-se outra vez no fundo da sala, meio de lado na carteira, apática, olhando sem entender, como se continuasse a dormir. Ela ia voltar, tínhamos a certeza. Continuar como até aí, uma espécie de morta viva, com quem ninguém se importava.&nbsp;<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mas ela não voltou, nem nesse dia nem no outro a seguir. Embora de cada vez que a porta se abria nós quase gritássemos, com medo de que fosse ela. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Não era, e aparentemente não se dava pela sua falta, porque ninguém notou a sua ausência nem perguntou por nada. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Só ao terceiro dia a notícia saiu no jornal. Foi a Carina que ouviu no café, e veio contar:<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;Vocês sabem, a Tânia. Apareceu morta. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Saímos logo e fomos para casa, respirando de alívio . Amanhã vão saber que fomos nós. Hoje ainda, talvez. Ficou o casaco e a mochila. Basta seguirem a pista e vão-nos descobrir. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;Mas podiam vir, estávamos preparadas. Tinhamos emagrecido, comprado roupa nova, mudado a cor do baton e escolhido outra sombra para os olhos, que não nos íamos esquecer de abrir o mais possível, debaixo da luz dos flashes. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; E então foi tudo como tínhamos pensado: de repente eles aí estavam, carros, altifalantes, luzes, locutores, polícia, fotógrafos, páginas de jornais com grandes letras: <STRONG>Adolescentes Matam Colega . Malefícios dos Mídia. Juventude à Deriva. Ausência de Valores. Falência da Escola. Onde estavam os Pais?</STRONG><br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Tem sido assim, cada vez se fala mais e ninguém está de acordo, todos os dias nos fazem interrogatórios, são ouvidos psicólogos, psiquiatras, professores, pais, colegas, polícias, vizinhos, e há cada vez mais interesse e mais público, porque somos um caso mediático. Exactamente como tínhamos pensado. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Talvez a gente fique algum tempo atrás das grades, numa colónia correccional, continua a dizer a Germana. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mas nenhuma de nós tem medo nem está preocupada. Temos a certeza de que tudo vai acabar com um belo pôr do sol em Miami. </P>
<H3>"A dedicatória"</H3><H4 align=right>de&nbsp;Teolinda Gersão (pp. 23-25)</H4><P><STRONG><EM>(Ficção)</EM></STRONG><br/></P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Pois como a senhora há-de ter reparado, deixei passar toda a gente, fiquei para trás de propósito. Fui-me pondo de lado, nem estava nem deixava de estar na bicha, até ser o último da fila. Já nem sei como se deve dizer, agora diz-se muito fila. Deve ser das novelas, vem-nos logo à cabeça que bicha é palavra feia. Mas eu queria falar de outra coisa muito diferente, provavelmente vai parecer-lhe absurda. Foi por isso que fiquei para o fim, prefiro que não haja pessoas a ouvir, se bem que não é nada do outro mundo, estas coisas agora são o pão nosso de cada dia. Antes não fossem. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Bom, é só isto: queria pedir-lhe uma dedicatória, mas não exactamente igual às outras - a senhora já fez hoje mais de quantas, deve estar com um calo nos dedos, de pegar na caneta. Só usa a caneta em ocasiões destas, julgo eu, habitualmente deve escrever no computador, como toda a gente. Eu já não era capaz de viver sem o computador, é a minha companhia. O computador e a televisão. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mas queria falar-lhe da dedicatória. Embora tenha um fraco pelo computador. É quase uma pessoa, não acha, ele responde, entende, repara se o que fazemos está certo ou errado, cumpre ordens, faz perguntas, liga-nos ao mundo - se bem que a mim o mundo me interessa pouco - e é esperto, até mais esperto do que nós. E tem sentido de humor, o sacana, ainda há pouco estava eu a jogar contra ele pela noite adiante, fico sempre a jogar pela noite adiante, ele estava-me a ganhar há várias horas, até parecia que me fintava, e aí eu perdi a cabeça e mandei-o à merda, desculpe mas foi a palavra, e sabe o que ele respondeu? Não posso ir nessa direcção. Tal e qual, com todas as letras. É uma resposta que não lembra ao diabo. Desatei a rir e ele desarmou-me a raiva, diga lá a senhora se alguém se lembraria de uma resposta destas, na ponta da língua, no momento exacto. Ganhou-me outra vez, está visto, e eu disse-lhe: Marca lá dois tentos, pá, sabes mais do que te ensinei. Um tipo destes nem lhe falta falar, já nasceu ensinado. Aos animais a gente ensina, tive um papagaio &#8211; mas a senhora está com pressa e não se deve interessar por papagaios, desculpe eu falar tanto, sei que às vezes falo demais, estou um bocadinho nervoso com o que vou pedir-lhe, mas acredito que me vai entender, a senhora entende bastante bem o ser humano, é por isso que gosto dos seus livros. Do que gosto mais é dos guarda-chuvas com a mulher ao fundo e do cavalo ao sol. Às vezes admiro-me como é que lhe vêem tantas coisas à cabeça, mas descanse que não lhe vou perguntar, porque não há tempo. A mim também me vêem muitas coisas à cabeça, só que não as sei escrever. Já experimentei, mas depois desisto, não tenho paciência. Ou talvez não tenha vocação. Embora a minha vida desse um romance. Ou um filme. Vejo-a até melhor como um filme: Começa com uma porta a bater e uma mulher que se vai embora. É uma mulher muito bonita, embora já não se possa ver, porque está do outro lado da porta. Levou uma mala com roupa e foi-se embora. Só com a roupa dela, não levou nada meu. Nem dinheiro, nem nada. Só o que era dela. Mas isso eu só vi depois, na altura não vi nada, atirei-me contra a porta, mas ela já lá não estava. Não a vi ir-se embora, ela foi quando eu tinha saído. Quando cheguei achei a casa vazia. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mas vejo-a sempre sair e fechar a porta atrás de si. Mesmo quando fecho os olhos continuo a vê-la, é como a cena de um filme: ela pega na mala, abre a porta e vai-se embora. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; E é então que penso: não pode ter sido só assim, a cena começa mais atrás. Primeiro, ela teve de fazer a mala, e, para isso, de abrir gavetas e armários, e ir tirando a roupa. Pode ter tirado e dobrado as peças, ou tê-las arrancado do armário penduradas nas cruzetas. A senhora já viu cenas destas em filmes, tenho a certeza. Reparou que nos filmes metem sempre na mala a roupa pendurada nas cruzetas? Não faz sentido, porque ocupa muito mais espaço, mas não é o espaço que aflige as pessoas, é a pressa, têm sempre muita pressa de se ir embora. Por isso nunca vemos o que tiram dos armário, para além do vulto confuso de fatos e vestidos- só quando reconstituimos, depois, vemos que deveriam levar também roupa interior, sapatos, cintos, artigos de toilette, miudezas. No momento não pensam, mas não acha que podiam depois voltar atrás, para levar o que esqueceram? Como eu disse: lenços, perfumes, miudezas várias. Podiam voltar buscá-las mas não voltam, saem a correr, às vezes nem fecham a mala, metade das coisas caem no caminho. No entanto &#8211;lembra-se disso?- há ocasiões em que olham para trás ainda um instante ,antes de fechar a porta. Só um segundo. Mas é diferente terem, ou não, olhado para trás, não lhe parece? Faz mesmo toda a diferença.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Também há ocasiões em que as pessoas deixam mensagens, uma carta, ou mesmo só um papel rabiscado à pressa. Como quando se matam. Há uma espécie de morte nestas cenas, não concorda? Morte para quem vai ou para quem fica, ou em ambos os casos. Mas ela não se matou. Mudou apenas de vida, de apartamento, de rua, de homem, claro que havia outro homem na história. Foi ele que me lembrei de matar primeiro. Ou a mim. Nunca pensei em matá-la a ela. Acho que ele foi mais esperto do que eu, que&nbsp; <br/>não dava conta &#8211; ou talvez ela fingisse bem, pelo menos durante algum tempo.&nbsp; Também isso me lembra os filmes &#8211; ela a representar um papel, a fingir que não havia mais ninguém &#8211; e depois as grandes cenas de lágrimas e gritos e a gente no meio do quarto a pensar que aquilo não podia estar a acontecer connosco, que acontecia com outras pessoas, num filme. Há momentos de que não me lembro. Espaços em branco. Como se uma tesoura cortasse o celulóide e depois alguém colasse os pedaços, deitando fora outros. Pedaços que duram segundos, minutos. Tudo somado, há muito tempo deitado fora no filme que vejo sempre. Se pudesse recuperava os pedaços &#8211; aqui ela a chorar, atirada para cima da cama, ou eu a atirá-la, não sei &#8211; vejo sempre um braço, uma cabeça sobre a colcha da cama, os cabelos espalhados, a almofada caída, as mãos dela agarrando as minhas, que tinham mais força que as dela. Mas há pedaços que não aconteceram. Eu podia tê-la matado, mas não lhe toquei. Desatei a chorar como ela. Há sequências que podiam lá estar e não estão. Agora passa-me pela cabeça como era fácil terem acontecido : eu podia ter-lhe posto as mãos em volta do pescoço, apertado um pouco, julgando que era só um pouco. Podia. A senhora não imagina, ou por outra, penso que a senhora pode imaginar como é pequena a distância entre o que acontece e o que não acontece. Entre matar alguém e não matar. Todos podemos, alguma vez, matar alguém. Basta só mais um pequeno passo, um pequeno gesto e acontece, sabe? É verdade que eu estive muito perto.&nbsp; Imagino essas cenas, como se tirasse fitas de celulóide de um caixote de desperdícios. Mas sei que não aconteceram. Ela continua viva, bonita como sempre, talvez até mais do que antes. Às vezes vejo-a, ela é que não me vê, não olha para os lados, caminha depressa na rua, como se estivesse atrasada. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nos dias em que a vejo não consigo dormir. Há outros bocados de filme que me vêm à cabeça, guardo-os na memória com muito cuidado para não os perder, ela a pôr fatias de pão e um pacote de leite na mesa, a travar o </P><P align=center><IMG src="./archive/teolinda_gersao_2.jpg"></P><P>despertador que começou a tocar, a abrir-me a porta quando chego à noite, bocados de filme que vejo vezes sem conta, cenas mínimas, por vezes desconexas, que tento manusear com jeito, projectar com uma lâmpada não demasiado forte, para não correr o risco de se incendiarem, prefiro ver essas cenas em tom quase sépia, esbatidas, cenas de sexo prefiro não pensar embora também me venham à cabeça, sobretudo quando sonho com ela, e sonho muitas vezes com ela, às vezes penso o que lhe diria se lhe escrevesse uma carta, já tentei escrever-lhe mas desisto sempre, uma noite sonhei que ela me mandava um video, mas talvez não seja sonho, deve ser uma cena de um filme que vi algures, chego a casa e ela não está, depois reparo que há um video no gravador, vejo a cara dela de todo o tamanho do ecran e no ecran ela diz-me que se vai embora ,tem uma camisola azul e uma correntinha de ouro ao pescoço e no pulso uma argola que me parece de prata, fixo com todo o pormenor os adereços para não ouvir as palavras, está tudo no lugar, penso, a corrente de ouro, a argola de prata, a camisola azul, o reflexo de luz no cabelo, a face lisa brilhando, está tudo certo no ecran e não ouço as palavras, penso apenas amo-te, és tão bonita, começam a vir-me à ideia palavras muito gastas, não posso viver sem ti, a minha vida acabou, volta para mim, não aguento mais - e é então que a ouço dizer que se vai embora, apago o video e a cara dela desaparece no ecran, arrumo a cassete na estante e penso que é um pedaço de celulóide, só isso, um papel que ela representa bem, é verdade que teria jeito para actriz, no próximo filme pode fazer um papel diferente, mas sei que nunca irei vê-la como a má da fita. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Talvez a senhora não acredite se lhe disser que fiz cópias de todos os filmes dela, quero dizer, de todos os filminhos de amador que fiz com ela. Sim, também tenho a minha pequena máquina de filmar, provavelmente é por isso que penso tanto nas coisas como se fossem filmes. Se lhe fosse falar dos meus filmes, ficava aqui a noite inteira. Podem não ser bons, mas são quase toda a minha vida. Ou eram, antes de ela se ir embora. Mas sossegue que não vou falar. Só lhe quero dizer isto: Guardei os originais dos filmes e diverti-me a transformar as cópias.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Cortei, colei, mudei &#8211; ela era a estrela, a personagem, e eu o realizador, o cameramen, o produtor, o público &#8211; ambos tínhamos todos os papeis. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; É fantástico o que se pode fazer com o celulóide, descobri : o tempo andava para diante e para trás, aqui era ontem e depois anos antes, quando a conheci, aqui ela andava de bicicleta, nadava no mar, vinha a correr ao meu encontro, com um pequeno gesto eu fazia a bicicleta andar para trás ou parava-a de repente, ou repetia até ao infinito a sequência em que ela corria ao meu encontro &#8211;ela nunca acabaria de correr ao meu encontro, se eu quisesse. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Foi assim que descobri como a gente tem poder sobre as coisas, manipulando-as, deve ser assim que se fazem os filmes verdadeiros livros, os livros são uma espécie de filmes, a senhora não acha, só que têm ainda mais poder, porque desde sempre houve palavras mágicas, e ainda não há imagens mágicas. <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; E aí é que eu vi a diferença entre saber fazer e não saber ,eu manipulava os filmes e as coisas aconteciam ao contrário, a biciclete corria para trás, mas nada do que eu fizesse podia trazer aquela mulher de volta.<br/>&nbsp;Então lembrei-me : eu não posso, mas a senhora pode. Por isso lhe vim pedir uma dedicatória, aí nesse seu livro, para lhe oferecer a ela. Pedindo-lhe que volte. Claro que a senhora pode, como é que não.Com a data de hoje bem visível &#8211;porque faz hoje precisamente um ano que ela se foi embora. Eu sei que é tarde e que a senhora está cansada, mas por favor não arranje desculpas e escreva, não faz mal nenhum se não couber aí, já calculava que me ia dizer isso e trouxe mais folhas de papel, uma dedicatória não precisa de caber toda na página de um livro, se não couber que importância tem, o que importa é que ela volte. E se não voltar, diz a senhora, pelo amor de Deus não vamos pensar isso, como é que ela pode não voltar, se não voltar é porque a senhora não lhe soube dizer quanto eu a quero e escreveu a dedicatória errada. Mas isso não vai acontecer, tenho a certeza, a senhora vai fazer um esforço e escrever certo. Não vai?</P>
<h2 align="center">Nº 11 - Série 3 - Dezembro 2002</h2><p align="center"><a href="http://picasaweb.google.pt/lh/photo/IRQ3nYmaIF1IEqc6TvAELg?feat=embedwebsite"><img src="http://lh3.ggpht.com/_1tggD33jlcU/SrnsTtlrz5I/AAAAAAAAARg/LWhhoK0Qugs/s800/mealibra_11_capa.jpg"></a><br/></p><ul><li><a href="/ccaminho/pt/?&amp;download=m11_sumario.pdf">Sumário</a></li><li>Ficções e Outros Textos - <a href="/ccaminho/pt/?Edi%E7%F5es%3A_Mealibra/N%BA_11_-_S%E9rie_3_-_Dezembro_2002/%22Uma_rima%22">"Uma rima"</a>, de Manuel Alegre (p. 8)</li><li>Ficções e Outros Textos - <a href="/ccaminho/pt/?Edi%E7%F5es%3A_Mealibra/N%BA_11_-_S%E9rie_3_-_Dezembro_2002/%22Quem_nos_engana%22">"Quem nos engana"</a>, por Hélia Correia (pp. 16-17)</li><li>Poesia -&nbsp;<a href="/ccaminho/pt/?Edi%E7%F5es%3A_Mealibra/N%BA_11_-_S%E9rie_3_-_Dezembro_2002/%22Estrat%E9gias_de_Amar%22">Ana Luisa Amaral</a> (pp. 62-64)</li><li>Poesia - <a href="/ccaminho/pt/?Edi%E7%F5es%3A_Mealibra/N%BA_11_-_S%E9rie_3_-_Dezembro_2002/Poesia_de_Maria_do_Ros%E1rio_Pedreira">Maria do Rosário Pedreira</a> (p. 70)</li></ul>
<H3>"Uma rima"</H3><H4 align=right>de Manuel Alegre (p. 8)</H4><P align=right><IMG src="./archive/manuel_alegre.jpg"></P><BLOCKQUOTE dir=ltr style="MARGIN-RIGHT: 0px"><P><STRONG>UMA RIMA</STRONG></P><P>Cair para dentro<br/>cair para dentro da boca desconforme<br/>cair para dentro e para o centro<br/>Saturno te devora e tu não sabes<br/>cair para dentro do nome e do pronome<br/>a página é infinita e tu não sabes<br/>cair para baixo cair para cima<br/>cair para dentro da palavra indecifrada<br/>a palavra sem rima a palavra só rima<br/>a palavra que rima com tudo e com nada.</P><P>Cair do avesso<br/>cair a subir com Dante e Hölderlin<br/>para ver Beatriz para amar Diotima<br/>lá onde o universo é só um verso<br/>ou talvez um fim<br/>ou talvez um começo.</P><P>Cair para baixo cair para cima<br/>cair para os dáctilos cair nos troqueus<br/>cair para cima<br/>cair para baixo<br/>à procura da imagem à procura de Deus.<br/>Rex Regina. E só acho<br/>uma rima. Nada mais que uma rima.</P></BLOCKQUOTE><P align=center>5.5.02<br/></P>
<H3>"Quem nos engana"</H3><H4 align=right>por Hélia Correia (pp. 16-17)</H4><P><IMG src="./archive/helia_correia.jpg"><br/></P><P><EM>À Teolinda Gersão</EM></P><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Há seres que nascem para contar histórias. Na idade madura, são mulheres. E, depois, velhos. Alguns deles começam ainda na infância e não revelam um sexo definido. Não quer isto dizer que tenham corpos predestinados à androginia nem que padeçam de uma inconsistência como a dos anjos.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Dão-se, no entanto, logo a conhecer pela des-proporção da silhueta, os longos membros, o pequeno tórax onde o esterno ressalta num impulso, como se transplantado de algum pássaro. Confundem-se realmente com raquíticos se os olharmos com pressa e distracção. E não sei de outro modo de os olhar porque são fugidios.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ficam retratos de na nossa arrogância imaginamos que os apanhámos na esquadria fotográfica e ali os temos à disposição. Os mais antigos são a preto e branco e não havia que desperdiçar, de forma que as crianças estão imóveis e muitas vezes trazem flores nos dedos, como num rito sacrificial. Podem perfeitamente ver-se a vida parar, dando atenção à objectiva, combinando com ela a atitude que mais arremedasse a eternidade.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Lá estão, no meio, os contadores de histórias, talvez um pouco mais desajeitados do que os irmãos e os primos, mais contorcidos nessa assimetria tão própria dos modelos infantis que denuncia a intenção da fuga. Mas aquilo que os distingue com clareza é o seu ar preocupado, atento, que a família supõe ser sisudez.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Posteriormente, a cor entrou para as películas, e isso trouxe um certo movimento, apanhou muita gente de perfil. Mas, embora guardadas nas gavetas, essas cópias perderam o vigor e mostram tons ardidos, apagados pela soma da luz que lhes tocou. Mas aos pequenos contadores de histórias, contrariamente ao que se esperaria, não afectou essa dissipação. Pois, entre os rosas e os violetas a que o leque de cores se reduziu, contra, ao fundo, os baloiços ou o mar, repararemos numa ou noutra testa já enrugada, sem que o ambiente nos forneça para isso explicação, dado que, em volta, os outros tagarelam, tanto quanto podemos perceber.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nesta altura da minha descrição, pensarão todos que isto vai levar a um conhecimento de crianças que escutam vozes ou avistam hologramas. Ficai tranquilos, que não é assim. Trata-se só de um desajustamento entre a velocidade com que crescem, igual à dos restantes, e a demora com que a carne se afasta do início, do estado pré-natal em que era una com o estrume da terra e com as águas. A sua forma e o seu destino humanos ainda não cessou de as intrigar.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Se os procurarmos na adolescência muito dificilmente os encontramos, pois aprenderam entretanto a disfarçar-se. O terrível momento que atravessam convida à manha e à dissimulação. É, ao contrário do que se imagina, um tempo de trabalho espiritual que deixa toda a gente mergulhada no mais impiedoso desconforto. De certo modo, todos se parecem com contadores de histórias. Todos têm o vinco filosófico numa testa que o acne desgraçou. Todos fazem a sua travessia pelos poemas muito musicais e desembocam na idade adulta sem que experiência os tenha comovido.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Vereis que os nossos contadores de histórias dos vinte aos quarenta anos são mulheres, com alguma excepção surpreendente, pois os que há cheios de virilidade. Os que optam pela forma masculina fazem a melhor escolha inicial, já que a paternidade só lhes pede algumas horas bem distribuídas e outra é a mão que faz mover a casa. Porém razões existem, e de peso, para que ganhe avanço o feminino. Dizem até que o respirar das crias, enquanto dormem, é inspirador. Parece que depósito de enredos se encontra muito perto da cozinha. Há realmente uma fertilidade que se enraíza na exaustão doméstica.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; É de levar igualmente em conta que a divisão em sexos se submete a critérios flexíveis, de maneira que se abre ainda uma terceira hipótese seguida por alguns com muito agrado. São muito apreciados hoje em dia pelo requinte com que se apresentam e a sua ambivalente inspiração.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Surge depois, com o passar do tempo, uma sabedoria que transcende essa definição do sexual. Por muito maldizentes que se queiram, por muito que componham o cabelo, as antigas mulheres passam a velhos. Até o seu descaramento erótico revela alguma complacência fálica. Só as que muito e muito porfiaram, mesmo para além do que era consentido pelo bom senso e pelos ares do tempo, em afirmar a feminilidade, guardam um pouco do seu ouro extinto. Mas não lhe sobra já qualquer talento. Estão condenadas a adjectivar, cada vez mais insupor-tavelmente, os mesmos contos de há cinquenta anos.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; É durante o esplendor da meia idade que as mulheres contadoras nos fascinam pelo alcance da sua perfeição. Têm inteiramente decifrada a lin-guagem da carne e a dos afectos e jogam-na a seu modo, livremente, e dispondo de tempo. Atingem certos escalões de harmonia na família, como na relação com os netos, que transforma as dores da criação nessa leveza de lhes ler livros e levá-los ao jardim. Não há nelas sinal de&nbsp; decadência e a sua pele naturalmente exibe aquele tom de biscuit que antigamente se obtinha só à força de alvaiade, que devagar as ia envenenando. Olhamos para elas com agrado e quase pensaríamos que estamos face a uma mulher bem sucedida, tal a serenidade com que falam do seu quotidiano e dão receitas das mais elaboradas refeições. Porque são experimentadas no engano.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mas acontece sempre o bom momento em que por distracção se denunciam: quando começam a contar-nos histórias e a sua natureza enfeitiçada desponta, num fulgor, à superfície.</P><P align=center><IMG src="./archive/helia_correia2.jpg"></P>
<H3>Poesia de Ana Luisa Amaral</H3><P><IMG src="./archive/ana_luisa_amaral2.jpg"></P><P><STRONG>ESTRATÉGIAS DE AMAR</STRONG></P><P>Há tanto tempo aqui, à espera delas,<br/>em amoroso espanto, e espreito <br/>as horas,<br/>finjo em olhar quase desmaio lento,<br/>a ver se estão por dentro <br/>(mas não estão),<br/>abro os olhos em meia <br/>sedução.</P><P>É tarde e eu não posso estar aqui <br/>nesta espera, espreitando <br/>desamor.</P><P>Odeio-as nesta ausência de equilíbrio,<br/>quando não se organizam <br/>como devem,<br/>e porque existem só, em estado <br/>puro,<br/>em dicionários, filas de alfabetos, <br/>inumeráveis filas de ditongos.</P><P>Tenho-as junto de mão, <br/>e não são minhas.</P><P>Armá-las em quadrado e transformá-las <br/>em coisa nuclear, <br/>saber como as lançar <br/>umas por sobre as outras, em cisão.</P><P>Que se auto-pulverizem<br/>e eu seja ausente<br/>da sua existência:<br/>o espanto só de um mundo,<br/>só em verde,<br/>um mundo só de rios e só de gente.<br/>Um céu mudo de espanto, <br/>sem nasais.</P><P>Que eu possa ir para casa<br/>finalmente<br/>&#8212; o tempo: mancha igual,<br/>a mesma sempre:<br/>eterno ano, o mesmo traço a fogo,<br/>e um rio correndo em direcção:</P><P>igual</P><P>.........................................................................................................</P><P><STRONG>OVELHAS E BIBLIOTECAS: SOFRIMENTOS</STRONG></P><P>É um certo tom que eu não sei derivar <br/>como devia: uma transparência, um esbatimento,<br/>a abstracção das coisas.<br/>A ovelha a meio do campo, vista deste combóio,<br/>sofre só dessa terrível solidez: ovelha</P><P>O mesmo se passa com a minha cozinha, ou <br/>um livro, ou uma emoção: <br/>um assado bem feito pode superar <br/>qualquer capítulo bem anotado, <br/>o cheiro das cebolas é às vezes<br/>mais transcendente<br/>do que tantos caracteres <br/>a que falta sal<br/>&nbsp;<br/>Neste momento, está atrasado o combóio,<br/>um inter-regional que pára nas estações todas,<br/>mas há sol, e assim fico a conhecer<br/>os apeadeiros portugueses, e talvez me sirvam<br/>de poema mais tarde, e tenho o privilégio<br/>de me comover com os seus tons <br/>floridos</P><P>Agora a linha é mais simples e estreita,<br/>correndo, paralela, à Estrada Nacional,<br/>uma linha de frase básica, <br/>só com os elementos principais.<br/>Mas, às vezes, a ovelha que a atravessa, secante,<br/>dá-lhe uma certa vírgula romântica</P><P>É num tom desses que eu me sei mover.:<br/>no intermédio cruzamento<br/>dos portões do real,<br/>nas despensas do mundo</P><P>Essas em que guardo o resto dos temperos,<br/>um ou outro feitiço <br/>no Livro de Receitas &#8212;</P><P>.........................................................................................................</P><P><STRONG>CONSTELAÇÕES</STRONG></P><P>Usamos todos a ilusão<br/>de fabricar a vida:<br/>histórias, constelações<br/>de sons e gestos</P><P>Usamos todos a suprema glória<br/>do amor: por generosidade<br/>ou fantasia, ou nada, que de nada se fazem<br/>universos</P><P>Usamos todos mil chapéus de bicos<br/>mal recortados e de encontro <br/>ao sol:<br/>o nosso mais perfeito em franja e bico <br/>e um arremedo tal e seiscentista<br/>que ofuscando-se: o sol</P><P>Usamos todos esta condição<br/>de pó de vento, ou de rio <br/>sem pé: único dom de fabricar o tempo<br/>em raiz de palmeira<br/>ou de cipreste<br/></P><P align=center><IMG src="./archive/ana_luisa_amaral_ilust.jpg"></P>
<H3>Poesia de Maria do Rosário Pedreira</H3><P><IMG src="./archive/maria_rosario.jpg"></P><P align=left><STRONG>1.</STRONG><br/>Não há mais nenhum nome. Depois de ti<br/>destinaram-me apenas corpos que não amei,<br/>rostos onde não quis pousar os olhos por temor<br/>de os fixar, mãos que eram sempre as sombras<br/>das tuas mãos sob os lençóis. Nunca sequer as vi,</P><P align=left>nem toquei esses dedos que, no escuro, celebravam<br/>na minha a tua carne &#8212; se outro motivo os trazia,<br/>por mais vago, também não quis ouvi-lo, nunca<br/>o soube. Depois de ti, depois dos outros homens,<br/>é ainda o teu nome que digo, e nenhum outro.</P><P align=left><br/><STRONG>2.</STRONG><br/>De que me serviu ir correr mundo,<br/>arrastar, de cidade em cidade, um amor<br/>que pesava mais do que mil malas; mostrar<br/>a mil homens o teu nome escrito em mil<br/>alfabetos e uma estampa do teu rosto<br/>que eu julgava feliz? De que me serviu</P><P align=left>recusar esses mil homens, e os outros mil<br/>que fizeram de tudo para parar-me, mil<br/>vezes me penteando as pregas do vestido<br/>cansado de viagens, ou dizendo o seu nome<br/>tão bonito em mil línguas que eu nunca<br/>entenderia? Porque era apenas atrás de ti</P><P align=left>que eu corria o mundo, era com a tua voz<br/>nos meus ouvidos que eu arrastava o fardo<br/>do amor de cidade em cidade, o teu nome<br/>nos meus lábios de cidade em cidade, o teu<br/>rosto nos meus olhos durante toda a viagem,</P><P align=left>mas tu partias sempre na véspera de eu chegar.</P><P align=right>Setembro de 2002</P><P align=left><IMG src="./archive/isadora_aguarela2.jpg"></P>
<h2>Nº 12 - Série 3 - Verão 2003</h2><p align="center"><a href="http://picasaweb.google.pt/lh/photo/BhHK6KOcPE5_ruFs8lEh_w?feat=embedwebsite"><img src="http://lh6.ggpht.com/_1tggD33jlcU/SrnsUcLDepI/AAAAAAAAARk/9UFdEeRyCwI/s800/mealibra_12_capa.jpg"></a><br/></p><ul><li><div align="left"><a href="/ccaminho/pt/?&amp;download=m12_sumario.pdf">Sumário</a></div></li><li><div align="left"><a href="/ccaminho/pt/?Edi%E7%F5es%3A_Mealibra/N%BA_12_-_S%E9rie_3_-_Ver%E3o_2003/%22Tr%EAs_Poemas%22">"Três Poemas"</a> de Sophia de Mello Breyner Andresen (pp. 9-11)</div></li><li><div align="left"><a href="/ccaminho/pt/?Edi%E7%F5es%3A_Mealibra/N%BA_12_-_S%E9rie_3_-_Ver%E3o_2003/%22A_presente_aus%EAncia_dos_deuses_na_obra_de_Sophia_de_Mello_Breyner_Andresen%22">"A presente ausência dos deuses na obra de Sophia de Mello Breyner Andresen"</a>, por Paula Alves (pp. 13-20)</div></li></ul>
<H3>"Três Poemas"</H3><H4 align=right>de Sophia de Mello Breyner Andresen (pp. 9-11)</H4><P align=center><IMG src="./archive/sophia1.jpg"></P><BLOCKQUOTE dir=ltr style="MARGIN-RIGHT: 0px"><P align=left><STRONG>1.*</STRONG></P><P align=left><br/>Cada manhã o alvoroço da luz<br/>Me acorda: a luz atravessa a paisagem e a casa<br/>&#8211; A dormir tinha esquecido não as coisas<br/>Mas sua meticulosa beleza<br/>Múltipla</P><P align=left>No princípio Deus disse<br/>Faça-se a luz<br/>&#8211; E com a luz da manhã o mundo principia<br/>Digo a luz e não o sol<br/>Nos dias de nevoeiro emergem formas brancas<br/>Aqui e além como se vogassem<br/>Numa deriva cismadora e serena</P><P align=left>Nos dias de sol os ciprestes enegrecem<br/>E ao longe brilha o regozijo das vidraças</P></BLOCKQUOTE><P align=left>&nbsp;</P><P dir=ltr style="MARGIN-RIGHT: 0px" align=left><EM>* Inédito, 1987</EM></P><P align=left><STRONG>.........................................................................................................</STRONG></P><BLOCKQUOTE dir=ltr style="MARGIN-RIGHT: 0px"><P align=left><STRONG>2.*</STRONG></P><P align=left><br/>Oblíquo Setembro de equinócio tarde<br/>Que se alonga e depara e vê e mira<br/>Tarde que habita o estar do seu parado<br/>Sol de Sul pelo sal detido</P><P align=left>Assim o estar&nbsp; aqui e o haver sido<br/>Quasi a mesma que sou no tão perdido<br/>Morar aberto de um Setembro antigo<br/>Com o mar desse morar em meu ouvido</P><P align=left>Pura paixão que não conhece olvido</P></BLOCKQUOTE><P align=left>&nbsp;</P><P align=left><EM>* Não inédito. Em &#8220;Portugal Socialista&#8221;, Janeiro 1984.</EM></P><P align=left><STRONG>.........................................................................................................</STRONG></P><BLOCKQUOTE dir=ltr style="MARGIN-RIGHT: 0px"><P align=left><br/><STRONG>3.*</STRONG></P><P align=left><STRONG>NAVEGADORES</STRONG></P><P align=left><br/>Esses que desenharam os mapas da surpresa<br/>Contornando os cabos e dando nome às ilhas<br/>E por entre brilhos espelhos e distâncias<br/>Por entre aéreas brumas irisadas<br/>Em extáticas manhãs solenes e paradas<br/>No breve instante eterno surpreenderam<br/>O arcaico sorrir do mar recém-criado</P></BLOCKQUOTE><P align=left>&nbsp;</P><BLOCKQUOTE dir=ltr style="MARGIN-RIGHT: 0px"><P align=left>1987</P></BLOCKQUOTE><P align=left>&nbsp;</P><P align=left><EM>* Não inédito. Em N.º 2 da &#8220;Revista Salem&#8221;, Associação de Estudantes da<br/>&nbsp;Faculdade de Teologia, Novembro 1987.</EM></P>
<H3>"A presente ausência dos deuses na obra de Sophia de Mello Breyner Andresen"</H3><H4 align=right>por Paula Alves (pp. 13-20)</H4><P align=center><IMG src="./archive/sophia2.jpg"></P><P><EM>Deuses andaram outrora entre os homens, as Musas magníficas<br/>E o jovem Apolo (...) 1*</EM></P><P align=left><EM>Foi nos braços dos deuses que eu cresci. 2*</EM></P><BLOCKQUOTE dir=ltr style="MARGIN-RIGHT: 0px"><BLOCKQUOTE dir=ltr style="MARGIN-RIGHT: 0px"><BLOCKQUOTE dir=ltr style="MARGIN-RIGHT: 0px"><BLOCKQUOTE dir=ltr style="MARGIN-RIGHT: 0px"><BLOCKQUOTE dir=ltr style="MARGIN-RIGHT: 0px"><BLOCKQUOTE dir=ltr style="MARGIN-RIGHT: 0px"><BLOCKQUOTE dir=ltr style="MARGIN-RIGHT: 0px"><P align=left><STRONG>Hölderlin</STRONG></P></BLOCKQUOTE></BLOCKQUOTE></BLOCKQUOTE></BLOCKQUOTE></BLOCKQUOTE></BLOCKQUOTE></BLOCKQUOTE><P><EM>Ausentes são os deuses mas presidem. 3*</EM></P><P><EM>Pois também no poente onde eu habito<br/>Os deuses são vencidos 4*</EM></P><BLOCKQUOTE dir=ltr style="MARGIN-RIGHT: 0px"><BLOCKQUOTE dir=ltr style="MARGIN-RIGHT: 0px"><BLOCKQUOTE dir=ltr style="MARGIN-RIGHT: 0px"><P><STRONG>Sophia de Mello Breyner Andresen</STRONG></P></BLOCKQUOTE></BLOCKQUOTE></BLOCKQUOTE><P><br/>&nbsp;<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No seu magnífico ensaio sobre a arte grega, nomeadamente sobre o nu na antiguidade clássica, faz Sophia sérias e profundas reflexões sobre a esfera da sacralidade e do divino, baseando-se na concepção religiosa do homem grego. Afirma, por um lado, que «o Grego crê no divino interior ao universo»(<EM>5*)</EM> e que «o divino é interior à natureza, consubstancial à natureza. (...) Descobrir a ordem da natureza, descobrir a felicidade e a harmonia múltipla e radiosa da natureza, será descobrir o divino»(<EM>6*)</EM>. Por outro lado, testemunha a natureza divina do homem, dentro de determinados limites, que marca profundamente a condição humana e o tipo de relações que este estabelece com o plano da divindade. A ligação existente entre Natureza, Homem e Divindade é fortíssima e avassaladora. As citações de Aristóteles(<EM>7*)</EM> e Píndaro(<EM>8*)</EM> são testemunhos directos dessa forte nostalgia de ser deus que o homem grego sentia e que sentem os homens de todos os tempos. O homem evidencia a todo o momento, pelo seu corpo e pelo seu espírito, que participa de uma certa aura divina e só junto dos deuses, usufruindo da sua presença, consegue alcançar a plenitude. Essa é também a lição de Hesíodo(<EM>9*)</EM> ao apresentar uma raça de homens dourados, gerados a partir da mesma matriz que originou os deuses &#8211; a Terra &#8211; e que viviam como deuses, com idênticas benesses, se exceptuarmos a imortalidade. Ou quando se refere a Mécone, na <EM>Teogonia</EM> (535 ss), espaço que originalmente homens e deuses coabitavam em harmonia. Ou ainda quando relata o destino privilegiado dos heróis que habitam, sob o governo de Cronos, nas Ilhas dos Bem-aventurados, local afastado do comum dos homens. O homem consegue, assim, a plenitude no grau que lhe está reservado, quando se sente perto dos deuses. É nesse contexto que a festa, o ritual, a cerimónia sagrada, a prece, se entendem, porquanto são meios de comunicar com o divino, de participar nele, permitindo ao homem tornar-se periodicamente contemporâneo dos deuses. É uma necessidade absoluta do <EM>homo religiosus(10*)</EM> participar na esfera divina porque sabe que a sua matriz primordial está lá. Por isso, Sophia refere um ensinamento que hauriu precisamente na arte grega, ou seja, que «só estando religiosamente no mundo, estamos realmente no mundo»<EM>(11*)</EM>. O sujeito em Sophia enceta constantemente esse percurso ritual de união com o sagrado-transcendente, na esteira da mesma <EM>sede ontológica</EM> de que fala Mircea Eliade<EM>(12*)</EM>, patente no realimanente («Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro/Sabendo que o real o mostrará»<EM>13*</EM>),&nbsp;continuamente plasmado na sua produção poética, tal como acontecia com o seu tão amado Hölderlin. Esta necessidade de obsessivamente se proceder à religação com a sacralidade fundamenta-se numa amarga consciência da ausência dos deuses, marcadíssima num número significativo de composições, bem como na nostálgica impossibilidade de ser deus, na aguda urgência de resgatar para o humano a sua quota parte de divino. A busca incessante de um sujeito poético que se configura como <EM>intermediário entre o humano e o divino(14*)</EM> é o sinal claro da aliança quebrada referida em «Arte Poética I»<EM>(15*)</EM>.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A ausência dos deuses prefigura-se no esquecimento-afastamento por parte do sujeito poético, facto que acentuará o carácter imparável e implacável da autofagia do tempo-monstro: «E agora ó Deuses que vos direi de mim?[...] Esqueci-me de vós e sem memória/ Caminho nos caminhos onde o tempo/ Como um monstro a si próprio se devora»<EM>(16*)</EM>. Sem poder participar do tempo dos deuses, o tempo dos homens surge ameaçador e inelutável. A ausência de «memória», da mesma Mnemósine, mãe das Musas que conferem aos poetas o poder de dominar a confusão do tempo e do espaço dos homens<EM>(17*)</EM>, é fatal para a vivência do eu. A mesma angústia relativamente à inexorável passagem do tempo aliada à ausência divina é explorada no poema «A liberdade»<EM>(18*)</EM> através da imagem da morte das <EM>rosas(19*)</EM>, resultado de uma cisão que se opera entre o sujeito poético e os deuses, gorando as suas expectativas: «A liberdade que dos deuses eu esperava/ Quebrou-se». Assim, ao <EM>tempo luminoso</EM>, mítico, em que se dá a colheita das rosas, opõe-se um outro tempo, mundano, histórico, responsável pela sua morte simbólica: «As rosas que eu colhia,/ Transparentes no tempo luminoso,/ Morreram com o tempo que as abria». A morte das rosas, flor que na iconografia cristã se reveste de conotações ligadas à morte (mas também à redenção de Cristo), prefigura a iminência da morte humana, o agrilhoamento a uma condição mortal a que os deuses não dão resposta. Daí a necessidade de paralisar, de anular o próprio tempo através de uma curiosa <EM>rodofagia</EM> que cristaliza a necessidade de reter os momentos eufóricos da sua vivência e o sentido positivo da sua capacidade de esperar, que se opõe à violenta autofagia do tempo-monstro: «Quando à noite desfolho e trinco as rosas/ É como se prendesse entre os meus dentes/ Todo o luar das noites transparentes/ Todo o fulgor das tardes luminosas (...)»<EM>(20*)</EM>.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; De facto, é claro que a ausência dos deuses é obra do humano: «Exilámos os deuses e fomos/ Exilados da nossa inteireza»<EM>(21*)</EM>. É igualmente claro que o exílio a que o homem forçou os deuses contribuiu para a sua própria dispersão, para a sua desunião, para o mergulho no caos, para a queda até ao mais mísero degrau da humanidade, tal como Hesíodo a narra em <EM>Trabalhos e Dias</EM>, em que as divindades <EM>Aidôs</EM> e <EM>Némesis</EM> abandonam definitivamente a terra. A um passado mítico de plenitude sucede-se um presente de ausência, </P><P align=center><IMG src="./archive/sophia3.jpg"></P><P>de lacuna, de <EM>a-sacralidade</EM>. Veja-se, no poema significativamente intitulado «O Crepúsculo dos deuses»<EM>(22*)</EM>, a nítida oposição entre um passado em que «a claridade dos deuses venceu os monstros nos frontões de todos os templos», onde «a treva/ Foi exposta e sacrificada em grandes pátios brancos», onde «o nosso corpo estava nu porque encontrara/ A sua medida exacta/ Inventámos: as colunas de Sunion imanentes à luz» e um presente em que «Somos alucinados pela ausência bebidos pela ausência» porque «se apagaram/ Os antigos deuses sol interior das coisas». Se numa primeira fase a claridade saiu vencedora sobre a treva, e o corpo&nbsp;humano se prefigurava nas colunas de Sunion<EM>(23*)</EM>, fruto da harmonia encontrada, signo da inteireza humana e vector comunicante terra/céu, numa segunda fase a quebra operada entre as duas esferas (humana e divina), o afastamento dos deuses, produz o vazio estéril da anulação da sacralidade mítica. É precisamente esta a leitura do final do poema, onde se dá conta da resposta da Pitonisa de Delfos ao enviado de Juliano, o Apóstata, que preconizava a restauração do culto aos deuses pagãos: «E aos mensageiros de Juliano a Sibila respondeu:/ &#8220;Ide dizer ao rei que o belo palácio jaz por terra quebrado./ Phebo já não tem cabana nem loureiro profético/ nem fonte melodiosa. A água que fala calou-se»<EM>(24*)</EM>. A mesma realidade é descrita em «Delphica IV»<EM>(25*)</EM>, onde o mergulho do eu no real é a caminhada para Delfos, testemunho da existência do sagrado, para depois descobrir a força opressora, porque dessacralizada, do silêncio: «Porém quando cheguei o palácio jazia disperso e destruído/ As águias tinham-se ocultado no lugar da sombra mais antiga/ A língua torceu-se na boca da Sibila/ A água que primeiro eu escutei já não se ouvia».<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A mesma lição nos é dada na prefiguração da luta gigantesca de Apolo e <EM>Python</EM>, sinal da nova emergência da esfera das trevas e da anulação da harmoniosa solaridade apolínea que se concretiza na impossibilidade de uma construção justa do futuro: «Python venceu Apolo num frontão obscuro/ Quebrada foi desde seu eixo recto/ A construção possível do futuro»<EM>(26*)</EM>. O mesmo episódio da luta trevas/luz é, desta vez de forma mais pormenorizada, relatada em «Delphica VII»<EM>(27*)</EM>. O recrudescimento do mal na figura terrífica de Python (é o monstruoso, o &#8220;Apodrecido&#8221;, um emissor da fúria; o seu aspecto de réptil, habitante maléfico das entranhas da terra, identifica o seu carácter tenebroso) condiciona a anulação do divino («A ordem natural do divino é deslocada»; «Nenhum deus respira no respirar das coisas») e faz emergir uma profecia apocalíptica, à maneira hesiódica: «Tudo vai rolar na violência do instante». O tempo absoluto dos deuses vai dar lugar ao tempo dividido, de que o <EM>instante</EM> (normalmente rodeado de uma aura positiva: «Habitar o instante é ter acesso à eternidade»<EM>28</EM>*) surge aqui como símbolo que remete não só para a efemeridade, mas também para a violência e para o caos, que se opõem à harmoniosa permanência e durabilidade eterna inscrita no signo <EM>pedra</EM> («Nenhuma coisa é construída em pedra»). O que está em causa é, assim, a impossibilidade de atingir esse «puro tempo», esse «império/ Que à nossa espera [os deuses] tinham inventado»<EM>(29*)</EM>. E dessa constatação emerge uma profunda nostalgia de ser deus que atravessa muitos dos seus poemas, pelo que destacamos apenas três. Nos dois primeiros (de que se transcrevem excertos <EM>infra</EM>) é o desejo irrealizável da fruição excessiva do real natural que acorda no eu poético essa queixa amarga que reflecte a nostalgia do divino inserido no humano. Efectivamente, o amor pelo excesso da natureza é confrontado com o consciente amargor da impossibilidade de o ser humano, na sua imperfeição, o fruir:</P><BLOCKQUOTE dir=ltr style="MARGIN-RIGHT: 0px"><P align=left><EM>(...)<br/>As flores, as manhãs, o vento, o mar<br/>Não podem embalar a minha vida.<br/>Imperfeita não posso comungar<br/>Na perfeição aos deuses oferecida.(30*)</EM></P><P align=left><EM>(...)<br/>Porquê jardins que nós não colheremos,<br/>Límpidos nas auroras a nascer,<br/>Porquê o céu e o mar se não seremos<br/>Nunca os deuses capazes de os viver.(31*)</EM></P></BLOCKQUOTE><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No último dos poemas a que nos reportamos, intitulado «Lamentação de Adriano sobre a morte de Antinoos»<EM>(32*)</EM>, é a morte desse jovem bitínio de grande beleza, que se suicidou nas águas do Nilo e por cuja memória o imperador fundou uma cidade e erigiu numerosos templos, o motor da impossibilidade de levar a cabo o «projecto de viver a condição divina» que a paixão parecia possibilitar. Assim, se por um lado o amor (o amor ao real terrestre, o amor-solidariedade-compaixão em relação ao outro, ou mesmo o amor-paixão) surge como força motriz da vida humana e da poesia, a morte, como refere Maria João Borges, «presença constante na obra de Sophia», «surge como o mal absoluto, cuja consciência se vai ampliando e intensificando, até ao intolerável»,<EM>(33*)</EM> apesar de, por vezes, surgir numa tentativa de simplificação apotropeica, como acontece em «Sinto os mortos»<EM>(34*)</EM> («...a morte será simples como ir/ Do interior da casa para a rua»), ou numa perspectiva de projecção da efemeridade humana na perenidade da natureza, como em «Quando»<EM>(35*)</EM> («Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta//...// Será o mesmo brilho a mesma festa/.../ Como se eu não estivesse morta»). O grau mais violento da morte configura-se na degradação&nbsp;corporal, apenas ironicamente aflorada em «Traduzido de Kleist»<EM>(36*)</EM> e circunscrita aos «olhos apodrecidos», mas largamente repudiada no paradigmático e citadíssimo «Meditação do Duque de Gândia sobre a morte de Isabel de Portugal»<EM>(37*)</EM>, onde a morte é o veículo não só da separação, mas da destruição total, da mais tenebrosa degradação física de um corpo, que, mais trágico ainda, é o corpo amado. Nada mais diremos sobre este magnífico poema, remetendo para a brilhante leitura que dele faz Maria João Borges na sua reflexão sobre «O corpo e a morte»<EM>(38*)</EM> e rematando com uma lúcida conclusão acerca da morte em Sophia: «O grande mal é a impermanência, a corrosão que ameaça todos os seres»<EM>(39*)</EM>.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Essa capacidade de permanência e de eternização, atributo exclusivo dos deuses, relega o homem à «caserna provisória dos sobreviventes»<EM>(40*)</EM>, isto é, o homem não vive em plenitude, como um deus, mas sobrevive numa morada transitória, palavras que nos fazem lembrar as de Cícero, no seu <EM>De Senectute: Commorandi enim natura deuersorium nobis, non habitandi dedit (41*).</EM> A partir do momento em que a ruptura com o divino se estabelece, a realidade vã da vida humana agudiza-se. Ao perder o contacto com o sagrado («Pois o rio já não é sagrado e por isso nem sequer é rio»; «E o universo não brota das mãos de um deus do gesto e do/ sopro de um deus da alegria e da veemência de um deus»<EM>42</EM>*), o homem perde também a ligação à sua matriz divina, vive a impossibilidade de verdadeiramente ser, limitando-se por isso a «arranjar/ licença de residência» na vida, metaforicamente apresentada como a «caserna provisória dos sobreviventes». A vivência humana reflecte-se inevitavelmente numa poesia, classificada como «poesia de inverno», porque é uma «poesia do tempo sem deuses» que o sujeito poético tenta anular através da busca (sempre a busca) da palavra-relação, da palavra-emoção («Meu coração busca as palavras do estio/ Busca o estio prometido nas palavras») que se oponha à palavra-coisa manuseada por agentes nos quais está ausente qualquer forma de emoção poética: «Pinças assépticas/ Colocam a palavra-coisa/ Na linha do papel/ Na prateleira das bibliotecas»<EM>(43*)</EM>. A busca deve ser incessante para que a poesia, «Árvore abstracta e desfolhada/ No inverno da nossa descrença», consiga participar de um estio redentor, escondido no simples toque de um deus, como <EM>Dionysos</EM>: «E pelo Deus tocado renasceu/ Todo o fulgor de antigas primaveras»<EM>(44*)</EM>.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mas não são só os deuses profanos que encerram esta capacidade cosmogónica de revitalização do mundo e das coisas. Em interpelação ao deus do monoteísmo, é feito o mesmo pedido: «Peço-te que sejas o presente./ Peço-te que inundes tudo./ E que o Teu reino antes do tempo venha/ E se derrame sobre a terra/ Em Primavera feroz precipitado». Neste poema, intitulado «Chamo-te»<EM>(45*)</EM>, há simultaneamente uma interpelação e uma prece messiânica para que nasça uma nova idade, reminiscência desse <EM>Ver aeternus</EM> ovidiano, mas também uma tácita acusação («Há muitas coisas que eu não quero ver») que nasce da realidade do tempo presente. É curioso notar que se os deuses pagãos foram destruídos por Python, pelo tempo, ou pelo esquecimento dos homens, e não se confundiram com o mal, demarcando-se sempre dele, o deus cristão surge por vezes em estado de proximidade com esse mesmo mal. Dois poemas de <EM>Mar Novo(46*)</EM> equacionam esta problemática. O primeiro, «Senhor», já supra referido, apostrofa um deus sem rosto que permite a emergência do mal («Senhor se da tua pura justiça/ Nascem os monstros que em minha roda eu vejo»), um deus que perdeu a sua inteireza («Muito tempo antes de eu ter vindo/ Já se tinha a tua obra dividido»), um deus ausente («Mas tu és de todos os ausentes o ausente»<EM>(47*)</EM>; «Em vão busco a tua face antiga»<EM>48*</EM>), ao contrário de Apolo e Dioniso sempre presentes, porque gravados no real. Em relação a este Deus, há a necessidade de uma busca no âmbito do real («Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro/ Sabendo que o real o mostrará»<EM>49*</EM>). É também em «Sinal de Ti»<EM>(50*)</EM> que se testemunha esta ausência, que obsessivamente o sujeito poético invoca: «Não darei teu nome à minha sede/ De possuir os céus azuis sem fim...// Não darei teu nome à limpidez/ De certas horas puras que perdi...// Tu não nasceste das paisagens/ Nenhuma coisa traz o Teu sinal, É Dionysos quem passa nas estradas/ E Apolo quem floresce nas manhãs.// A presença dos céus não é a Tua.../ Os oceanos não dizem que os criaste,/ Nem deixas o Teu rasto nos caminhos». Trata-se de um deus que, ao contrário do que acontece com os deuses pagãos<EM>(51*)</EM>, não se inscreve na matriz natureza, que chega até a exigir a quebra da aliança homem-natureza<EM>(52*)</EM>, que não está ligado ao real e que por isso não se realiza cabalmente na sua transcendência<EM>(53*)</EM>, nem satisfaz a sede ontológica e metafísica do eu poético («Em tudo Te vi amanhecer/ Mas nenhuma presença te cumpriu»<EM>54*</EM>). Se o deus não se encontra no real natural, torna-se, pelo contrário, perfeitamente visível «à transparência das cidades», espaço que funciona, como já vimos, como microcosmos onde o mal se produz e reproduz. Transcrevemos na íntegra o poema «És Tu que estás»:</P><BLOCKQUOTE dir=ltr style="MARGIN-RIGHT: 0px"><P><EM>És tu que estás à transparência das cidades<br/>Vê-se o Teu rosto para além dos bairros interditos.</EM></P><P><EM>O mal palpável próximo insistente<br/>Parece tornar-Te evidente.</EM></P><P><EM>Sobe do destino uma sede de Ti.<br/>Não somos só isto que se torce<br/>Com as mãos cortadas aqui.(55*)</EM></P></BLOCKQUOTE><P>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; À ausência denunciada nos outros poemas, sobrepõe-se agora a presença de um ser que já tem um rosto («Vê-se o Teu rosto para além dos bairros interditos»), que é agora possível visualizar graças à presença do mal que, mais do que um conceito abstracto, é uma terrível e concreta realidade (veja-se o carácter quase fisiológico do mal transmitido pela tripla adjectivação). Só nesta medida a visibilidade do deus é uma realidade e só agora surge a «sede de Ti», uma sede que nasce de uma terrível sensação de amputação e de agonia, que é, afinal, outra forma de evidenciar a nostalgia do divino. Mais uma vez recorrendo ao solidário nós, em detrimento do solitário eu, se nega peremptoriamente uma condição humana votada ao mal, à imperfeição, à incompletude, uma condição humana onde não se inscreva a matriz divina e natural aos homens devida e prometida («Não somos só isto...»).<br/>Para este sentimento de ausência, de amputação, contribui o próprio percurso do Cristo-Vidente, figura forte e exemplar, inicialmente apresentada como inegável «sinal» de um mundo perfeito, feito de «imagens de oiro», um mundo em que era possível a concretização dos sonhos<EM>(56*)</EM>, para depois ser sujeito a uma queda da qual não há regresso («E ei-lo caído à beira do caminho,/ Ele &#8211; o que partira com mais força/ Ele &#8211; o que partira pra mais longe»<EM>57*</EM>). A queda do filho de deus condena o homem à vivência e à permanência numa eterna «encruzilhada», num labirinto que o próprio deus encarnado não conseguiu solucionar.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Este fatalismo pessimista ligado ao deus masculino, não parece estar presente no divino prefigurado em figuras femininas tal como são abordadas em «Senhora da Saúde»<EM>(58*)</EM>e «Santa Clara de Assis»<EM>(59*)</EM>. Sente-se aqui a forte ligação da divindade à terra e ao mar, ao contrário do que acontecia com o deus masculino, o que reveste estas figuras de uma euforia muito especial. Deste modo, à Senhora da Saúde é atribuído um rosto imbuído de luminosidade marítima, sinal de uma pureza verdadeiramente original («Seu rosto seria a cintilante claridade/ De uma praia/ E em sua humana carne brilharia/ A luz sem mancha do primeiro dia»), o velo de ouro tão incessantemente buscado pelo eu poético. A atenção, apanágio da «Senhora da Rocha»<EM>(60*)</EM> a que adiante nos referiremos («Imóvel muda atenta como antena») subjaz também à figura de Santa Clara de Assis («Coração atento ao rosto das imagens»), o que lhe permite, descodificando a natureza, aceder à «unidade prometida» e surgir vertical e diafanamente «Inteira onde os outros se dividem». O poema já referido, «Senhora da Rocha», surge como um caso à parte. A Senhora não se funde com a Natureza, mas é apresentada como resistindo à sua violência («Assaltada pelo clamor do mar e a veemência do vento»), restrita ao espaço fechado, ainda que luminoso da capela, numa mobilidade e num mutismo que não a impedem de estar «atenta como antena», pronta a captar todos os sinais do mundo exterior, não obstante o seu enclausuramento. Este poema reveste-se de uma importância extraordinária no esclarecimento do dualismo paganismo/cristianismo patente na obra de Sophia e que vem de encontro ao testemunho do próprio Poeta: «Se o que me atrai no mundo grego é a confiança, um sentido positivo, o Cristianismo é, para mim, a positividade extrema, uma vez que se funda na Ressurreição. O mundo grego é detido pela morte; o mundo cristão não é detido pela morte»<EM>(61*)</EM>. Estas palavras são citadas também por Carlos Ceia que as considera «uma justificação elusiva, não existindo outro testemunho escrito sobre esta questão importante»<EM>(62*)</EM> e que contra-argumenta com a forte crença na imortalidade da <EM>psyché</EM> patente nas religiões da antiguidade clássica<EM>(63*)</EM>. Ora, é precisamente em «Senhora da Rocha» que podemos encontrar outro testemunho do que afirma Sophia a Miguel Serras Pereira: «O reino dos antigos deuses não resgatou a morte/ E buscamos um deus que vença connosco a nossa morte//(...)// Os deuses de mármore afundam-se no mar». É um facto que Sophia se volta constantemente para a Grécia para haurir a sua harmonia e sacralidade, para participar da sua vocação (re)criadora que permita um <EM>renascimento</EM> lustral, mas assistimos aqui ao reconhecimento do soçobrar desses «deuses de mármore», desses deuses que já não se inscrevem na matriz da natureza, mas que se afundam nos abismos marinhos. Estaremos num labirinto sem saída? Talvez não. É o próprio Poeta que resolve esse dualismo, metamorfoseando-o em miscigenação, no poema «Ressurgiremos», onde se preconiza a necessidade de «erguer a negra exactidão da cruz/ Na luz branca de Creta». Cremos que estamos sobretudo perante uma <EM>fusão</EM> completa desse dualismo, mais do que perante uma <EM>sobreposição</EM> dos valores cristãos aos valores clássicos gregos, como refere Maria João Borges: «a salvação na modalidade cristã (&#8220;a negra exactidão da cruz&#8221;), que podemos entender aqui como pensamento sobre a morte, sobrepõe-se à vivência grega (&#8220;E erguer&#8221;), mas não a dispensa, antes constitui (a cruz) ponto de orientação (&#8220;a negra exactidão da cruz&#8221;) nesse mundo (grego), na sua luminosidade particular»<EM>(64*)</EM>. Relativamente aos elementos cristãos, inegavelmente patentes na sua obra, surgem não só ligados à consciência da morte, mas decorrem também «de uma consciência muito aguda do outro como ser que sofre»<EM>(65*)</EM>. Encontramos o <EM>pathos</EM> do outro exemplarmente denunciado no conto «O Homem», figura crística de um apelo irremissível, ou descoberto por Baltasar em «Os Três Reis do Oriente», ou cristalizado em inúmeros poemas que já tivemos oportunidade de focar e em que está patente a adesão à perspectiva da vítima. É realmente neste âmbito que os valores do cristianismo se projectam com maior energia. O tema da superioridade dos valores cristãos na vitória sobre a morte esbarra no já citado poema «O Vidente», onde se explora o tema da queda, mas não se alude sequer ao tema da ressurreição, e no X poema de O <EM>Cristo Cigano</EM>, cuja última estrofe remete para a <EM>morte crua</EM>: «Já não tem esplendor nem tem beleza/ Já não é semelhante ao sol e à lua/ Seu corpo já não lembra uma coluna/ É feito de suor o seu vestido/ A sua face é dor e morte crua»<EM>(66*)</EM>. Somente em «Canon»67, poema datado de 1993, se faz uma clara referência à ressurreição de Cristo e à partilha da sua ressurreição «com todos os homens».<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Não obstante estas divergências, é curioso notar que no plano humano, como no plano divino, é preponderantemente a figura feminina quem melhor consegue estabelecer essa aliança, essa fusão com o mundo natural que o homem tem dificuldade em concretizar<EM>(68*)</EM>. É o caso de «A rapariga e a praia»<EM>(69*)</EM>, «Retrato de mulher»<EM>(70*)</EM> e «Mulheres à beira-mar»<EM>(71*)</EM>, cuja descrição é construída a partir de elementos naturais como a <EM>espiga</EM>, em relação aos dois primeiros casos, o <EM>vento</EM> o <EM>mar</EM> e o ar na última composição referida. Dos três poemas sobressai a capacidade natural que parece estar latente nas mulheres para actualizar a cada momento essa intensa e necessária fusão, para a total fruição do real, para atingir a plenitude. A propósito da última composição, que analisa em contraste com «Homens à beira-mar», afirma Maria João Borges: «É da fruição da materialidade e densidade do corpo que nasce o sentimento de liberdade, enraizado, assim, num corpo que não conhece limites, visto que se funde e se prolonga no corpo do mundo, da praia e do mar (...). Não conhecem também o estranhamento do próprio desejo dos &#8220;Homens à beira-mar&#8221;: habitando em felicidade o corpo que é o eixo do contacto com o mundo, o desejo do outro que as caracteriza não corresponde à ânsia do longe dos &#8220;Homens&#8221;, mas traduz-se na perfeita osmose com o real, as coisas, que ao seu contacto respondem, milagrosamente (...). Entre o corpo das mulheres e o corpo do real, das coisas, há uma continuidade...»<EM>(72*)</EM>. Nesta linha surge inequivocamente a personagem feminina do conto «A Viagem» que, como refere a mesma autora, ao contrário da teia analítica e racional em que se enreda a personagem masculina, «está atenta às coisas, frui-as, identificando-se com a terra, de que celebra os esplendores como dádiva»<EM>(73*)</EM>. Tão longe estamos da figura da mulher-artifício invectivada por Hesíodo, daquela que foi responsável pela desagregação do mundo simples, natural e uno até ali apanágio dos homens: a terrível Pandora.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Sob este ponto de vista, a mulher, a sua facilidade inata em operar a osmose com o real, participa mais facilmente da esfera divina. Não esqueçamos que é no mundo natural que Sophia procura, numa perspectiva panteísta, o divino, mas há um espaço artificial, construído pelo homem, em que ele pode ser detectado. Referimo-nos ao espaço-casa, muito ligado à rememoração da infância e ao ser mulher e cuja sacralidade é desvendada em «As casas»<EM>(74*)</EM> e «Habitação»<EM>(75*)</EM>. A presença do divino é inequivocamente atestada pelo eu poético, quer no primeiro («Há sempre um deus fantástico nas casas/ Em que eu vivo»), quer no segundo dos poemas («No princípio a casa foi sagrada -/ Isto é habitada/ Não só por homens e por vivos/ Mas também pelos mortos e por deuses»), com a diferença de que à perenidade patente no primeiro se opõe, no último, a noção de dessacralização, de perda desse cosmos onde humano e divino viviam em perfeita harmonia. O Poeta assume-se, assim, como o ser que reactualiza o sagrado em cada espaço que habita, que é seguido por esse sagrado onde se prefigura também e sempre o mundo natural: «...e em volta dos meus passos/ Eu sinto os grandes anjos cujas asas/ Contêm todo o vento dos espaços»<EM>(76*)</EM>. Veja-se «A Casa do Mar» (<EM>in Histórias da Terra e do Mar</EM>) cuja localização espacial remete para o «centro do universo, orientada em relação aos quatro pontos cardeais»<EM>(77*)</EM> e que se reveste de uma aura primordial («E tudo parece intacto e total como se ali fosse o lugar que preserva em si a força nua do primeiro dia criado»<EM>78*</EM>) e «A noite e a casa»<EM>(79*)</EM>, onde tudo se realiza sob o signo da unidade («Nada agora se dispersa e se divide»). <br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Esta proximidade entre o homem e o divino é essencial para o ser humano, inerente ao seu ser. Como refere Martin Heidegger, em <EM>Carta sobre o Humanismo</EM>, a propósito da leitura da sentença de Heraclito (fr. 119),&nbsp; «o homem habita, na medida em que é homem, na proximidade de Deus»<EM>(80*)</EM>. O mesmo filósofo, reportando-se a Aristóteles (<EM>De part. Anim.</EM> A 5. 645 a 17), refere: «Narra-se de Heraclito uma palavra que teria dito aos forasteiros que queriam chegar até ele. Aproximando-se, viram-no como se aquecia junto ao forno. Detiveram-se surpresos; isto, sobretudo, porque Heraclito ainda os encorajou &#8211; a eles que hesitavam &#8211; convidando-os a entrar, com as palavras: &#8220;Pois também aqui estão presentes os deuses...&#8221; »<EM>(81*)</EM>. A ideia de que os deuses habitam junto dos homens, no âmbito do quotidiano, do familiar, é extremamente importante para o sujeito em Sophia, que vai encontrando em vários espaços (a casa, a Natureza, os lugares da Antiguidade Clássica) a possibilidade de restaurar os laços com o divino, a possibilidade de reinstaurar o homem num mundo sacralizado («Peço-te que venhas e me dês/ Um pouco de ti mesmo onde eu habite»<EM>82*</EM>). Terminamos com «Museu»<EM>(83*)</EM>, espaço de fruição do Belo, cuja sacralidade convida a uma embriaguez estética, pois também, e sobretudo, na arte se encontra o divino:</P><BLOCKQUOTE dir=ltr style="MARGIN-RIGHT: 0px"><P>Aqui &#8211; como convém aos mortais &#8211;<br/>Tudo é divino<br/>E a pintura embriaga mais<br/>Que o próprio vinho.</P></BLOCKQUOTE><P dir=ltr align=center><IMG src="./archive/deus_apolo.jpg"></P><P dir=ltr align=left><EM>(1*)</EM> «A Diotima», in Poemas, Lisboa, Instituto de Cultura Alemã, 1945, p. 29.<br/><EM>(2*)</EM> «Quando era menino...», in <EM>ibidem</EM>, p. 59.<br/><EM>(3*)</EM> «Homenagem a Ricardo Reis, II», in <EM>Geografia</EM>, in <EM>Obra Poética III</EM>, p. 121.<br/><EM>(4*)</EM> «Torso», in <EM>O Nome das Coisas</EM>, in <EM>Obra Poética III</EM>, p. 188.<br/><EM>(5*)</EM> «Antiguidade Clássica», in<EM> O Nu a a Arte</EM>,Lisboa, Estúdios Cor, 1975, p. 123.<br/><EM>(6*)</EM> Idem, <EM>ibidem</EM>, p. 125.<br/><EM>(7*)</EM> «Como os poetas nos recomendam o homem não deve, porque é homem, pensar apenas nas coisas humanas, nem, porque é mortal, pensar apenas nas coisas mortais: o homem deve, na medida das suas possibilidades, viver uma vida divina», in Aristóteles, <EM>Ética a Nicómaco</EM>, X, 7, 1177B 30, cit. por Sophia de Mello Breyner, «Antiguidade clássica», in <EM>op. cit.</EM>, p. 124.<br/><EM>(8*)</EM> «Pela forma corpórea, ou no vigor do espírito,/ somos no entanto como os imortais/ embora não saibamos onde/ no meio de que dias ou que noites/ o Destino escreveu que deveremos/ findar nossa carreira» (cit. por Sophia de Mello Breyner Andresen, «Antiguidade clássica», in <EM>op. cit.</EM>, p. 124).<br/><EM>(9*) Trabalhos e&nbsp;Dias</EM><br/><EM>(10*)</EM> A expressão é de Mircea Eliade: «Seja qual for o contexto histórico em que se encontra, o <EM>homo religiosus</EM> crê sempre que existe uma realidade absoluta, o <EM>sagrado</EM>, que transcende este mundo mas que se manifesta neste mundo, e, por este facto, o santifica e o torna real. Crê, além disso, que a vida tem uma origem sagrada e que a existência humana actualiza todas as suas potencialidades na medida em que é religiosa, quer dizer: participa da realidade». Cf. Mircea Eliade, <EM>O sagrado e o profano:a essência das religiões</EM>, p. 145.<br/><EM>(11*)</EM> Sophia de Mello Breyner Andresen, «Antiguidade Clássica», in <EM>op. cit.</EM>, p.141.<br/><EM>(12*)</EM> Mircea Eliade, <EM>O sagrado e o profano: a essência das religiões</EM>, p. 59: «O homem religioso só pode viver num mundo sagrado porque somente um tal mundo participa do ser, existe realmente. Esta necessidade religiosa exprime uma inextinguível sede ontológica. O homem religioso é sedento do ser».<br/><EM>(13*)</EM> «Poema», in <EM>Geografia</EM>, in <EM>Obra Poética III</EM>, p. 89.<br/><EM>(14*)</EM> Palavras da própria Sophia acerca de Hölderlin: «Hölderlin», in <EM>Diário Popular</EM>, 30/05/96.<br/><EM>(15*)</EM> <EM>Geografia</EM>, in <EM>Obra Poética III</EM>, pp. 93-4.<br/><EM>(16*)</EM> «No tempo dividido», in <EM>No Tempo Dividido</EM>, in <EM>Obra Poética II</EM>, p. 34.<br/><EM>(17*)</EM> Cf. Pierre Vidal-Naquet, «Temps des dieux et temps des hommes», in <EM>La Grèce ancienne</EM>, vol 2: <EM>L&#8217;espace et le temps</EM>, Paris, Seuil, 1990-91, pp. 147-174.<br/><EM>(18*) No Tempo Dividido</EM>, in <EM>Obra Poética II</EM>, p. 23.<br/><EM>(19*)</EM> É necessário não esquecer que a rosa simboliza o efémero. Veja-se, por exemplo, a fábula de Esopo, «A rosa e o amaranto» (Fáb. 323, Chambry): o amaranto elogia a beleza e o perfume da rosa que a faz ser a preferida dos deuses e dos homens; mas a rosa queixa-se da sua vida efémera, comparando-se ao amaranto, que perpetuamente floresce e se mantém jovem. <EM>(20*)</EM> «As rosas», in <EM>Dia do Mar</EM>, in <EM>Obra Poética I</EM>, p. 89. Sophia refere-se precisamente a este poema em entrevista a José Carlos de Vasconcelos: « Há um poema que diz: &#8220;Quando à noite desfolho e trinco as rosas&#8221;. Isto é absolutamente verdade: eu ia para o jardim da minha avó colher rosas, a minha avó já tinha morrido e era um jardim semiabandonado, colhia camélias no Inverno e rosas na Primavera. Trazia imensas rosas para casa, havia sempre uma grande jarra cheia delas em frente da janela, no meu quarto. E depois eu desfolhava e comia as rosas, mastigava-as... No fundo era a tentativa de captar qualquer coisa a que só posso chamar a alegria do universo, qualquer coisa que floresce», in <EM>Jornal de Letras</EM>, 25/06/91.<br/><EM>(21*)</EM> «Exílio», in <EM>O Nome das Coisas</EM>, in <EM>Obra Poética III</EM>, p. 220.<br/><EM>(22*)</EM> <EM>Geografia</EM>, in <EM>Obra Poética III</EM>, pp. 70-1.<br/><EM>(23*)</EM> Relembremos as palavras de Sophia a propósito da obra de Policleto que «mostra com uma maior evidência o caminho próprio do génio grego»: «a busca duma harmonia pela qual o ser individual se integra num conjunto sem se perder nele, como a coluna feita para ser integrada no templo mas que no entanto é inteira em si mesma, existe em si e por si, mesmo separada do templo». Cf. «Antiguidade Clássica», in <EM>op. cit.</EM>, p. 167.<br/><EM>(24*)</EM> Vide o mesmo texto a propósito da dessacralização do nu (idem, <EM>ibidem</EM>, p. 185).<br/><EM>(25*)</EM> <EM>Geografia</EM>, in <EM>Obra Poética III</EM>, pp. 112-3.<br/><EM>(26*)</EM> «Delphica II», in <EM>Geografia</EM>, <EM>Obra Poética III</EM>, p. 110.<br/><EM>(27*)</EM> <EM>Geografia</EM>, in <EM>Obra Poética III</EM>, p. 116.<br/><EM>(28*)</EM> Maria João Quirino Rosa da Cunha Borges, <EM>Em torno do conceito de &#8220;poesia pura&#8221;: Cinatti, Sophia e Eugénio de Andrade (a poesia como investidura, iniciação e respiração)</EM>, dissertação de doutoramento em Literatura Portuguesa apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 1996, p. 349.<br/><EM>(29*)</EM> «As três Parcas», in <EM>Mar Novo</EM>, in <EM>Obra Poética II</EM>, p. 56.<br/><EM>(30*)</EM> «Pra minha imperfeição», in <EM>Dia do Mar</EM>, in <EM>Obra Poética I</EM>, p. 149.<br/><EM>(31*)</EM> «Bebido o luar», in <EM>Dia do Mar</EM>, in <EM>Obra Poética I</EM>, p. 150.<br/><EM>(32*)</EM> <EM>Dual</EM>, in <EM>Obra Poética III</EM>, p. 154.<br/><EM>(33*)</EM> Maria João Quirino Rosa da Cunha Borges, <EM>op. cit.</EM>, p. 342.<br/><EM>(34*)</EM> <EM>Poesia I</EM>, in <EM>Obra Poética I</EM>, p. 65.<br/><EM>(35*)</EM> <EM>Dia do Mar</EM>, in <EM>Obra Poética I</EM>, p. 145.<br/><EM>(36*)</EM> <EM>Livro Sexto</EM>, in <EM>Obra Poética II</EM>, p. 122.<br/><EM>(37*) Mar Novo</EM>, in <EM>Obra Poética II</EM>, p. 62.<br/><EM>(38*)</EM> Maria João Quirino Rosa da Cunha Borges, <EM>op. cit.</EM>, pp. 340-349.<br/><EM>(39*)</EM> Idem, <EM>ibidem</EM>, p. 348.<br/><EM>(40*)</EM> «Poesia de Inverno», in <EM>Geografia</EM>, in <EM>Obra Poética III</EM>, pp. 85-6.<br/><EM>(41*)</EM> <EM>Cícero</EM>, <EM>De Senectute</EM>, XXIII, 84.<br/><EM>(42*)</EM> Cf. «Poesia de Inverno», poema <EM>supra</EM> citado.<br/><EM>(43*) Ibidem</EM>.<br/><EM>(44*)</EM> «Ariane em Naxos», in <EM>Geografia</EM>, in <EM>Obra Poética III</EM>, p. 153.<br/><EM>(45*)</EM> <EM>Coral</EM>, in <EM>Obra Poética I</EM>, p. 188.<br/><EM>(46*)</EM> «Senhor» e «És Tu que estás», in <EM>Mar Novo</EM>, in <EM>Obra Poética II</EM>, p. 47 e 84, respectivamente.<br/><EM>(47*)</EM> «Eis-me», in <EM>Livro Sexto</EM>, in <EM>Obra Poética II</EM>, p. 117. Cf. também «O vazio desenhava desde sempre», in <EM>Geografia</EM>, in <EM>Obra Poética III</EM>, p. 45.<br/><EM>(48*)</EM> «Senhor», in <EM>Mar Novo</EM>, in <EM>Obra Poética II</EM>, p. 47.<br/><EM>(49*)</EM> «Poema», in <EM>Geografia</EM>, in <EM>Obra Poética III</EM>, p. 89.<br/><EM>(50*)</EM> <EM>Poesia I</EM>, in <EM>Obra Poética I</EM>, pp. 71-2.<br/><EM>(51*)</EM> Cf.«Mergulhando no corpo desse deus/ que se oferece, como um beijo, nas paisagens» in «Vi», in <EM>Dia do Mar</EM>, in <EM>Obra Poética I</EM>, p. 147. Cf. também «Os Deuses» (in <EM>Dia do Mar</EM>, in <EM>Obra Poética I</EM>, p. 100) e «Estátua de Buda», (in <EM>Ilhas</EM>, in <EM>Obra Poética III</EM>, p. 336). Atente-se ainda nas palavras de Sophia num artigo sobre Hölderlin: «Deus é o criador da Natureza e a natureza é a sua obra. A ordem dos astros manifesta o poder de Deus mas não o contém. Pelo contrário, os deuses gregos estão contidos na natureza, nascem da natureza...» in <EM>Diário Popular</EM>, 30/05/96.<br/><EM>(52*)</EM> Cf. «Reconheceremos», in <EM>Coral</EM>, in <EM>Obra Poética I</EM>, p. 227.<br/><EM>(53*)</EM> Em entrevista a Luís Figueiredo Tomé, Sophia afirma: «Penso que a fidelidade à transcendência está ligada à fidelidade à imanência» in <EM>Diário de</EM> <EM>Notícias</EM>, 20/12/87. Também a propósito do binómio imanência/transcendência, refere Maria João Borges: «Em Sophia a imanência não nega a transcendência; como em Hölderlin, será a relação &#8211; procurada &#8211; com a imanência que permitirá o contacto, a experiência, com a transcendência» (Maria João Quirino Rosa da Cunha Borges, <EM>A arte poética de Sophia de Mello Breyner Andresen como &#8220;arte do ser&#8221;: os contos como explicitação de uma poética</EM>, tese de mestrado em Literatura Portuguesa apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 1987, p. 9).<br/><EM>(54*)</EM> «Gesto», in <EM>Dia do Mar</EM>, in <EM>Obra Poética I</EM>, p. 142.<br/><EM>(55*)</EM> «És tu que estás», in <EM>Mar Novo</EM>, in <EM>Obra Poética II</EM>, p. 84.<br/><EM>(56*)</EM> Relembremos as palavras da própria Sophia sobre a sua noção de «vidente» num artigo sobre Maria Helena Vieira da Silva: «Os videntes não são inventores de fantasmagorias. São aqueles que estão mais puramente atentos, os que escutam melhor, os que olham mais, os que sabem esperar, os que estão mais rigorosamente concentrados na paixão da visão» in <EM>Diário Popular</EM>, 26 / 11/ 64.<br/><EM>(57*)</EM> «O Vidente», in <EM>Poesia I</EM>, in <EM>Obra Poética I</EM>, p. 73.<br/><EM>(58*)</EM> <EM>Ilhas</EM>, in <EM>Obra Poética III</EM>, p. 296.<br/><EM>(59*)</EM> <EM>No Tempo Dividido</EM>, in <EM>Obra Poética II</EM>, p. 37.<br/><EM>(60*)</EM> <EM>Geografia</EM>, in <EM>Obra Poética III</EM>, pp. 15-16.<br/><EM>(61*)</EM> Entrevista a Miguel Serras Pereira, <EM>Jornal de Letras</EM>, 05/02/85. <br/><EM>(62*)</EM> Carlos Ceia, «A natureza da filomitologia de Sophia», <EM>O Escritor</EM>, nº 6, Dezembro de 1995, p. 106.<br/><EM>(63*)</EM> Idem, <EM>ibidem</EM>.<br/><EM>(64*)</EM> Maria João Quirino Rosa da Cunha Borges, <EM>op. cit.</EM> (1996), pp. 312-13.<br/><EM>(65*)</EM> Idem, <EM>ibidem</EM>, p. 313.<br/><EM>(66*)</EM> «Aparição», in <EM>O Cristo Cigano, Círculo de Poesia</EM>, 90, Lisboa, Moraes Editores, 1978, p. 22.<br/><EM>(67*) Musa</EM>, p. 37.<br/><EM>(68*)</EM> Esta postura global de Sophia perante a mulher distancia-se abissalmente da perspectiva hesiódica, segundo a qual Pandora não só não se integra no mundo natural, mas é inclusivamente responsável pela introdução do artifício (a linguagem, a sedução, a arte de tecer) nesse mesmo mundo.<br/><EM>(69*)</EM> <EM>Geografia</EM>, in <EM>Obra Poética III</EM>, p. 138.<br/><EM>(70*)</EM> <EM>O Nome das Coisas</EM>, in <EM>Obra Poética III</EM>, p. 207.<br/><EM>(71*)</EM> <EM>Coral</EM>, in <EM>Obra Poética I</EM>, p. 169.<br/><EM>(72*)</EM> Maria João Quirino Rosa da Cunha Borges, <EM>op. cit.</EM>(1996), p. 388.<br/><EM>(73*)</EM> Idem, <EM>ibidem</EM>, p. 409.<br/><EM>(74*)</EM> <EM>Dia do Mar</EM>, in <EM>Obra Poética I</EM>, p. 141.<br/><EM>(75*)</EM> <EM>Ilhas</EM>, in <EM>Obra Poética III</EM>, p. 311.<br/><EM>(76*)</EM> «As casas», in <EM>Dia do Mar</EM>, in <EM>Obra Poética I</EM>, p. 141.<br/><EM>(77*)</EM> Maria João Quirino Rosa da Cunha Borges, <EM>op. cit.</EM> (1987), p. 30.<br/><EM>(78*)</EM> Sophia de Mello Breyner Andresen, <EM>Histórias da terra e do Mar</EM>, p. 72.<br/><EM>(79*)</EM> <EM>Geografia</EM>, in <EM>Obra Poética III</EM>, p. 37.<br/><EM>(80*)</EM> Martin Heidegger, <EM>Carta sobre o humanismo</EM>, p. 85.<br/><EM>(81*)</EM> Idem, <EM>ibidem</EM>, p. 86.<br/><EM>(82*)</EM> «Poemas de um livro destruído &#8211; VI», in <EM>No Tempo Dividido</EM>, in <EM>Obra</EM> <EM>Poética II</EM>, p. 16.<br/><EM>(83*)</EM> Resulta interessante o confronto entre a aura sagrada exalada pelo Museu neste poema e a atitude maquinal, isenta de criatividade e emoção estética dos <EM>turistas no Museu</EM> que «Caminham em rebanho como os animais». Cf. «Turistas no Museu», in <EM>O Búzio de Cós e outros poemas</EM>, p. 19.</P>
<h2>Nº 13 - Série 3 - Inverno 2003/2004</h2><p align="center"><a href="http://picasaweb.google.pt/lh/photo/Wy5Nk9BAbJTfozllMRi8TQ?feat=embedwebsite"><img src="http://lh4.ggpht.com/_1tggD33jlcU/SrnsVZ5lPqI/AAAAAAAAARo/saKeJkVk9RE/s800/mealibra_13_capa.jpg"></a><br/></p><ul><li><div align="left"><a href="/ccaminho/pt/?&amp;download=m13_sumario.pdf">Sumário</a></div></li><li><div align="left"><a href="/ccaminho/pt/?Edi%E7%F5es%3A_Mealibra/N%BA_13_-_S%E9rie_3_-_Inverno_2003%2F2004/Conto_In%E9dito_de_Fernando_Pessoa">"Conto Inédito de Fernando Pessoa"</a>, com introdução de Teresa Rita Lopes (pp. 11-14)</div></li><li><div align="left"><a href="/ccaminho/pt/?Edi%E7%F5es%3A_Mealibra/N%BA_13_-_S%E9rie_3_-_Inverno_2003%2F2004/%22O_Holig%E3o%22">"O Holigão"</a>, de Maria Isabel Barreno (pp. 33-36)</div></li><li><div align="left"><a href="/ccaminho/pt/?Edi%E7%F5es%3A_Mealibra/N%BA_13_-_S%E9rie_3_-_Inverno_2003%2F2004/%22Prosema_sobre_uma_vergonha%22">"Prosema sobre uma vergonha"</a>, de Onésimo Teotónio Almeida (pp. 43-44)</div></li><li><div align="left"><a href="/ccaminho/pt/?Edi%E7%F5es%3A_Mealibra/N%BA_13_-_S%E9rie_3_-_Inverno_2003%2F2004/%22Di%E1rio_de_uma_viagem_%E0s_Am%E9ricas%22">"Diário de uma viagem às Américas"</a>, por Eugénio Lisboa (pp. 53-60)</div></li><li><div align="left">Poesia de <a href="/ccaminho/pt/?Edi%E7%F5es%3A_Mealibra/N%BA_13_-_S%E9rie_3_-_Inverno_2003%2F2004/Poesia_de_Nuno_J%FAdice">Nuno Júdice</a> - "Alquimia", "UT PICTURA POESIS (variante com flash)", e "Jantar" (pp. 67-68)</div></li><li><div align="left"><a href="/ccaminho/pt/?Edi%E7%F5es%3A_Mealibra/N%BA_13_-_S%E9rie_3_-_Inverno_2003%2F2004/Sobre_o_livro%3A_%22O_inimigo_sem_rosto_-_Fraude_e_Corrup%E7%E3o_em_Portugal%22">Sobre o livro: "O inimigo sem rosto - Fraude e corrupção em Portugal (de Maria José Morgado e José Vegar)"</a>, por Manuel Simas Santos (pp. 89-92)</div></li></ul>
<H3>Conto Inédito de Fernando Pessoa</H3><H4 align=right>com introdução de Teresa Rita Lopes (pp. 11-14)</H4><P><br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Pessoa foi um infatigável contador de estórias, embora a maior parte delas continue inédita. Estamos a braços (eu e a Ana Freitas) com a gigantesca tarefa de catar na celebérrima Arca&nbsp; as folhas soltas e misturadas desses contos que Pessoa foi escrevendo ao longo da vida. Diga-se desde já que da maior parte deles ficaram os planos e os fragmentos &#8211; por diferentes razões . Mas creio que sobretudo porque Pessoa escrevia de forma muito particular : ia-se escrevendo, ao longo da vida, como quem faz um diário&nbsp; - ou melhor, vários diários ao mesmo tempo, sob diferentes máscaras. A do contador é uma delas, quer tenham recebido nome de gente ou não. Nome, isto é, nomes.<br/>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Curiosamente, todas as &#8220;personalidades literárias&#8221; ( pré-heteronímicas), dos primeiros tempos, em língua inglesa, escreveram contos. A mais antiga, David Merrick,concebeu, em inglês , o conto fantástico-filosófico <EM>A Hora do Diabo</EM> ( que editei em 1997 na Assírio e Alvim) a que então chamou <EM>Devil&#8217;s Voice</EM> &#8211; entre outros. As que se lhe seguiram &#8211; de certo modo, metamorfoses em cadeia, umas das outras, Charles Robert Anon, Horace James Faber, Alexander Search &#8211; foram-se transmitindo não só a vocação de contadores de estórias mas as próprias estórias. É assim que&nbsp;&nbsp; o plano de David Merrick de escrever &#8220;Tales of a Madman&#8221; foi herdado, por volta de 1907, por Vicente Guedes (&#8220;Contos de um Doido&#8221;) que se proporá traduzir alguns dos imaginados&nbsp; ou mesmo escritos pelos seus predecessores .Este primeiro autor do Livro do <EM>Desassossego</EM> que se aplicará também a escrever os seus próprios contos&nbsp; passará , por seu turno, a sua vocação e bastantes projectos não realizados a um outro contador de estórias, um tal Pero Botelho, que terá , por sua vez, imaginado e contado o Dr. Abílio Quaresma... Pero Botelho terá herdado&nbsp
